Imagem de postagem no Facebook criada e publicada durante a campanha eleitoral norte-americana de 2016 Imagem de postagem no Facebook criada e publicada durante a campanha eleitoral norte-americana de 2016

Fábricas de notícias falsas da Rússia querem transformar internautas e seus funcionários em "zumbis"

O ambiente tóxico fomentado por sites de notícias falsas propagadas nas redes sociais começa dentro das próprias organizações fraudulentas. Na Rússia, por exemplo, jovens seduzidos por salários acima da média para publicar na web (algo como de US$ 1,4 mil por semana) mergulham em uma frenética e corrosiva atividade diária para produzir mentiras e manipular a opinião pública. Acabam em enorme sofrimento ou, após algo semelhante a uma lavagem cerebral, se transformam em “porta-vozes” do regime do presidente russo, Vladimir Putin.

Foi o que aconteceu na fábrica de inverdades Internet Research Agency, acusada pelo departamento de Justiça dos Estados Unidos de interferir ilegalmente nas eleições norte-americanas de 2016, informou o jornal The New York Times. Os conteúdos inverídicos só favoreciam o então candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, mas também estavam a serviço da propaganda do governo da Rússia. Um dos ex-funcionários (que exercia a função conhecida como troll da web) da organização chegou a dizer que, ao longo do tempo, ele e seus colegas perceberam que o trabalho que faziam tinham um objetivo nefasto. "Era como transformar as pessoas em zumbis, repetindo: Tudo está bem. Putin é bom, Putin é bom", afirmou.

Outros dois ex-trabalhadores confirmaram que a empresa, provavelmente com o apoio do Kremlin, atuou durante o último pleito dos Estados Unidos para prejudicar a fé no sistema eleitoral do país, incentivando ou mesmo criando grupos que semeiam discórdia. A tática incluiu não apenas o apoio à candidatura de Trump, mas também ações para minar a campanha da democrata Hillary Clinton.

Dentro da fábrica, conta um dos ex-funcionários, a primeira tarefa para era criar três identidades no LiveJournal, uma comunidade virtual de blogs. Um dos perfis tinha de produzir um conteúdo de alta qualidade, enquanto os outros dois eram "marginais". A partir daí, trabalhavam em turnos de doze horas, dia ou noite, e exploravam tópicos específicos para alcançar mais audiência, sem qualquer compromisso com a verdade.

Um dos temas recorrentes e favoráveis ao governo russo referia-se a armas químicas usadas pela Síria, comandada por Bashar al-Assad – que tem o apoio da Rússia. "Tivemos de escrever que 30% das armas foram eliminadas e, no dia seguinte, dissemos que foi 32%", afirmou um dos jovens, acrescentando que não tinha ideia se alguma arma havia sido eliminada.

Outro ex-funcionário revelou que todos deveriam fazer oitenta comentários e compartilhar vinte publicações por dia. "O objetivo principal era persuadir as pessoas, aumentar o patriotismo entre os russos e retratar negativamente os Estados Unidos", disse. "Claro que fiquei mais patriótico", reconheceu.

Quando a operação da Internet Research Agency chegou ao ápice, os diretores da empresa determinaram a seus trabalhadores que fossem cada vez mais repetitivos. "Se havia alguma criatividade no início, ao final nós éramos como robôs", lamentou um dos ex-trabalhadores da fábrica de mentiras.

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