Mathias Döpfner / Mathias Döpfner / Reprodução / Rolf Schulten / Bloomberg

Mathias Döpfner, do grupo alemão Axel Springer: o publisher que acumula vitórias na internet

Em 2000, o jornalista Mathias Döpfner redigiu um editorial no jornal Die Welt, do grupo alemão Axel Springer, sobre as três prioridades dos líderes empresariais: “Primeira: internet; segunda: internet; e terceira: internet”. Quando se tornou CEO da Springer, em 2002, Döpfner começou a colocar em prática o que havia escrito. Traçou um audacioso plano de investimento no conteúdo digital, vem acumulando resultados positivos e prepara seu ápice para daqui a dois anos, com a inauguração da nova sede da empresa. “O jornalismo não vai morrer só porque a distribuição é digital”, diz o executivo em entrevista para a Bloomberg. “Acho o contrário: o jornalismo vai ser melhor.”

Mesmo tendo de enfrentar o duopólio digital formado por Google e Facebook, detentores de uma gigantesca quantidade de dados de bilhões de pessoas, Döpfner segue otimista com o futuro. “A Springer está criando empregos, crescendo e tem aspirações para crescer ainda mais”, afirma. O novo prédio do grupo, projetado pelo arquiteto Rem Koolhaas para ser inaugurado em 2020 em um distrito que, antes da Segunda Guerra Mundial, estava repleto de jornalistas, não é apenas um símbolo das aspirações e da insistência de Döpfner com o meio digital. O executivo prevê ali um centro de alta tecnologia de marcas online que garantirá a prosperidade da empresa e ajudará a concretizar seu próprio projeto de construção corporativa: transformar a Springer na editora digital de maior sucesso do mundo.

Mais de 3 mil funcionários de mídia online da empresa trabalharão no novo edifício de 13 andares, dividido por um átrio de 30 metros de altura denominado “O Vale” – numa clara referência ao Vale do Silício, nos Estados Unidos, sede das gigantes de tecnologia. O foco do trabalho estará nas edições digitais dos jornais Bild e Die Welt – os dois principais diários da Alemanha, que vêm registrando crescimento nas assinaturas online – e em dezenas de publicações digitais do grupo, incluindo Business Insider, eMarketer e o site de clipes de vídeo NowThis.

O otimismo de Döpfner não esmorece nem mesmo diante das perdas registradas pelas mídias digitais nascidas na internet. Ele garante que a Springer é diferente. Os resultados da companhia no primeiro semestre de 2018 sustentam o que diz o executivo. A expansão das atividades de negócios digitais do grupo impulsionou o crescimento de 5,9% nas receitas, para um total de € 1,5 bilhão, em relação ao mesmo período do ano passado. Os portais de anúncios de emprego registraram crescimento orgânico de 11,3%, e o meio online representa hoje 80% dos negócios gerados pela companhia.   

Döpfner prevê mais avanços. Ele ressalta que o site Business Insider teve lucro no primeiro semestre deste ano, depois de gerar mais publicidade e vendas por assinatura do que o esperado. Em 2014, a Springer fez uma parceria com o Politico para iniciar uma edição europeia do site de notícias políticas, que ele espera que se torne rentável no próximo ano. Além disso, Döpfner pretende usar a marca "Insider" de forma segmentada, como o Car Insider, o Travel Insider ou o Pet Insider. E ele está aberto, diz a Bloomberg, para comprar mais marcas de notícias online e de classificados (um setor de destaque no crescimento da Springer) nos Estados Unidos, Ásia, América Latina e na Europa.

“Mais oportunidades do que riscos”

Trata-se de uma inversão nos negócios do grupo. Desde 2006, Döpfner já vendeu impressoras, jornais e revistas, o que veio junto com o enxugamento das redações. Ao mesmo tempo, investiu cerca US$ 5,8 bilhões para comprar mais de 40 empresas digitais, incluindo o portal de empregos StepStone, o site imobiliário francês SeLoger.com e o agregador de anúncios Awin.

"Desde cedo, Mathias entendeu o que a internet significa para o grupo, e ele vem atuando a partir disso", diz Thomas Shrager, diretor da Tweedy, Browne Co., que começou a investir na editora em meados da década de 1990 e hoje é a sua segunda acionista externa. “A Axel Springer é agora um negócio digital lucrativo, ao contrário da empresa offline com a qual ele começou”. Quando Döpfner tornou-se CEO, a empresa tinha acabado de registrar sua primeira perda anual com o aumento dos custos de impressão e uma desaceleração na publicidade após o colapso das empresas da internet.

Mas há quem alerte que as grandes empresas de tecnologia já competem com a Springer pela publicidade, e também podem eliminar a receita dos classificados. "A complexidade do mercado de tecnologia de anúncios realmente favorece os grandes", afirma Sarah Simon, analista da Berenberg em Londres. “Todos os outros, incluindo Axel Springer, são peixinhos em comparação.”

Döpfner argumenta que a Springer tem fortes relações de trabalho com grandes empresas de tecnologia, e destaca que o Facebook contratou a Business Insider para produzir vídeos sobre negócios. "Há muito mais oportunidades do que riscos", diz. O executivo está determinado a provar que as notícias online podem ser rentáveis e defende que a empresa adote a tecnologia para sobreviver e prosperar. “A diversão está apenas começando.”

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https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-08-07/axel-springer-is-winning-the-internet-with-business-insider