Com a pandemia, vieram campanhas de desinformação que misturam verdades e mentiras

PODER360 - 02/08/2020

NIEMAN LAB -  Kate Starbird

A pandemia da covid-19 levou a uma infodemia, uma vasta e complicada mistura de informações e desinformações.


Nesse ambiente, narrativas falsas –de que o vírus foi “orquestrado”, que se originou como uma arma biológica, que os sintomas são causados pelo 5G– se espalharam rapidamente nas redes sociais e em outros meios de comunicação. Algumas dessas ficções fazem parte de campanhas de desinformação.

A noção de desinformação pode evocar a propaganda característica dos Estados totalitários, mas a realidade é muito mais complexa. Embora a desinformação sirva a uma agenda, ela é muitas vezes camuflada em fatos e propagada por indivíduos inocentes e geralmente bem-intencionados.

Como pesquisador que estuda como as tecnologias de comunicação são usadas durante crises, eu descobri que esse mix de tipos de informações dificulta que as pessoas, incluindo aquelas que constroem e administram plataformas on-line, distingam 1 boato orgânico de uma campanha de desinformação organizada. E esse desafio não fica mais fácil em 1 momento que os esforços para entender e responder à covid-19 ficam emaranhados nas manobras políticas pelas eleições presidenciais deste ano.

RUMORES, DESINFORMAÇÃO E DESINFORMAÇÃO
Rumores são e sempre foram comuns em tempos de crise. Crises são frequentemente acompanhadas de incertezas sobre o que acontece e de ansiedade sobre seus impactos e respostas. As pessoas naturalmente querem resolver essa incerteza e ansiedade e muitas vezes tentam fazê-lo pelo sensemaking coletivo. É 1 processo de juntar-se para coletar informações e teorias sobre o evento que está se desenrolando. Os rumores são 1 subproduto natural.

Os rumores não são necessariamente ruins. Mas as mesmas condições que os produzem também tornam as pessoas vulneráveis à desinformação, o que é mais traiçoeiro. Ao contrário dos rumores, que podem ou não ser intencionais, a desinformação é uma informação falsa ou enganosa que se espalha para 1 objetivo específico, geralmente político ou financeiro.

A desinformação tem suas raízes em uma prática usada pelas agências de inteligência da União Soviética para tentar mudar a maneira como as pessoas entendiam e interpretavam os eventos no mundo. É útil pensar em desinformação não como uma única informação ou mesmo uma única narrativa, mas como uma campanha, 1 conjunto de ações e narrativas produzidas e divulgadas para enganar por propósitos políticos.

Lawrence Martin-Bittman, ex-oficial de inteligência soviético que desertou da extinta Tchecoslováquia e depois se tornou professor especialista em desinformação, descreveu como campanhas de fake news eficazes são frequentemente construídas em torno de 1 núcleo verdadeiro ou plausível. Elas exploram preconceitos, divisões e inconsistências existentes em 1 grupo ou sociedade-alvo. Costumam empregar “agentes inconscientes” para espalhar seu conteúdo e promover seus objetivos.

Independentemente do agressor, a desinformação funciona em vários níveis e escalas. Embora uma única campanha de desinformação possa ter 1 objetivo específico –por exemplo, mudar a opinião pública sobre 1 candidato ou uma política pública– a desinformação generalizada funciona em 1 nível mais profundo para minar as sociedades democráticas.

O CASO DO VÍDEO “PLANDEMIA”
Distinguir desinformação não intencional de desinformação intencional é 1 desafio crucial. Muitas vezes, é difícil inferir a intenção, especialmente em espaços on-line onde a fonte original de informação pode ser ocultada. Além disso, a desinformação pode ser disseminada por pessoas que acreditam que ela seja verdade. E desinformação não intencional pode ser ampliada estrategicamente como parte de uma campanha de desinformação. É difícil estabelecer definições e distinções.

Considere o caso do vídeo “Plandemia”, que circulou nas redes sociais em maio de 2020. O vídeo continha uma série de alegações falsas e teorias de conspiração sobre a covid-19. Argumentou contra o uso de máscaras, alegando que eles “ativariam” o vírus, e criou as bases para a eventual recusa de uma vacina contra o coronavírus.

Embora muitas dessas narrativas falsas tenham surgido em outros sítios on-line, o vídeo “Plandemia” as reuniu em uma única peça bem produzida de 26 minutos. Antes de ser removido pelas plataformas por conter desinformação médica prejudicial, o vídeo se propagou amplamente no Facebook e recebeu milhões de visualizações no YouTube.

