Nova Guerra Fria começa a mudar também a imprensa chinesa

FOLHA DE S.PAULO - 01/08/2020

Nelson de Sá

O jornalista e escritor Paulo Francis (1930-97), que buscou estudar China e Rússia a fundo, dizia que a aceitação das facções internas pelo PC chinês explicava a sobrevivência do país sem “vastas burocracias”, sem se deixar "embalsamar em vida" como a União Soviética.


As facções se refletiam então e ainda o fazem nos principais títulos da imprensa ligada ao partido. É o caso do Zhongguo Qingnian Bao, de Pequim, o jornal da Liga da Juventude Comunista, a ala do atual primeiro-ministro, Li Keqiang, e também do ex-presidente Hu Jintao.

Outro é o Xin Jing Bao, ligado ao comitê municipal de Pequim do PC. E o mais liberal é o Nanfang Zhoumo, jornal semanal ligado ao comitê da província de Guangdong, no Sul.

Mas eles só têm edições em chinês, inclusive online, e a visão cotidiana da China pelo mundo acaba sendo moldada por outros três jornais, com cobertura em inglês.

O mais estridente —e o mais citado no Ocidente— é o tabloide Huanqiu Shibao ou Global Times, editado por Hu Xijin. O jornalista, que participou dos protestos de Tiananmen em 1989, já foi perfilado por New York Times, Bloomberg, Economist, Quartz e outros.

Suas contas de Weibo e Twitter são seguidas de perto nos mercados financeiros, pelas informações que revelam e pelo tom de confronto que adotam, entre outros, contra Donald Trump.

Também por críticas pontuais à própria China e, agora, pela pressão para acelerar o armamento atômico do país. Virou campanha do Huanqiu, crescentemente nacionalista frente à guerra de início comercial e hoje em todas as frentes.

Hu insiste que ele é “voltado ao mercado”, ou seja, procura não viver só do Estado, mas também seu jornal é ligado ao PC —e tem o presidente Xi Jinping cada vez mais como protagonista.

Com perfil muito diverso, a jornalista Hu Shuli é mais respeitada dentro e fora do país, a “mulher mais perigosa da China”. De biografia tão acidentada quanto Hu Xijin, ela viu sua mãe presa na Revolução Cultural —o mesmo movimento de que ela participaria, adolescente, como “guarda vermelha”.

O veículo que fundou há uma década, o site e revista Caixin, com edição global em inglês, é de cobertura econômica e expõe regularmente os malfeitos de gigantes chinesas, privadas e estatais. É bancada pelo magnata de televisão Li Ruigang, “o Rupert Murdoch chinês”.

Mas também ela agora se volta mais aos obstáculos das empresas no exterior, casos de TikTok e Huawei.

A terceira publicação que molda a imagem da China no mundo, o diário South China Morning Post (foto no alto), é aquela que mais vem aprofundando mudanças. Como o Huanqiu, dá atenção crescente ao risco de conflito com os EUA no Mar do Sul da China, às portas de sua sede, em Hong Kong.

Mais importante, vem modificando seu próprio modelo de negócios. Quando foi comprado há quatro anos por Jack Ma, do Alibaba, seguindo Jeff Bezos, da Amazon, que havia adquirido o Washington Post, o objetivo expresso era buscar uma audiência global. Era a incorporação do "soft power chinês", segundo o NYT.

Para tanto, adotou acesso gratuito. Agora, a editora Tammy Tam anuncia que o SCMP vai retomar o paywall a partir deste mês de agosto, em parte porque a receita caiu pela metade neste ano, com a pandemia.

Uma segunda mudança indica que a própria ambição global pode estar sendo revista. O jornal acaba de lançar uma edição direcionada à Ásia ou, mais precisamente, ao Sudeste Asiático, área agora prioritária para Pequim e onde o jornal avalia ter 400 milhões de leitores potenciais.