Preocupação com segurança nacional leva governos a estabelecerem agendas digitais independentes do Vale do Silício Reprodução

Preocupação com segurança nacional leva governos a estabelecerem agendas digitais independentes do Vale do Silício

A ideia do meio digital ­como um instrumento mágico e intocável que traria prosperidade a todos está morta, e as principais questões sobre os avanços tecnológicos no mundo online regressaram ao terreno do comércio internacional, do desenvolvimento econômico dos Estados e da segurança nacional. A análise é de Evgeny Morozov, editor associado da revista The New Republic e autor do livro “A loucura do solucionismo tecnológico”, em artigo no jornal El País. Nesse novo cenário, diz o especialista, os governos têm adotado posições mais intervencionistas, uma vez “que o que está em jogo são as consequências de permitir que setores estratégicos caiam nas mãos de potências estrangeiras”. Diferentes países, continua, estão construindo agendas digitais e tecnologias próprias para evitar dependência junto aos grandes oligopólios do Vale do Silício.

“Os governos, até então considerados demasiado torpes para atuar na era 'digital', voltaram ao tabuleiro e adotaram posição muito mais intervencionista e insistem em restabelecer sua soberania no plano tecnológico”, afirma Morozov.  Isso porque, frisa, não são mais capazes de continuar pregando de forma convincente em favor da liberalização do comércio nos dados, software ou hardware. “São forçados a escolher entre duas opções: reafirmar a soberania tecnológica ou não fazer nada, por falta de boas ideias ou poder; ou por disputas políticas internas (como no caso do Reino Unido)”.

A China, afirma Morozov, é foco de atenção total, com sua nova lei sobre segurança cibernética e investimento para alcançar a hegemonia global em inteligência artificial. A Rússia anunciou planos para exigir que servidores públicos usem smartphones de fabricação e software nacionais. A Índia, destaca Morozov, quer que as companhias de tecnologia estrangeiras armazenem seus dados dentro de suas fronteiras, ostensivamente por razões de segurança nacional, mas também invocando a necessidade de preservar sua soberania tecnológica.

Na Itália, o governo prometeu impedir a venda da operadora nacional de fibra ótica Sparkle. França e Alemanha, continua Morozov --  presumivelmente cosmopolitas e internacionalistas frente ao projeto nacionalista do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump --, também estão preocupados com a soberania tecnológica. A ministra da Defesa francesa, Florence Parly, por exemplo, anunciou que quer "reduzir o contato da França com componentes norte-americanos".

Há apenas dois anos, lembra Morozov, a chanceler alemã Angela Merkel descreveu a Internet como um "território virgem". Mas Alemanha mudou de posição. "Depois de ver como suas joias nas indústrias de robótica e tecnologia foram arrebatadas por investidores estrangeiros -- em particular, chineses --, Berlim não é mais tímida ao usar o veto para bloquear certas aquisições", ressalta o especialista. O país estuda ainda a possibilidade de criar um fundo nacional específico que possa comprar ações de empresas alemãs de tecnologia.

Os riscos

Nos Estados Unidos, a Casa Branca tornou pública uma Estratégia Nacional de Segurança Cibernética, que autoriza as Forças Armadas a realizar operações cibernéticas ofensivas com poucas restrições. Ao citar esse caso, Morozov alerta para os riscos que acompanham o movimento de todos esses países, em especial os que hoje são governados por mandatários com viés autoritário. "Se, aparentemente, [Barack] Obama não hesitou em autorizar a interceptação do telefone de Angela Merkel [em caso de 2013], quem vai confiar que Trump resiste a essa tentação?”

Leia mais em:

https://elpais.com/tecnologia/2018/10/08/actualidad/1539017186_874388.html