‘A imprensa tem papel central nesse novo mundo’, diz autor de 'Newsonomics'

O GLOBO - 02/08/2020

Janaína Figueiredo

A pandemia de Covid-19 revalorizou o trabalho dos meios de comunicação, aumentando de forma expressiva a demanda por notícias produzidas pela imprensa profissional. Apesar dos enormes desafios que enfrentam as empresas de mídia no mundo todo, este elemento do chamado novo normal deve permanecer, acredita Ken Doctor, autor de “Newsonomics — Doze novas tendências que moldarão as notícias e seu impacto na economia mundial” e diretor do site newsonomics.com. Em entrevista ao GLOBO, o americano analisa o cenário atual.

Qual é a situação da mídia tradicional nos EUA?

Os jornais New York Times, Washington Post e Wall Street Journal são exemplos bem-sucedidos de transições para uma mídia digital sustentável. Hoje, no entanto, estão enfrentando novos desafios pela pandemia. Mas, nos três casos, você sabe que eles continuarão aqui, uma certeza que nem todo mundo tem. Outros jornais foram muito enxugados, e muitos posso dizer que não sobreviverão. Os jornais locais, em geral, estão em situação desastrosa. Muitos são controlados por fundos de investimentos, que pensam apenas em números.

A boa notícia é que também temos donos independentes de jornais em vários estados que estão caminhando na direção dos três grandes jornais que mencionei no começo. Fazendo uma boa transição para a mídia digital.

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O boicote publicitário a plataformas como Facebook gerou debate na mídia e a pergunta sobre o papel delas no mundo da informação. Qual deve ser este papel?

O problema é que pretendem, principalmente o Facebook, ser o que não são, e isso confundiu as pessoas. Eles são distribuidores de notícias. As pessoas têm mais acesso do que nunca às notícias, mas o que precisa ser esclarecido nessa história é quem, de fato, escreveu essa notícia.

Por outro lado, as plataformas não querem assumir responsabilidades sobre informações e desinformações que, como já vimos, podem mudar resultados de eleições. Numa pandemia, isso ficou mais evidente. O dano que a desinformação pode causar é enorme. O Facebook, como rede social, conectou as pessoas. Mas, pretendendo ser uma fonte de notícias, misturou o que são notícias confiáveis e desinformação.

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A questão da remuneração demandada por meios de comunicação às plataformas está no meio desse debate...

Exato. As plataformas dizem que não ganham dinheiro com notícias, mas sabemos que as notícias fazem as pessoas acessarem as plataformas. Mais uma vez, elas pretendem ser algo que não são. O que vai acontecer? Bem, acho que a situação está implodindo pela pandemia e a recessão mundial causada por ela.

Vemos isso em Austrália, Canadá, Alemanha, EUA, como está aumentando a pressão por legislações, regulações e também uma pressão dos anunciantes. É um movimento global, e mudanças ocorrerão. O que essas plataformas farão? Tentarão evitar regulações, legislações e pagamentos de grandes montantes de dinheiro. Elas sabem que alguma coisa deverão fazer, dar um pouco. Mas tentarão dar o mínimo possível.

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O que as plataformas estão fazendo nos EUA?

Estão criando produtos que incluem alguns meios de comunicação, não todos, e pagam pouco a poucos meios. Com isso, dizem que estão fazendo algo. Mas não estão respeitando uma lei, ou um direito aprovado por um Congresso. São acordos seletivos.

Evitar leis e regras nacionais é a estratégia?

Sim, claramente. E as plataformas são poderosas nesse jogo. Nesta pandemia, a crise econômica acelerou processos que vinham acontecendo. Meios tradicionais vêm perdendo publicidade para as plataformas faz uns dez ou 12 anos. Nos EUA, Google e Facebook ficam com 60% da publicidade digital.

O boicote pode mudar isso?

Se for uma medida permanente, as coisas podem ser diferentes. Se a pressão política aumentar, também. Se os democratas vencerem as eleições presidenciais nos EUA, por exemplo. Teria impacto global.

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Como a pandemia modificou o consumo de notícias?

A mudança positiva é que as pessoas buscam informações de qualidade. Em geral, meios locais e nacionais aumentaram seus assinantes digitais no começo da pandemia. As pessoas querem saber questões específicas dos lugares onde moram. Existe um novo entendimento sobre como é essencial a mídia local.

Isso pode ser permanente?

Acho que pode ser mantido, mas não é suficiente. Estamos todos dando passos importantes e provando que a audiência é um problema que pode ser superado. A pandemia revalorizou as notícias locais.

É preciso mais tempo?

Sim, precisamos de mais tempo e de visão. Entender que temos uma missão civil, isso é central para nosso futuro.

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O senhor fala muito sobre a missão dos meios de comunicação...

Temos uma missão e um valor importante para a democracia. Nas democracias, se acreditamos em pessoas livres, precisamos de uma imprensa independente que forneça informação sobre o que está acontecendo. Uma imprensa independente e séria é fundamental. Nossa missão civil é parte de nosso valor como produto. Os leitores devem entender o que a imprensa faz por eles numa democracia.

Qual foi o impacto do poder das plataformas sobre a democracia no mundo?

Em geral, não foi positivo. Ocorrem debates interessantes, interações, mas isso foi ofuscado pela explosão da desinformação. O principal problema foi a destruição, em alguns casos, da imprensa local. Foi um efeito colateral, não intencional. Elas simplesmente tiraram o dinheiro dos jornalistas. O impacto em termos políticos também foi enorme. Ele pode ter modificado eleições e processos como o Brexit, na Inglaterra. São elementos que levam as sociedades em direções equivocadas.

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Somente agora nos damos conta disso?

Elas provocaram profundas mudanças em nossas vidas, nos desorientaram.

Qual será o papel dos meios de comunicação neste novo normal global?

Veremos mais participantes neste jogo que não são democráticos e têm mais dinheiro. Pesquisas indicam que 20% do faturamento em publicidade serão perdidos pelas empresas de mídia e talvez não sejam recuperados. O boicote às plataformas terá papel importante e levará a reações, elas darão um pouco mais.

A questão é para quem darão e o quão seletivas serão. É importante saber até onde irá a pressão dos governos. E que custo essa pressão representará para as plataformas.

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O uso da tecnologia pode mudar?

Existe uma maior preocupação nesse sentido, e também sobre a privacidade. Um movimento de redução do uso de tecnologia poderia afetar as plataformas. Com certeza, essas mudanças são mais possíveis hoje do que há dez anos.

Hoje, muitos se perguntam o quanto querem suas vidas digitalizadas e como querem se comunicar. A pandemia não nos deixou alternativa, mas parece que as sociedades farão mudanças depois dela.

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Como o senhor vê a democracia nesse novo normal e nesse novo mundo?

Por um lado, surgem movimentos como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que é fascinante. As pessoas demandam participação, é incrível. Nesse contexto, a pergunta é como fortalecemos a imprensa local para alimentar esses movimentos democráticos e todas essas mudanças.

A imprensa tem um papel central nesse novo mundo, em meio a enormes desafios, principalmente financeiros. Quando a imprensa se enfraquece, a influência do poder, seja de plataformas, governos, é maior. A democracia se enfraquece.