Várias vezes criticado por recomendar conteúdos duvidosos, YouTube agora diz que vai privilegiar jornalismo Reprodução

Várias vezes criticado por recomendar conteúdos duvidosos, YouTube agora diz que vai privilegiar jornalismo

A rede social de vídeos do Google, o YouTube, tem sido constantemente criticada por analistas que, com base em pesquisas, denunciam que os algoritmos da plataforma privilegiam conteúdos inapropriados, discursos de ódio ou teorias conspiratórias, tudo para manter audiência e engajamento. "No YouTube, a ficção supera a realidade", diz Guillaume Chaslot, um programador de informática francês com doutorado em inteligência artificial e demitido pelo Google em 2013. Agora, provavelmente em busca da credibilidade perdida, que arranhou a relação com seus anunciantes, por exemplo, o YouTube decidiu promover uma mudança que dará mais visibilidade ao jornalismo.

A rede social anunciou nesta terça-feira (10) que seus usuários poderão ter acesso a notícias sem mesmo ter que sair da plataforma. Isso porque, desde a segunda-feira (9), o sistema de busca do YouTube passou, segundo a empresa, a dar destaques a reportagens jornalísticas quando a procura feita pelo usuário está associada a assuntos do momento. A novidade entrou em vigor em 17 países entre eles o Brasil, informou o jornal O Estado de S.Paulo e o britânico The Guardian.

Com a novidade, quando o usuário busca por assuntos de ampla cobertura jornalística como, por exemplo, o resgate de crianças presas em uma caverna na Tailândia, o YouTube mostrará primeiro uma série de vídeos produzidos e publicados pela imprensa, informou o jornal paulista.

Para o projeto, a empresa disse que desembolsou US$ 25 milhões em investimentos que inclui a criação de um grupo de trabalho formado por membros de organizações de notícias e especialistas de todo o mundo. A equipe será responsável por desenvolver novos recursos, melhorar a experiência de notícias na plataforma e enfrentar os próximos desafios.

“Quando acontece uma notícia importante, queremos que nossos usuários saibam disso”, explicou a empresa em uma publicação em seu blog oficial assinada por Neal Mohan e Robert Kyncl, respectivamente chefe de produto e chefe de negócios da empresa. “É por isso que vamos destacar vídeos da imprensa sobre esse assunto diretamente na página inicial do YouTube”.

Além disso, aparecerão para os usuários informações complementares de sites terceiros como artigos relacionados do Wikipédia e da Enciclopédia Britânica. A empresa disse ainda que a plataforma terá vídeos sobre assuntos históricos para evitar a propagação de teorias da conspiração como o pouso do homem na Lua. “Acreditamos que o jornalismo de qualidade exige fluxos de receita sustentáveis ​​e que temos a responsabilidade de apoiar a inovação em produtos e o financiamento de notícias”, justifica a empresa ainda na publicação.

O YouTube garantiu ainda que vai expandir a equipe de suporte a editores de mídia para dar treinamentos de melhores práticas e formatos, desenvolvimento de público-alvo, como operar a plataforma diariamente, além de integrações técnicas sofisticadas.

Medidas sem efeito

Até aqui, porém, o YouTube é uma vitrine de aberrações. Segundo o programador Chaslot, “o algoritmo de recomendação não otimiza o que é verdadeiro, equilibrado ou saudável para a democracia". O especialista trabalhou no Google e, por vários meses, atuou no sistema de recomendação da rede social de vídeos.

Durante 18 meses, informou o jornal britânico The Guardian, Chaslot usou um programa para explorar a tendência dos conteúdos no YouTube durante as eleições francesas, britânicas e alemãs, aquecimento global e tiroteios em massa. Cada estudo encontra algo diferente, mas a pesquisa sugere que o YouTube amplifica sistematicamente os vídeos que são sensacionalistas e conspiradores ou tem por motivação a desunião. Em busca por Michelle Obama, ex-primeira-dama dos Estados Unidos, aparecem vários conteúdos que dizem que ela "é um homem". Em outra procura, mais de 80% dos vídeos recomendados pela rede social sobre o papa o descreveram como "mau", "satânico" ou "o anticristão". Havia, ainda, milhões de vídeos carregados com conteúdos alegando que a terra é plana, entre outros absurdos.

As mensagens inapropriadas misturam-se com frequência aos anúncios de marcas importantes. Recentemente, a CNN revelou que vídeos de mais de 300 empresas e organizações – incluindo gigantes de tecnologia, grandes varejistas, jornais e agências governamentais – veiculados em canais no YouTube apareceram associados a conteúdos promovendo nacionalistas brancos, nazistas, pedofilia, teorias de conspiração e propaganda norte-coreana.

