Anúncio do Google sobre pagamento de notícias é visto com desconfiança por analistas de mídia

Anúncio do Google sobre pagamento de notícias é visto com desconfiança por analistas de mídia

O projeto do Google para o licenciamento de notícias através do qual promete remunerar empresas jornalísticas por parte do conteúdo que usa em suas plataformas foi recebido com ceticismo por alguns dos principais analistas de mídia.

A medida "pode se traduzir em aumento de receita para um pequeno número de grandes editoras em grandes mercados e muito pouco para pequenas editoras e editoras em pequenos mercados", disse Rasmus Kleis Nielsen, chefe do Instituto Reuters na Universidade de Oxford para o estudo do jornalismo, no Twitter, segundo informou a AFP.

“A maneira correta de ver as ações do Google e do Facebook, acredito, é através das lentes de relações públicas”, afirmou Joshua Benton, diretor do Nieman Journalism Lab. “Da perspectiva do duopólio, o maior problema de pagar por todas as notícias que fluem em suas veias digitais não é o dinheiro. (Eles têm muito dinheiro)”, assinalou. “Ocorre que pagar de forma sistêmica as notícias atacaria sua principal vantagem como plataformas: organizar o conteúdo de outras pessoas”.

No entendimento de Benton, pressionados, Google e Facebook resolveram estabelecer alguns pagamentos a publishers conforme suas regras: eles escolhem os editores que desejam pagar; definem a quantia que desejam pagar; fazem com que os editores parem de reclamar; e recebem títulos positivos na mídia, na esperança de que eles possam impedir a regulamentação ou tributação do governo.

O jornalista Mathew Ingram, editor-chefe da área digital do site Columbia Journalism Review (CJR), da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia, os movimentos de Google e Facebook não mudam a essência do problema dos publishers após a disrupção digital. “Pode haver uma vitória filosófica aqui, mas provavelmente não fará diferença na vida de nenhuma das empresas envolvidas, pois os gigantes da tecnologia continuam a consumir toda a receita de publicidade da Internet”, disse.

“Dividir e conquistar”

Em entrevista à AFP, Nikos Smyrnaois, professor de mídia da Universidade de Toulouse, na França, afirmou que o anúncio da Google marca um "ponto de inflexão", mas pode não ajudar um setor em crise. "Isso se encaixa em uma estratégia de dividir e conquistar", disse Smyrnaois. "O objetivo do Google não é remunerar todos os outros", acrescentou.

Para Gabriel Kahn, professor que estuda a economia da mídia na Universidade do Sul da Califórnia, o projeto do Google não é o que esperava a indústria. "O Google cruzou um limite fisiológico: a ideia de pagar os produtores pelo conteúdo que distribui", disse. "Mas continua sendo o Google a dar as regras de seu próprio jogo. Continua sendo quem decide quem pode jogar, quais são as condições e quanto se paga", acrescentou.

David Chavern, presidente da News Media Alliance, que representa o setor de notícias dos Estados Unidos, disse que o anúncio do Google é "vago e confuso" e pode ter como objetivo ajudar o Google a negociar suas batalhas legais com a mídia.  "É um passo na direção certa, mas é bem pequeno", avaliou.

Leia mais em:

https://www.niemanlab.org/2020/06/google-paying-publishers-is-more-about-pr-than-the-needs-of-the-news-industry/

https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2020/06/25/google-diz-que-pagara-editores-por-publicar-noticias.htm

https://www.cjr.org/the_media_today/google-pays-publishers.php