Deve-se rastrear o dinheiro público no ‘gabinete do ódio’

O GLOBO - 10/07/2020

EDITORIAL

O inquérito aberto no Supremo sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes, para investigar a origem de fake news e ameaças contra a Corte e seus juízes, sempre preocupou os Bolsonaro. Ao sair do governo, o ex-ministro Sergio Moro disse que o presidente se referiu a esses temores em pressões que fez para interferir na Polícia Federal, o braço operacional nesses inquéritos. A instalação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito no Congresso sobre o mesmo tema é outro motivo de medo, a ponto de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) ter tentado, sem sucesso, que o Supremo suspendesse a CPMI.

Não deviam imaginar que o perigo mais imediato estava em uma auditoria interna pedida pelo Facebook a um centro independente de pesquisa no meio digital, com implicações legais, o DRFLab, de Washington, e que levou a rede social a anunciar quarta-feira que estava desmontando extensa malha de 88 páginas e contas controladas pelo entorno do presidente Jair Bolsonaro. Era o “gabinete do ódio”, denunciado no final do ano na CPMI pela deputada Joice Hasselmann, ex-líder do governo no Congresso, ex-aliada próxima dos Bolsonaro.

O estudo encomendado pelo Facebook confirma a denúncia, cita operadores de contas e páginas falsas criadas para reverberar as bandeiras bolsonaristas, a fim de dar a impressão de haver uma militância maior do que a real, e ainda implica, além dos filhos do presidente — um senador, Flávio, um deputado e um vereador, Carlos, de cujos gabinetes saíram operadores do esquema — o próprio Jair Bolsonaro.

Impossível que não soubesse que um assessor direto, Tercio Arnaud Tomaz, é quem dispara, ou disparava, o gatilho, certamente do próprio Palácio do Planalto, contra adversários como Sergio Moro, Wilson Witzel e outros muitos. Além de provavelmente também orquestrar campanhas antidemocráticas e disseminar desinformações sobre a epidemia da Covid-19, um dos assuntos prediletos do presidente. No arrastão feito pela auditoria também vieram parlamentares bolsonaristas.

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Fica exposto o uso de dinheiro público na alimentação da rede criminosa, porque há verbas de gabinetes de parlamentares e até do presidente usadas para manter esta máquina em funcionamento. O levantamento deste desvio de dinheiro do contribuinte deve ser mais uma tarefa nesta fase de investigação sobre os Bolsonaro e aliados.

Uma característica do bolsonarismo, como de outros agrupamentos radicais, é a síndrome da perseguição. Mas agora não podem se dizer vítimas. Porque o WhatsApp, também do Face, acaba de suspender dez contas do PT, do lado ideológico oposto ao do bolsonarismo, por estarem operando disparos automatizados de mensagens. Nesses casos, o Facebook não entra no mérito do conteúdo do que está sendo distribuído, mas na forma como a distribuição é feita, que já denuncia a má-fé.

Sob pressão no mundo por não ter os devidos cuidados com o que transita em sua rede global, Mark Zuckerberg e seus diretores têm contratado pesquisas para ajudá-los na defesa da empresa, que enfrenta boicotes de anunciantes por servir de plataforma de ódios. Desconectar contas fantasmas usadas por robôs e similares é bem-vindo e precisa ser rotina. No caso brasileiro, o país está com o lucro adicional de ver desvendada uma organização voltada à difamação e ao golpe.