À medida em que se espalhou, ele foi ativamente promovido e amplificado em grupos públicos no Facebook e comunidades no Twitter associadas ao movimento anti-vacina, à comunidade da teoria da conspiração QAnon e ao ativismo político pró-Trump.

Mas teria sido este 1 caso de desinformação intencional? A resposta está em entender como –e porque– o vídeo viralizou.

O protagonista do vídeo era a Dra. Judy Mikovits, uma cientista descreditada que já havia defendido várias teorias falsas na academia –por exemplo, alegando que vacinas causam autismo. Antes do lançamento do vídeo, ela estava promovendo 1 novo livro, que apresentava muitas das narrativas que apareceram no conteúdo.

Uma delas foi uma acusação contra o Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e membro da força-tarefa da Casa Branca no combate ao coronavírus. Na época, Fauci era foco de críticas de republicanos por defender medidas de distanciamento social que seriam prejudiciais à economia. Comentários públicos de Mikovits e seus associados sugerem que prejudicar a reputação de Fauci era 1 objetivo específico de sua campanha.

Nas semanas que antecederam o lançamento do vídeo, 1 esforço conjunto para elevar o perfil de Mikovits tomou forma em várias plataformas de mídia social. Uma nova conta no Twitter foi iniciada em seu nome, acumulando rapidamente milhares de seguidores. Ela apareceu em entrevistas com agências de notícias hiperpartidárias, como o Epoch Times e True Pundit. De volta ao Twitter, Mikovits saudou seus novos seguidores com a mensagem: “Em breve, Dr. Fauci, todos saberão quem você realmente é.”

Mais recentemente, o Sinclair Broadcast Group, dono ou operador de 191 estações de televisão locais nos Estados Unidos, planejava transmitir uma entrevista com Mikovits, onde ela reiteraria as reivindicações centrais do vídeo Plandemia. Ao exibir esse programa, a Sinclair teria usado a projeção e a credibilidade dos noticiários locais para expor novos públicos a estas narrativas falsas –e potencialmente perigosas. A empresa está reconsiderando sua decisão depois de ser criticada; no entanto, a entrevista chegou a ser publicada no site da empresa por 1 tempo e foi ao ar em uma estação.

Esse cenário sugere que Mikovits e seus colaboradores tinham objetivos além de compartilhar teorias mentirosas sobre a covid-19. Isso inclui motivos financeiros, políticos e de reputação. Mas também é possível que Mikovits acredite sinceramente nas informações que estava compartilhando, assim como milhões de pessoas que compartilharam e retweetaram seu conteúdo.

O QUE VEM PELA FRENTE
Nos Estados Unidos, à medida em que a covid-19 se conecta às eleições presidenciais, é provável que continuemos a ver campanhas de desinformação empregadas para obter ganhos políticos, financeiros e de reputação. Grupos ativistas domésticos usarão essas técnicas para produzir e espalhar narrativas falsas e enganosas sobre a doença –e sobre a eleição. Agentes estrangeiros tentarão ingressar na conversa, geralmente se infiltrando em grupos existentes e tentando orientá-los em direção a seus objetivos.

Por exemplo, provavelmente haverá tentativas de usar a ameaça do coronavírus para afastar as pessoas das pesquisas. Junto com esses ataques diretos à integridade das eleições, é provável que também haja efeitos indiretos –na percepção das pessoas sobre a integridade das eleições­– de ativistas convictos e agentes de campanhas de desinformação.

Os esforços para moldar atitudes e políticas em torno do pleito já estão em andamento. Isso inclui trabalhos para chamar a atenção para a supressão de eleitores e tentativas de enquadrar a votação por correio como vulnerável à fraude. Parte dessa retórica deriva de críticas sinceras, destinadas a inspirar ações para fortalecer os sistemas eleitorais. Outras narrativas, por exemplo, alegações não suportadas de “fraude eleitoral”, parecem servir ao objetivo principal de minar a confiança nesses sistemas.

A história ensina que essa mistura de ativismo e medidas ativas, de atores estrangeiros e domésticos, e de agentes conscientes e inconscientes, não é novidade. E certamente a dificuldade de distinguir entre elas não é facilitada na era on-line. Mas uma melhor compreensão dessas interseções pode ajudar pesquisadores, jornalistas, designers de plataformas de comunicação, formuladores de políticas e a sociedade em geral a desenvolver estratégias para mitigar os impactos da desinformação durante esse momento desafiador.

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*Kate Starbird é professora associada de design e engenharia centrada no ser humano na Universidade de Washington. Este artigo foi republicado do site The Conversation sob uma licença Creative Commons.

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O texto foi traduzido por Ighor Nóbrega