Nações em época de desvario Luiz Felipe d’Avila/Reprodução/Zero Hora/Divulgação

Nações em época de desvario

O desvario pode arruinar pessoas, famílias e governos. Por ser inerente ao ser humano, organizações e instituições precisam criar mecanismos de governança para evitar que a loucura de um indivíduo possa destruí-las. No âmbito privado é possível interditar pessoas dementes para que não arruínem o patrimônio de sua família; já na política o desvario tem de ser contido pelos poderes formais e arranjos institucionais. Afinal, o Estado é perene e os governantes são passageiros – mesmo os que se acham deuses ou mitos.

Jorge III, rei da Inglaterra, enlouqueceu no fim do seu reinado. Com o apoio do Parlamento, foi decretada a regência em 1810, permitindo que o príncipe Jorge (futuro Jorge IV), assumisse as funções de chefe de Estado até o falecimento do seu pai, em 1820. Além da regência, o Parlamento continuou a ser o epicentro das decisões políticas, sob a liderança de alguns políticos extraordinários, como foi o caso de William Pitt. O papel central da regência e do Parlamento impediram que a loucura do rei Jorge III afetasse as questões de Estado. Durante o seu reinado, os Estados Unidos conquistaram sua independência, a Inglaterra exerceu papel preponderante na derrota de Napoleão e o Parlamento começou a combater a corrupção e a sinecura no serviço público.

Na mesma época, em Portugal, a rainha dona Maria I – avó do nosso dom Pedro I – também foi decretada louca (1792); seu filho dom João assumiu a regência e tomou a decisão de embarcar com a família real e a corte para o Brasil, em 1808, após Napoleão invadir Portugal. Enquanto dona Maria vivia reclusa no Convento do Carmo, até sua morte, em 1816, dom João fundou o Estado brasileiro, abriu os portos para o comércio internacional e permitiu a criação de uma imprensa livre. Esses exemplos históricos ilustram que a existência de instituições fortes podem garantir grandes avanços, mesmo durante o reinado de governantes dementes.

No Brasil contemporâneo, os efeitos colaterais do desvario governamental produziram resultados surpreendentes. Coisas que pareciam impossíveis, começaram brotar num país dilacerado pela corrupção, pelo fisiologismo e pelo corporativismo. Renasceram um Congresso responsável e parlamentares corajosos, dispostos a votar as reformas do Estado brasileiro que estavam adormecidas há mais de 20 anos. Um saudável choque de liberalismo fez saírem do papel a privatização das estatais e as primeiras iniciativas para desburocratizar processos, simplificar regras e abrir a economia. E, por fim, o desvario restabeleceu o diálogo entre as pessoas de bom senso tanto à direita como à esquerda do espectro político. Suas diferenças se tornaram insignificantes diante da retórica da boçalidade que encanta ogros e deixa estupefata as pessoas sensatas.

O desvario dos populistas é diferente da loucura dos reis. Aquele tem método. Populistas aprenderam a usar as mídias sociais e a imprensa para se conectarem com seus eleitores por meio de uma retórica chocante e de um comportamento vulgar e teatral. Quanto mais suas grosserias são propagadas, maior a sua popularidade entre a tribo que lhe dá voto e apoio. Cria-se, então, um círculo vicioso, que consiste em empregar a retórica excessiva para criar conteúdo viral, que, por sua vez, alimenta a verve populista.

Como quebrar esse ciclo?

O jornalismo poderia contribuir para combater o populismo se focasse sua atenção mais nos fatos do que na retórica; se debatesse mais as medidas que estão sendo votadas, aprovadas e implementadas no Parlamento e no governo e ignorasse o discurso populista.

No século 19, os jornais ignoraram a demência de seus monarcas. Nenhum repórter cobria os ataques de fúria do rei Jorge III ou os gritos da rainha Maria I no Convento do Carmo.

Nesse sentido, a imprensa deveria aprender com os nossos experientes políticos. Não se vê uma importante liderança no Congresso, nos partidos e nos governos regionais reagindo à retórica excessiva e vazia, cuja finalidade é provocar polêmica e manchetes para a mídia. O silêncio é o melhor antídoto contra a verborragia demagógica, pois ela é irrelevante para o País e insignificante para a História. A reação política à retórica populista só deve ocorrer quando ela se torna um instrumento de política pública e de decisões governamentais. Nesse caso, a imprensa, o Parlamento, os partidos, a Justiça e a sociedade precisam combatê-la de maneira veemente. Afinal, são as pequenas concessões ao populismo que pavimentam o caminho para a destruição da democracia e da liberdade.

O populismo tornou-se a epidemia política do século 21. Ele pode destruir nações, corroer a confiança nas instituições democráticas e pavimentar o caminho para a ascensão de governos autoritários, como foi o caso trágico da Venezuela. No Brasil, todavia, o desvario populista contribuiu para criar os anticorpos sociais que vêm permitindo a renovação da democracia, o fortalecimento das instituições e o despertar do espírito cívico que propiciou a mobilização da sociedade em torno das reformas do Estado e de temas prementes – como a política ambiental – que estavam circunscritos a especialistas.

Não vamos sucumbir aos males do populismo se tomarmos três providências. Primeiro, manter a sociedade mobilizada em torno das reformas e pressionando o Congresso e o governo para aprová-las. Segundo, contar com o papel responsável do Parlamento e do Judiciário para atuarem como contrapeso e impedirem que a retórica do desvario se torne política púbica ou seja capaz de criar mecanismos para enfraquecer o papel das instituições democráticas. Terceiro, a imprensa séria deveria focar nos fatos, dados e evidências e ignorar a retórica vazia e sensacionalista para evitar a retroalimentação da narrativa populista.

Se seguirmos esses três mandamentos, atravessaremos o reinado do desvario incólumes.

No Brasil o populismo contribuiu para criar anticorpos sociais que renovam a democracia

*LUIZ FELIPE D’AVILA É FUNDADOR DO CENTRO DE LIDERANÇA PÚBLICA (CLP), É AUTOR DO LIVRO ‘10 MANDA-MENTOS – DO PAÍS QUE SOMOS PARA O BRASIL QUE QUEREMOS’
Artigo publicado originalmente na edição de 28 de agosto de 2019 do jornal O Estado de S.Paulo