Ataques de líderes políticos à imprensa funcionam como censura, diz advogado do NYT Reprodução/The New York Times

Ataques de líderes políticos à imprensa funcionam como censura, diz advogado do NYT

Os ataques feitos de forma constante pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e por outros líderes políticos a jornalistas no mundo minam a credibilidade da imprensa e, na prática, funcionam como censura. Ao mesmo tempo, a discussão sobre liberdade de expressão está mais nebulosa desde a eleição norte-americana de 2016, por conta das notícias falsas e discursos de ódio espalhados nas redes sociais, que precisam tomar mais iniciativas para resolver a questão. As afirmações são de David McCraw, advogado e vice-presidente do jornal The New York Times em entrevista à Folha de S.Paulo. “As plataformas devem parar de fingir que elas não têm um papel nisso”, afirma.

Entrevistado pelo jornalista Bruno Benevides, McCraw disse que a agressão de governantes à imprensa têm o mesmo efeito que a criação de leis para controlar a mídia. “Os ataques à honra, à magnitude e à honestidade da imprensa são uma tentativa de controlá-la”, diz. O poder da imprensa, afirma, é a capacidade de afetar a opinião pública. “Se os líderes são capazes de fazer o público desacreditar na imprensa, ela perde seu poder. Então de alguma maneira enfraquecer a imprensa publicamente, através de discursos, de ataques, causa o mesmo resultado que tentar controlar a imprensa através de leis e de tribunais”.

Se o presidente ou qualquer outra pessoa discordar do que afirmou o The New York Times ou outra empresa jornalística, destacou o advogado, é importante que seja livre para criticar. “Mas a crítica deve ser sobre os fatos, o que falamos errado, o que deveria ter sido dito. Isso é diferente de chamar a imprensa de inimiga do público, que é um convite a não pensar, a rejeitar o que foi dito, sem considerar realmente se o que foi dito é verdade”.

Notícias falsas desencorajam a participação democrática

McCraw, que virá ao Brasil na próxima semana para debater o fenômeno das fake news, diz que as falsidades e a desinformação desencorajam pessoas a buscarem informações, confundem o público sobre o que é verdade e o que não é, levando as pessoas a não participarem da sociedade civil. “Em outras palavras, a questão não é tanto se as pessoas acreditam nas notícias falsas, mas que essas notícias criam tanta confusão que desencorajam o público a participar das atividades que as pessoas devem fazer em uma sociedade democrática”.

O vice-presidente do The New York Times afirmou ainda que, pelo menos no sistema dos Estados Unidos, cabe ao jornalismo ser uma força contra as fake news. “Jornalistas lutam todos os dias contra elas ao se comprometerem a buscar a verdade, a fazer reportagens precisas, a chamar atenção aos problemas reais. Isso encoraja as pessoas a procurarem fontes confiáveis de informação”, diz. “Também acho que é importante cobrir as fake news como um fenômeno, uma força política. Chamar atenção é uma forma de lutar contra isso”.

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