BNDES e Banco do Nordeste pagaram por anúncios em canais de blogueiros investigados no STF

O GLOBO - 25/07/2020 Lucas Tavares, Leandro Prazeres Dados obtidos pelo GLOBO mostram que o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Banco do Nordeste (BNB), ambos públicos, pagaram por anúncios em canais do YouTube de blogueiros investigados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Procurado, o BNDES anunciou que suspendeu suas campanhas na internet por meio do Google Ads, plataforma de mídia programática. Esta é a primeira vez que bancos públicos liberam os dados sobre o uso de mídia programática. As informações do BNDES e do BNB foram obtidas via Lei de Acesso a Informação (LAI) e se referem a campanhas veiculadas entre 1º de janeiro de 2019 e 30 de maio de 2020. A mídia programática é um sistema de distribuição de propaganda na internet em que o cliente contrata uma plataforma que pulveriza anúncios com base no cruzamento entre o público-alvo e critérios como a audiência dos sites e canais acessados pelos internautas que são o foco do cliente. Isso faz com que, se não houver nenhum bloqueio, anúncios possam ser veiculados em sites e canais que divulgam conteúdo como discurso de ódio e ataques a autoridades, por exemplo. Os canais analisados pelo GLOBO levaram em consideração os alvos dos inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos que tramitam no STF. No caso do BNDES, O GLOBO conseguiu identificar 803.680 anúncios em dez canais de YouTube que pertencem ou são administrados por investigados pela Corte. No topo do ranking aparece Folha Política, com 289.638 anúncios, seguido por O Giro de Notícias (195.983), Vlog do Lisboa (142.061), Foco do Brasil (121.595), Ravox Brasil (31.515), Bernardo Pires Kuster (12.408), Terça Livre (6.757), deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) (2.619), Sara Giromini, (795) e deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) (795). O valor estimado de gastos com publicidade nesses canais foi de R$ 108,25, de um total investido de R$ 218 mil. O BNB teve 378.729 anúncios pagos em 11 canais ligados a investigados pelo STF. Quem mais recebeu foi Vlog do Lisboa (297.418), seguido pelo O Giro de Notícias (33.260), Folha Política (27.728), Foco do Brasil (17.633), Alberto Silva (1.542), Ravox Brasil (955), Bernardo Pires Kuster (117), Terça Livre (28), deputada federal Carla Zambelli (19), Sara Giromini (16) e Bia Kicis (9). O valor gasto pelo BNB nesses canais foi R$ 5.536,59, de um total de R$ 3,2 milhões. Um dos fatores que ajuda a explicar a diferença nos valores dos anúncios é que o valor pago por visualizações não é fixo e pode variar com base em fatores diversos como a época em que eles foram veiculados, por exemplo. O caso do BNB chama atenção por haver um salto significativo nos anúncios veiculados no canal Vlog do Lisboa, do youtuber Fernando Lisboa. Ele é um dos investigados pelo STF e, em seus vídeos, frequentemente faz críticas a membros da Corte. Em 2019, o canal recebeu 45 anúncios do BNB, enquanto neste ano, apenas até abril, foram 291.256. O faturamento subiu de R$ 11,87 para R$ 4.292,02. O banco não respondeu sobre o aumento no volume de anúncios no canal. Bancos negam problemas Os dois bancos negam irregularidades nas campanhas publicitárias na internet. O BNDES anunciou, ainda, a suspensão do uso da plataforma do Google, a quem responsabiliza pela veiculação de anúncios nos canais citados. “No momento o uso de mídia programática via Google Ad está suspenso. Estamos acompanhando atentamente a discussão no mercado e junto aos órgãos de controle sobre mídia programática, nos inteirando nas novas ferramentas de segurança que os veículos estão adotando para atender os requisitos de segurança e brand safety”, disse o BNDES. O BNB negou irregularidades e afirmou que as campanhas contrataram mídia programática “por parâmetros objetivos como segmentação regional na área de atuação do BNB, focada em pessoas com interesses em temas como crédito, microcrédito, financiamento, investimento, negócios e gestão financeira”. Procurado, o Google informou que os anunciantes que utilizam as plataformas da empresa têm acesso a controles para impedir a veiculação de anúncios em sites e canais específicos ou por categoria. “Esses controles são importantes já que entendemos que os anunciantes podem não desejar seus anúncios atrelados a determinados conteúdos”. A liberação dos dados feita pelo BNDES e pelo BNB é uma exceção se comparada à postura de outros bancos estatais como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, que são investigados pelo Tribunal de Contas da União e se recusam a divulgar informações sobre mídia programática. O GLOBO revelou que Secretaria de Comunicação da Presidência, Eletrobras e Petrobras destinaram recursos a canais como estes. Os órgãos culpam a plataforma, apesar de ser possível fazer bloqueios, segundo o Google.