Johnny Depp e Amber Heard: um divórcio com roupa suja para explodir a lavadora

O GLOBO - 03/08/2020

Luccas Oliveira

Ao longo das últimas semanas, o mundo pop observou com misto de interesse e choque as notícias que vinham da Suprema Corte do Reino Unido. Lá, no Tribunal 13, a atriz Amber Heard tentava ajudar o conglomerado de mídia britânico News Group Newspapers (NGN) a convencer o juiz Andrew Nicol de que seu ex-marido, o ator Johnny Depp, é um “espancador de esposas”, conforme manchete publicada em 2018 no “The Sun”, tabloide do grupo. O caso chegou a ser chamado pelo site “Deadline” de “o maior julgamento inglês por difamação deste século”.

Depp processa o NGN, que por sua vez baseou suas manchetes em 14 diferentes denúncias nas quais Heard, 34 anos, acusa o ex-marido, de 57, de violência doméstica. Casados por 15 meses até 2016, ambos fizeram do julgamento uma bizarra contenda pública, com direito a histórias de agressão, infidelidade, orgias de drogas e álcool, dedos parcialmente decepados e um depoimento que dá novo sentido ao termo “lavar roupa suja em público”: Depp diz que soube do fim quando a ex defecou na cama do casal.

'Cancelado' pelo #MeToo
Em jogo, mais do que uma indenização de até £ 300 mil e os custos do processo (£ 1 milhão, ou quase R$ 7 milhões), está a retomada da carreira de Depp, “cancelada” pelo movimento #MeToo por conta das acusações. O ator diz ter perdido trabalhos milionários e sustenta que Heard era a verdadeira agressora na relação. Já ela luta para manter sua versão — e, assim, não se tornar um mau exemplo para o #MeToo.

Nas duas semanas e meia de depoimentos, a estratégia dos envolvidos parece ter sido “destruir a imagem do outro para que seu lado da história não possa ser considerado”, resumiu o jornalista inglês Nick Wallis, que teve acesso a documentos e vem fazendo cobertura ao vivo do julgamento pelo Twitter. Marco Serralheiro, CEO da ACT10N, agência que cuida das imagens de Neymar, Paolla Oliveira, Paula Fernandes e outros, diz que há antecedentes para o aparente vale-tudo.

— Por um lado você destrói (parte da reputação pessoal). Por outro, chama atenção. Esse tipo de movimento é mais comum entre os americanos do que no Brasil, porque lá a exposição é vista às vezes como algo mais importante do que alguns valores — diz Serralheiro. — Veja como O.J. Simpson aproveitou a exposição do julgamento ou como Jay-Z e Beyoncé saíram favorecidos do caso de agressão (quando Solange, irmã de Beyoncé, agrediu o cunhado rapper num elevador por ter traído a cantora).

Franquias bilionárias
Amber Heard como a Meera de 'Aquaman' e Johnny Depp como o Grindewald de 'Animais Fantásticos' Foto: Divulgação
Amber Heard como a Meera de 'Aquaman' e Johnny Depp como o Grindewald de 'Animais Fantásticos' Foto: Divulgação
Pode-se dizer que Hollywood aguarda nervosamente as consequências do julgamento. Isso porque tanto Depp quanto Amber estão envolvidos em franquias cinematográficas bilionárias — ele é o vilão de “Animais fantásticos”; ela, a princesa subaquática Mera de “Aquaman” (ambas produções do estúdio Warner, aliás).

Para o #MeToo, a polêmica pode significar uma onda contra o movimento, com a possibilidade de relatos de vítimas serem contestados assim como os de Amber.

Até a cobertura de tabloides britânicos poderia ser afetada por uma vitória de Depp. “Uma derrota do ‘Sun’ pode resultar num enfraquecimento na liberdade de jornalistas cobrirem ou divulgarem histórias de violência doméstica”, opinou Richard Danbury, professor de Jornalismo na Universidade da Cidade de Londres, em entrevista ao “New York Times”.

PUBLICIDADE

Familiares e amigos de Heard foram ouvidos, atestando o comportamento imprevisível de Depp por conta do consumo abusivo de álcool e drogas. O ator admite que bebeu e se drogou muito na época, mas alega ter uma tolerância alta às substâncias.

Wynona defende Depp
Ao lado do ator, além de funcionários pessoais, que conviveram com o casal, estão também ex-companheiras de Depp: a atriz Winona Ryder e a cantora e modelo Vanessa Paradis, que iriam testemunhar por vídeo, até a equipe do NGN decidir não confrontá-las no tribunal. “Eu não quero chamar ninguém de mentiroso, mas a partir da minha experiência com Johnny é impossível acreditar que tais acusações horríveis são verdadeiras”, afirmou Ryder, que esteve com Depp entre 1989 e 1993, em seu depoimento.

Citando só a cobertura da agência Reuters, o julgamento já gerou manchetes como “Amber Heard nega alegação de Johnny Depp sobre caso com Elon Musk”; “Johnny Depp foi agredido por ex-mulher, diz segurança do ator”; ou “Amber Heard diz que Johnny Depp ameaçou matá-la”.

— Esse baixo nível só traz más consequências — opina o advogado Alessandro Dessimoni, especialista em direito de imagem e que traz na cartela de clientes artistas como a cantora Claudia Leitte. — Quando você leva para o lado pessoal, a história se prolonga, você aumenta a chance de criar provas, de configurar novos crimes contra a honra...

PUBLICIDADE

Certo mesmo é que muita gente aguarda a decisão do prestigiado juiz inglês Andrew Nicol, prevista para sair apenas em setembro.

— Eu não tenho certeza se os impactos negativos de um julgamento como esse são tão profundos quanto parecem — opina Serralheiro. — O Johnny Depp já tem uma imagem de transgressor, não sei o quanto isso impacta a vida desse cara. E pode sair com o benefício da dúvida.