Violação à lei de proteção à infância

Além disso, críticos advertem há meses que o algoritmo também vem empurrando conteúdo perturbador dirigido a crianças, dando enorme espaço para teorias de conspiração, inclusive tiroteios em massa. O The Guardian e a BBC informaram que o problema está presente até mesmo no aplicativo específico para esse tipo de público, o YouTube Kids. Há, por exemplo, personagens proferindo palavrões, enquanto outros usam armas. Muitas crianças relataram terem assistido a vídeos com palhaços ensanguentados, mensagens violentas e clipes assustadores.

A rede social de vídeos, contou a BBC, também não consegue resolver o problema de usuários que publicam vídeos com crianças em situações íntimas, violentas ou humilhantes. Apesar do YouTube ter anunciado no fim do ano passado a retirada de 150 mil vídeos chocantes envolvendo menores e o cancelamento de alguns canais, ainda é possível encontrar centenas de publicações com conteúdo impróprio envolvendo crianças ou voltadas para elas. Há, segundo a BBC, imagens de meninas com roupas de banho em posições em que suas partes íntimas ficam em evidência. Outras mostram situações escatológicas envolvendo fezes, vômito, cuspe e urina.

Em junho deste ano, uma coalizão de mais de 20 grupos de defesa do consumidor queixou-se a autoridades federais dos Estados Unidos acusando o YouTube de violar leis de privacidade infantil. Os queixosos afirmam que a redes social vem coletando e usando informações pessoais de crianças muito jovens em seu principal site, embora a empresa diga que a plataforma se destina apenas a crianças acima de 13 anos.

A coalizão de consumidores disse que o YouTube não obedece ao Ato de Proteção da Privacidade Infantil Online, uma lei federal que exige das empresas que obtenham consentimento dos pais antes de coletar dados de crianças com menos de 13 anos. Os grupos pedem uma investigação e punições por parte da Comissão Federal de Comércio (CFC), responsável pela aplicação do ato.

“O Google vem ampliando continuamente seu serviço dirigido diretamente a crianças, nos Estados Unidos e em todo o mundo, sem obedecer a essa lei e suas determinações”, disse Jeffrey Chester, diretor do Centro para Democracia Digital, um dos principais grupos da coalizão.

Leia mais em:

https://www.theguardian.com/technology/2018/apr/09/youtube-illegally-collects-data-on-children-say-child-protection-groups?utm_source=esp&utm_medium=Email&utm_campaign=Media+briefing+2016&utm_term=270914&subid=623236&CMP=ema_546

http://money.cnn.com/2018/04/19/technology/youtube-ads-extreme-content-investigation/?utm_source=Pew+Research+Center&utm_campaign=c1d2ea702d-EMAIL_CAMPAIGN_2018_04_20&utm_medium=email&utm_term=0_3e953b9b70-c1d2ea702d-399348769

http://fortune.com/2018/04/19/youtube-ads-extremist-videos/?utm_source=fortune.com&utm_medium=email&utm_campaign=cyber-saturday&utm_content=2018042122pm&eminfo=%7b%22EMAIL%22%3a%22IiE4S1rY9qcKSNA6Z8hX7uBP7PF%2b%2bDFf%22%2c%22BRAND%22%3a%22FO%22%2c%22CONTENT%22%3a%22Newsletter%22%2c%22UID%22%3a%22FO_DTA_391897DD-DAC7-4DA3-BFF6-7F28DD2D2D8F%22%2c%22SUBID%22%3a%2256940546%22%2c%22JOBID%22%3a%22718759%22%2c%22NEWSLETTER%22%3a%22DATA_SHEET%22%2c%22ZIP%22%3a%22%22%2c%22COUNTRY%22%3a%22%22%7d

http://www.businessinsider.com/bestiality-images-found-on-youtube-by-buzzfeed-2018-4?nr_email_referer=1&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_content=TechSelect&pt=385758&ct=Sailthru_BI_Newsletters&mt=8&utm_campaign=BI%20Tech%20Insider%20-%20Mon-Fri%202018-04-25&utm_term=Tech%20Select

https://www.wired.com/story/youtube-debuts-plan-to-promote-fund-authoritative-news/?utm_campaign=Newsletters&utm_medium=email&utm_source=sendgrid

https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/youtube-investira-us-25-milhoes-para-combater-noticias-falsas.ghtml

https://www.theguardian.com/technology/2018/jul/09/youtube-fake-news-changes

https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,youtube-agora-dara-destaque-a-reportagens-em-sua-pagina-principal,70002397119