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‘Populismo digital’ pode ameaçar democracia, diz jornalista Ricardo Gandour

O GLOBO - 03/08/2020

Bernardo Mello

O avanço de perfis de políticos nas redes sociais abriu caminho a uma espécie de “populismo digital”, que, entre outros efeitos, pode representar um processo de fragilização das instituições e da democracia. A avaliação está no livro “Jornalismo em retração, poder em expansão — A segunda morte da opinião pública”, do jornalista Ricardo Gandour, diretor executivo da Rede CBN.



O livro, lançado pelo Grupo Editorial Summus, é resultado da tese de mestrado defendida por Gandour na Escola de Comunicações e Artes da USP e aponta a expansão digital de governantes em paralelo à queda de receitas dos veículos jornalísticos no país.

Apesar desta retração das grandes redações, Gandour observa em sua pesquisa que mesmo as “fake news”e posts com informações distorcidas costumam usar, como fonte primária, o conteúdo produzido pela imprensa profissional, apropriado e desfigurado por emissores de notícias falsas.

— Não se trata, em hipótese alguma, de desprezar ou atacar a revolução digital, que deixou a informação muito mais acessível, o que é inegavelmente bom. Mas ainda falta uma certa clareza de organização e hierarquização de tanto conteúdo no ambiente digital. O esforço das redações deve ser o de ampliar cada vez mais a parcela da sociedade com acesso à informação que contém método jornalístico — afirma Gandour.

Avanço sem método
Em seu levantamento, concluído antes da pandemia de coronavírus, Gandour constatou que perfis de governadores no Facebook tiveram um salto de 390% na média de interações diárias em seus posts durante o ano de 2013, na comparação entre o antes e o depois das manifestações de junho. Já a média dos perfis de grandes jornais em cada um dos 27 estados alcançou patamar semelhante, dentro do período analisado, no início de 2016, quase três anos depois.

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— Os jornais foram às redes com responsabilidade, enquanto os políticos viram ali uma forma de comunicação direta com volume e massificação inéditos. Eles atravessaram a mediação informativa da imprensa, cujo grande valor é o método jornalístico, e se aproveitaram desse canal de várias formas, inclusive para desinformar, seja com conteúdos que buscam alguma semelhança com o formato do jornalismo, mas sem o seu método, ou até com áudios e vídeos falseados, hoje chamados de “deep fakes” — diz o autor.

A menção à “segunda morte da opinião pública” é uma referência ao teórico da Comunicação Jürgen Habermas, que abordou, na década de 1960, de que forma o surgimento de instituições republicanas, como a imprensa, fragmentou o monopólio da informação, que antes cabia apenas ao Estado e a pequenos grupos por ele escolhidos. Esta fragmentação, diz Gandour, é acelerada na era das redes sociais, criando bolhas que retroalimentam suas crenças e gerando o que o autor chama de “antessala da polarização”.

Para Gandour, os caminhos para reduzir o impacto de fake news e desinformação no debate político passam por uma “autocalibragem dos veículos profissionais”, para que não amplifiquem conteúdos falsos ou errôneos veiculados nas redes, e também por um debate do conceito de “media literacy” (“alfabetização midiática”) não só entre jornalistas, mas também entre o público de modo geral.

O autor também destaca que uma das missões do jornalismo nos dias de hoje é a de “fazer com que essas bolhas criadas nas redes sociais se comuniquem”, ajudando a reconstruir uma “agenda pública comum”.