Uso da mídia por partido governista gera rebote e impulsiona oposição em pleito na Polônia

FOLHA DE S.PAULO - 10/07/2020

Ana Estela de Sousa Pinto

Tradicionalmente polarizada desde o colapso do comunismo, no final dos anos 1980, a mídia polonesa ganhou ares de vale-tudo na eleição presidencial deste ano, com apelações sensacionalistas, acusações de fake news e abuso de poder e até uma atrapalhada tentativa de censura das paradas musicais.


O episódio barulhento foi detonado quando a música preferida pelos ouvintes da rádio Trojka, uma das mais populares da Polônia, simplesmente desapareceu do site da emissora estatal no dia 15 de maio.

Gravada pelo músico de rap Kazik, a paródia “Sua Dor É Melhor que a Minha” faz uma crítica velada ao ex-ministro e homem forte do partido governista, Jaroslaw Kaczynski, por ter visitado o túmulo de seu irmão quando os cemitérios estavam fechados a todos os poloneses, por causa da epidemia de coronavírus.



O sucesso levou “Sua Dor” ao topo do ranking e, no dia seguinte, sumiram do site da emissora tanto o ranking quanto todas as informações sobre a canção, o que levantou uma onda de protestos e aumentou ainda mais a repercussão da música.

A direção da Trojka se justificou dizendo que havia detectado manipulação na votação dos ouvintes, mas jornalistas da emissora apontaram interferência do PiS (Lei e Justiça), partido fundado e dominado por Kaczynski e ao qual estão ligados o atual chefe do governo, Mateusz Morawiecki, e o atual presidente e candidato à reeleição Andrzej Duda (na Polônia, presidentes não integram partidos).

Jornalistas que eram estrelas da Trojka pediram demissão, músicos proibiram que suas obras fossem tocadas pela emissora e o escândalo serviu de combustível para críticos do atual governo que veem intervenção crescente sobre os veículos públicos.

Segundo a analista polonesa Maria Skóra, chefe do Programa de Diálogo Internacional do centro de estudos alemão Das Progressive, a “trapalhada” governista deu de bandeja ao candidato da oposição, o prefeito de Varsóvia, Rafal Trzaskowski, um exemplo muito concreto para seu slogan de campanha “já tivemos o suficiente”, uma crítica ao excesso de poder do PiS.

“Deixou de ser uma discussão abstrata e passou a tratar de música, das paradas do rádio, algo do dia a dia de todo eleitor”, disse Skóra à Folha.

A imparcialidade nunca foi a regra no panorama de mídia polonesa após o colapso do comunismo. Com grau considerável de polarização, os veículos privados costumam assumir posições que vão da centro-esquerda à extrema direita.

Também não é incomum o uso político da mídia pública pelo partido do governo. “Mas a escala dessa captura, a escala da intrusão política, a escala da propaganda generalizada que vem ocorrendo nos últimos cinco anos não deve ser comparada e não deve ser confundida com o que acontecia antes que o PiS chegasse ao poder”, disse Dariusz Rosiak, ex-diretor de programas da Trojka, à imprensa britânica, após o episódio da música que sumiu do ranking.

De fato, não é preciso falar uma palavra do idioma local para encontrar na TV polonesa quais são os canais que apoiam o governo e quais defendem a oposição na eleição presidencial do país, cujo segundo turno acontece neste domingo (12).

Em diferentes momentos desta quinta (9), quem ocupava a tela do canal 21 com discursos transmitidos por até 10 minutos seguidos era o presidente e candidato Duda.

Aparições de seu rival, o prefeito de Varsóvia, Rafal Trzaskowski, foram sempre breves na TVP, canal público da Polônia e principal meio de informação nas cidades de até 20 mil habitantes, onde Duda venceu com folga no primeiro turno da eleição.

Já no canal 23, a TVN24, o oposicionista teve uma entrevista coletiva transmitida ao vivo durante mais de meia hora pela manhã (nenhum sinal dela no canal controlado pelo governo).

Uma das principais notícias da noite na TVN24 foi o resultado da pesquisa encomendada pela emissora, que mostrava empate, com Trzaskowski à frente —com 46,4%, contra 45,9% de Duda—, resultado também ignorado pela TVP.

Desde que venceu as eleições parlamentares, em 2015, o PiS substituiu as direções dos canais públicos, e Kaczynski tem defendido a "repolonização" da mídia, atacando companhias estrangeiras que controlam cerca de 75% do mercado polonês.

Nesta semana, o tema voltou à tona quando o PiS acusou a TVN24 (de propriedade da americana Discovery) de estar ligada ao WSI, um antigo serviço de inteligência comunista, segundo o governo.

Os apoiadores de Duda também reagiram contra o tabloide mais popular do país, o Fakt, que na última sexta (3) deu capa para o perdão presidencial de um condenado por abusar da própria filha, apontando contradição com a campanha de Duda, que se apoia na defesa dos “valores tradicionais de família”.

Duda afirmou em discurso que o movimento do Fakt é prova de que os alemães querem controlar a eleição na Polônia —o jornal é de propriedade de empresas suíça e alemã.

A Constituição polonesa proíbe a censura prévia e assegura a liberdade de imprensa, mas entidades como a Jornalistas sem Fronteiras veem deterioração sob o governo do PiS. Por quatro anos consecutivos a Polônia tem caído no ranking da entidade, ocupando em 2020 o 62º lugar entre 180 países.

Antes da chegada do partido de direita ao poder, a mídia polonesa era considerada livre e vinha subindo no ranking, até a 18ª posição. Além das intervenções em emissoras públicas, o governo cortou drasticamente anúncios em veículos independentes ou de oposição, como o jornal Gazeta Wyborcza e as revistas Polityka and Newsweek Polska.

O controle da mídia foi um dos motivos pelos quais a entidade de monitoramento da democracia Freedom House rebaixou a classificação da Polônia de democracia consolidada para semiconsolidada no relatório deste ano.

Em análise divulgada após o primeiro turno, a Organização para Segurança e Cooperação na Europa, que monitorou a eleição, afirmou que a TVP "agiu como um veículo de campanha para o titular", com reportagens “acusadas de serem xenofóbicas e antissemitas".

Segundo agências de checagem de informação, programas como o Wiadomości (mensagens), da emissora pública, têm afirmado que Rafal Trzaskowski “daria crianças a casais gays e lésbicas”, embora ele tenha declarado em campanha que não aprova a adoção por homossexuais, para decepção de ativistas LGBT.

Outras afirmações da TVP rotuladas como fake news pelas agências são as de que o candidato da oposição é apoiado pelo governo alemão, recebe dinheiro do investidor húngaro-americano George Soros e vai priorizar os judeus em benefícios sociais.