Centro de distribuição do jornal The Janesville Gazette (Wisconsin/EUA) Centro de distribuição do jornal The Janesville Gazette (Wisconsin/EUA) /Reprodução/Angela Major/The Janesville Gazette/Associated Press/Folha de S.Paulo

Tarifas mais altas sobre papel impostas por Trump ameaçam jornais locais dos EUA

A decisão do governo de Donald Trump de impor tarifas ao papel de imprensa produzido no Canadá acelerou demissões em jornais locais dos Estados Unidos, informou nesta quinta-feira o diário The New York Times. O veículos locais, segundo reportagem publicada no Brasil pela Folha de S.Paulo, já enfrentavam dificuldades e, agora, estão sendo forçados a reduzir suas equipes, o número de dias de circulação e, pelo menos em um caso, a fechar completamente.

Jornais de todo o país já estão sentindo os efeitos das tarifas. Pelo menos 12 veículos cortaram os dias de publicação, e um deles, o Jackson County Time-Journal, de Ohio, fechou, devido à queda do número de leitores da edição impressa e às tarifas. Publicações maiores, como The Tampa Bay Times, que ganhou prêmios Pulitzer em 2016 por reportagem local e investigativa, também estão na lista dos jornais afetados. Paul Tash, presidente e executivo-chefe do jornal, disse que o preço do papel por tonelada aumentou US$ 200 (R$ 760), criando um custo adicional em despesas de impressão de US$ 3,5 milhões (R$ 13,3 milhões) por ano.

O The Gazette de Janesville (Wisconsin) informou que as tarifas sobre o papel aumentaram os custos de impressão anuais em US$ 740 mil (R$ 2,8 milhões). O jornal fez vários cortes de pessoal e está usando papel mais estreito, reduzindo o número de reportagens publicadas diariamente. "Estamos todos pagando um preço enorme", disse Skip Bliss, editor da Gazette, sobre o efeito das tarifas no setor. "Temo que será uma época muito difícil. Acho que provavelmente haverá algumas baixas."

Em algumas cidades da zona rural, o jornal semanal serve como único canal de informações da região, disse Crystal Dupre, editora de The Bryan-College Station Eagle, em Bryan, no Texas. "Não há dúvida de que sem um jornal local ninguém cobra atitudes das autoridades, nem serve como arquivo local", disse Dupre. Em reação aos aumentos do custo de impressão de 30%, disse ela, The Eagle reduziu o número de páginas que imprime diariamente e evitou preencher cargos vagos "em todos os departamentos", do editorial à contabilidade.

Aumento de 30% nos custos em dois anos

Estudo realizado em nome de uma coalizão de gráficas, editoras e fornecedoras de papel projeta que o preço do papel-jornal nos EUA aumentará mais de 30% em um ou dois anos, e que os jornais e gráficas enfrentarão um aumento de custos de aproximadamente US$ 500 milhões (R$ 1,9 bilhão) pelas cinco fábricas de papel-jornal que restam nos EUA. O estudo foi apresentado à Comissão de Comércio Internacional dos EUA, um órgão federal independente que rege o setor e poderá derrubar ou modificar a decisão do Departamento do Comércio em uma decisão judicial esperada para o próximo mês.

As tarifas sobre o papel de imprensa fazem parte de várias medidas comerciais que Trump aplicou no esforço de seu governo para proteger os fabricantes norte-americanos, contendo o que chama de práticas comerciais injustas. As tarifas foram implementadas em janeiro, depois que o Departamento do Comércio se aliou à North Pacific Paper Co., uma fábrica de papel sediada no estado de Washington, em uma queixa alegando que os fabricantes canadenses vendiam papel-jornal por preços artificialmente baixos. Na semana passada, departamento emitiu tarifas finais de 3,38% a 16,88%, ligeiramente menores do que havia aplicado inicialmente.

Embora as tarifas pareçam se alinhar ao conhecido desprezo de Trump pela imprensa noticiosa, diz o The New York Times, a decisão do governo a favor da companhia que moveu a ação não foi incomum na luta comercial do presidente. O governo incentivou empresas a mover processos quando têm queixas contra similares estrangeiras, e o processo de "imposto compensatório" sob o qual o caso da North Pacific Paper foi iniciado se destina a defender as empresas norte-americanas das concorrentes estrangeiras.

Pressão no Congresso

Os editores de jornais estão otimistas de que a pressão do Congresso possa abrandar as tarifas. Uma legislação apresentada em maio pela senadora republicana Susan Collins, do Maine, suspenderia as tarifas enquanto Wilbur Ross, o secretário do Comércio, realiza um estudo de suas consequências sobre o setor. Ela tem 31 copatrocinadores dos dois partidos, e a deputada democrata Kristi Noem, da Dakota do Sul, apresentou um projeto relacionado na Câmara. Ryan manifestou preocupação sobre as tarifas a Ross, disse seu gabinete na quarta-feira (8).

Bliss disse que a redução das tarifas é crucial para garantir a sobrevivência de pequenos jornais regionais. "Quando eles desaparecerem, não voltarão mais", afirmou. "Isso significa que essas comunidades, tudo o que fazemos para que os governos, as escolas e a polícia prestem contas, não haverá ninguém para fazer isso."

Leia mais em:

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/08/tarifas-de-trump-sobre-papel-aceleram-demissoes-em-jornais-regionais.shtml