Imprensa independente da Hungria sofre outro golpe e repórteres pedem demissão do maior site do país

O GLOBO - 25/07/2020 O site de notícias mais lido da Hungria se viu imerso em transtornos nesta semana depois que o principal editor da organização foi demitido e dezenas de jornalistas pediram as contas em protesto contra sua saída. O esvaziamento do veículo deixa o governo mais próximo de deter o controle quase completo da mídia do país. Houve nesta sexta uma grande marcha em Budapeste em apoio à liberdade de imprensa no país. Há quase uma década no poder, primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, mantém o seu projeto de transformar a Hungria em uma nação "iliberal", onde ele controla quase todos os possíveis freios do Estado e os usa para manter seu poder. A compra do departamento de publicidade do site Index.hu por um aliado de Orbán integra um esforço amplo para restringir a dissidência e silenciar críticos do governo. A possível perda do site de notícias como vigia do governo foi um golpe doloroso para o pequeno, mas determinado círculo de jornalistas independentes que continuam trabalhando no país. O site foi um dos muitos meios de comunicação independentes na Europa Central que sofreram perdas financeiras e políticas após campanhas de governos empenhados em controlar o discurso público. Mais de 80 jornalistas, isto é, quase todos os funcionários do Index, anunciaram suas demissões na sexta-feira após a demissão do editor, Szabolcs Dull. "Nós enfatizamos há anos que temos dois requisitos para o Index continuar operando independentemente: que não haja interferência externa no conteúdo do Index ou na composição ou estrutura da equipe do Index", afirmou o grupo em comunicado. “A demissão de Szabolcs Dull violou o último desses requisitos. Sua saída foi uma clara interferência na composição da equipe. ” No início do mês, o site colocou seu autodenominado "barômetro da independência" em "perigo" para sinalizar o que via como tentativas externas de influenciar o seu conteúdo. O veículo é de longe a maior organização de mídia crítica ao governo. Após as demissões, milhares de húngaros marcharam em direção ao gabinete de Orbán na sexta-feira em protesto contra ataques do governo à liberdade de imprensa. — Não estamos necessariamente aqui porque gostamos do Index, mas agora estamos em um ponto em que o acesso à informação foi comprometido — disse o manifestante Istvan, de 30 anos, que estava na grande multidão que partiu da sede do Index para o escritório de Orbán. O ministro das Relações Exteriores, Peter Szijjarto, disse que seu governo está enfrentando "acusações falsas". — Como o Estado interviria nas decisões de uma mídia de propriedade privada? — disse ele em entrevista coletiva na quinta-feira durante uma visita a Portugal. Guinadas autocráticas O enfraquecimento constante dos meios de comunicação independentes faz parte de uma guinada rumo à autocracia na Hungria e, em menor grau, na Polônia. Essas preocupações foram alguns dos principais pontos de discórdia no debate sobre o plano de recuperação pós-pandemia de € 750 bilhões (R$ 4,57 trilhões) da União Europeia. Houve discordâncias se Hungria e Polônia deveriam ser penalizadas financeiramente. PUBLICIDADE No final, o dinheiro da recuperação não esteve vinculado de maneira significativa a padrões democráticos dos Estados-membros, o que acalmou Polônia e Hungria. Quando Orbán voltou ao poder em 2010, ele e seus aliados imediatamente começaram a trabalhar para reformar as leis democráticas. Uma vitória esmagadora nas urnas em 2010 permitiu que reescrevessem unilateralmente a Constituição da Hungria e mudassem suas leis eleitorais para favorecer o seu partido. Desde então, eles garantiram supermaiorias parlamentares em duas eleições subsequentes, apesar de receberem menos de 50% do voto popular. Entrevista: ‘Nossa única chance de sobreviver é preservar a democracia liberal’, diz filósofa húngara Ágnes Heller O Tribunal Constitucional foi expandido e os tribunais inferiores foram revistos, a mídia pública e a maioria da mídia privada do país ficaram sob o controle de aliados do primeiro-ministro, e as instituições independentes de vigilância perderam influência. No final de 2018, centenas de veículos de mídia supostamente independentes, mas controlados por aliados do primeiro-ministro, foram entregues a outra fundação controlada por pessoas próximas a Orbán. Os órgãos reguladores da mídia e da concorrência foram impedidos de examinar as transações, de acordo com um decreto emitido por Orbán no início de dezembro de 2018, sob o argumento de que as mudanças de propriedade eram de “interesse estratégico nacional”. O Index, que tem suas raízes nos primórdios das notícias on-line na Hungria, passou por muitos desafios e tempestades políticas na última década. O site reportou de modo crítico o governo de Orbán, com destaque para matérias sobre a intromissão russa na Hungria, a suposta corrupção envolvendo políticos e indivíduos próximos ao premier e outras políticas governamentais amplamente condenadas como ataques a instituições democráticas. Em março, enquanto a Europa lutava para conter o coronavírus, Miklos Vaszily, executivo de mídia com laços estreitos com os aliados de Orbán, adquiriu 50% dos negócios de publicidade do Index. A medida gerou preocupação em jornalistas e defensores da imprensa livre, principalmente por causa do papel de Vaszily no controle dos meios de comunicação, incluindo o Origo, um site considerado uma das organizações de notícias independentes mais conceituadas da Hungria. Em 21 de junho, reportagens da mídia local indicaram que a liderança do Index planejava rever a equipe do site, transformando repórteres em colaboradores externos. A equipe disse que o plano constituía uma ameaça à sua independência, alertando para uma tentativa de interferência política. Em questão de dias, o editor-chefe foi retirado do conselho da empresa e seu presidente renunciou, assim como um novo presidente. O assunto permaneceu parado até quarta-feira, quando o editor-chefe, Dull, foi demitido por Laszlo Bodolai, chefe da fundação que exerce a propriedade da publicação. Bodolai acusou Dull de não conseguir conter a ansiedade interna no Index, colocando em risco os negócios. Em comunicado divulgado após sua partida, Dull disse que sempre agiu com os interesses de sua equipe em mente. "Não é por acaso que a equipe do Index se sentiu em risco", escreveu ele, acrescentando que os eventos recentes o convenceram de que a Hungria precisa de um jornal onde o conteúdo não seja decidido por "potências externas". Uma última tentativa da equipe da agência de comunicação não conseguiu convencer a gerência da organização a recontratar o editor-chefe demitido. — Não sabemos o que está acontecendo — disse Veronika Munk, vice-editora-chefe, na quinta-feira à tarde. — Sinto firmemente que, para muitos funcionários, o trabalho no Index terminou. Com a assinatura de contratos de publicidade estatais, que geralmente promovem teorias da conspiração e ataques à União Europeia, as entidades de mídia sob o controle de aliados de Orbán floresceram. Elas têm sido fundamentais na promulgação de amplas campanhas de propaganda financiadas pelo Estado, que incluem até antissemitismo. — Imagine que todos os meios de comunicação de um estado americano devam estar sob a propriedade de um único grupo político — disse Gabor Polyak, do Mertek Media Monitor, um think tank da mídia. — E que todos esses meios de comunicação são financiados com dinheiro dos contribuintes. Em 2018, o Parlamento Europeu votou para iniciar um processo contra o governo de Orbán, acusando-o de fazer ameaças sistêmicas ao Estado de direito e à democracia da Hungria. O processo pode tirar o voto no Conselho Europeu de Orbán. No debate, Orbán rejeitou críticas ao seu governo na Hungria. — Nós nunca tentaríamos silenciar aqueles que discordam de nós — disse o primeiro-ministro.