ANJ pede reparação de CPMI do Congresso por classificar jornal Gazeta do Povo como fake news

ANJ pede reparação de CPMI do Congresso por classificar jornal Gazeta do Povo como fake news

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) pediu nesta quinta-feira (4) a urgente reparação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, que classificou em relatório produzido por consultores legislativos o centenário jornal Gazeta do Povo, do Paraná, como divulgador de “notícias falsas”. Além disso, o diário paranaense notificou a CPMI para a exclusão formal do nome do veículo do documento.

"É lamentável e absolutamente surpreendente. Como um membro tradicional e de destaque na ANJ, a Gazeta tem sido, ao contrário, uma adversária permanente da desinformação e um veículo de ponta na defesa da pluralidade e do jornalismo profissional", disse o presidente da entidade, o jornalista Marcelo Rech. "A ANJ requer da CPMI o esclarecimento sobre as motivações que levaram à inclusão da Gazeta do Povo nesta infame relação e espera o quanto antes um reparo justo e urgente ao seu jornal associado", afirmou.

O presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Marcelo Träsel, afirmou ao jornal Gazeta do Povo que o episódio "demonstra os riscos de se gravar em lei um conceito de desinformação e deixar a cargo do Estado a classificação de uma notícia como falsa ou verdadeira". "Por sorte, se trata apenas da opinião de consultores legislativos, não de uma sentença judicial. Esperamos que o caso sirva de alerta para os congressistas que pretendem aprovar a toque de caixa, em meio a uma crise sanitária e econômica, leis sobre o tema, sem discussão ampla e tranquila com os jornalistas e com a sociedade", acrescentou.

O relatório, divulgado na segunda-feira (1º), foi produzido a pedido da CPMI das Fake News, que está em curso atualmente no Congresso Nacional. A classificação negativa ao veículo, fundado em 1919 e detentor de diversos prêmios jornalísticos, foi efetivada, segundo a relatoria da comissão, após consulta a seis agências verificadoras. No entanto, consultadas pela reportagem da Gazeta do Povo, as seis organizações negaram a classificação e, ainda, afirmaram que não foram acionadas pelo Legislativo para fazer a validação.

A CPMI produziu um levantamento sobre sites, canais no Youtube e aplicativos para celular que veicularam propagandas do governo federal e foram remuneradas por meio da plataforma Google Adwords. Além de citar a Gazeta do Povo, do grupo GRPCOM, o relatório inclui outros 47 sites como supostos propagadores de notícias falsas. Na avaliação da comissão, esses espaços seriam "inapropriados" para isso por divulgarem fake news, por violarem direitos autorais ou por terem um público-alvo não condizente com as campanhas do governo. O período avaliado pela CPMI foi o do intervalo entre os dias 6 de junho a 13 de julho de 2019.

Agências de verificação negam consulta

A relatora da CPMI das Fake News, deputada Lídice da Mata (PSB-BA), afirmou em nota, segundo a Gazeta do Povo, que foram dois os critérios utilizados pela consultoria legislativa para a inclusão dos veículos no relatório. Um é o fato de a página ter publicado, no prazo analisado pela comissão, "três ou mais matérias classificadas como 'desinformativas' pelos principais checadores de notícias do país".

Os checadores definidos pela CPMI são Agência Lupa, Estadão Verifica, Comprova, Aos Fatos, E-farsas e Boatos.org. O texto ainda afirma que "este critério é sabidamente utilizado por toda imprensa para classificar a divulgação de informações erradas". Na nota, Lídice aponta que a consultoria da Câmara "deve realizar uma resposta contendo a explicação técnica e uma classificação que corresponda ao comportamento de cada um destes nas redes", em relação aos veículos que questionarem a inclusão de seus nomes na lista. O outro critério mencionado pela deputada é o de canais que "contrariam consensos científicos, difundem 'teorias da conspiração' ou apresentam conteúdos potencialmente danosos à saúde pública".

O jornal Gazeta do Povo procurou as seis agências indicadas. Todas desmentiram a versão da relatora. Comprova, Aos Fatos, Estadão Verifica, Boatos.org, Lupa e E-Farsas informaram não terem sido consultados pela comissão para o fornecimento de informações sobre a Gazeta e nem sobre outros veículos mencionados na relação.

"O Aos Fatos nunca foi consultado sobre essa lista e desconhecemos a metodologia empregada nesse tipo de categorização", afirmou a jornalista Tai Nalon, diretora executiva da Aos Fatos. Em nota, o site Boatos.org disse que os registros da página não contêm nenhum desmentido sobre a verificação sobre conteúdos da Gazeta do Povo.

O analista Gilmar Lopes, responsável pelo E-Farsas, destacou que nas vezes em que a Gazeta do Povo foi mencionada em seu site, foi na condição de fonte, como base para a prestação de esclarecimentos e correção de outros conteúdos. "A Gazeta é uma referência para nós", disse. O Estadão Verifica confirmou que não classificou a Gazeta do Povo como um veículo de fake news e que tampouco foi procurado pela CPMI para ceder informações sobre o assunto.

Jornal premiado no Brasil e no exterior

“O relatório da CPMI das Fake News erra ao classificar a Gazeta do Povo como um site divulgador de notícias falsas. Não apenas erra como expõe a falta de conhecimento dos integrantes da CMPI sobre um dos maiores jornais do país segundo todas as ferramentas de medição de audiência. A Gazeta do Povo checa notícias há mais de cem anos, muito antes da criação da ideia de agências especializadas. Logo, a apuração criteriosa dos acontecimentos está solidificada em nosso DNA”, afirmou Ewandro Schenkel, chefe de redação da Gazeta do Povo.

A credibilidade do jornal centenário já foi reconhecida em diversas áreas, explica Schenkel. “Ganhamos praticamente todos os maiores prêmios de jornalismo nacional e muitos internacionais, como o Grande Prêmio Esso, o Tim Lopes de Jornalismo Investigativo e o Global Shining Light Award entre outros. Não custa lembrar que a Gazeta foi o veículo de qualidade (“quality paper”) mais lido durante as eleições de 2018, conforme dados auditados pela Comscore. Passam pelas nossas páginas mais de 14 milhões de leitores todos os meses. O índice de aprovação entre nossos assinantes, segundo pesquisas internas, é altíssimo”.

Schenkel  lembrou que, em sua história, o diário sempre prezou pelo jornalismo profissional, independente e com grande potencial de transformação da sociedade. Ele destacou ainda que não se pode separar a “checagem dos fatos” da própria noção de um jornalismo sério. “A apuração é matéria prima básica que norteia todo o trabalho desenvolvido pela redação da Gazeta do Povo. Classificar o nosso jornalismo como falso diz mais sobre os responsáveis pelo relatório do que sobre o conteúdo que publicamos”, concluiu.

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