Projeto Comprova destaca-se ao enfrentar notícias falsas no mais espinhoso campo de batalha à falsidade: o WhatsApp Reprodução/CJR/Foto de Sérgio Lüdtke

Projeto Comprova destaca-se ao enfrentar notícias falsas no mais espinhoso campo de batalha à falsidade: o WhatsApp

Reunindo o trabalho de jornalistas de 24 organizações de mídia do Brasil, o projeto de verificação de fatos Comprova é hoje a principal frente de combate a notícias falsas e desinformação em um terreno que se mostrou mais fértil do que qualquer outro aplicativo ou rede social para a propagação de falsidades: o WhatsApp. Desde o seu lançamento, conta o site Columbia Journalism Review, da Universidade Columbia, o projeto recebeu quase 50 mil solicitações de verificação de conteúdos espalhados no app de mensagens do Facebook, seis por dia na reta final do primeiro turno das eleições brasileiras deste ano. A iniciativa, capitaneada pelo First Draft, da Universidade Harvard, deve ser replicada nas eleições de outros países como Índia, Nigéria e Indonésia, onde, a exemplo do Brasil, o WhatsApp domina.

O aplicativo de mensagens do Facebook tem quase 120 milhões de usuários brasileiro, segundo estudo do Instituto Reuters, de 2017. No período eleitoral de 2018, relata o Columbia Journalism Review, quase 48% da população do Brasil recorre ao WhatsApp para ver conteúdo político. Estima-se que 57% dos apoiadores de Jair Bolsonaro (PSL) recebem notícias de seu candidato a presidente pelo aplicativo, onde o enfrentamento às notícias falsas é de extrema dificuldade.

Um dos obstáculos, diz Daniel Bramatti, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e um dos administradores do trabalho cotidiano do Comprova, é a confiabilidade das pessoas em relação aos que compartilham informação no aplicativo, quase sempre amigos e familiares. Além disso, o fato de o WhatsApp ser uma plataforma criptografada tornou difícil para sites de checagem de fatos, como o Comprova, acessarem conversas fechadas. “Sabemos que nosso papel é limitado”, Bramatti. "Estamos lutando contra um monstro e não temos todas as armas para matá-lo."

Todas as ferramentas disponíveis, entretanto, são utilizadas ao máximo pelos profissionais que atuam no Comprova. A jornalista Alessandra Monnerat, que integra o Estadão Verifica, frente de fact-checking do jornal O Estado de S.Paulo – associado ao Comprova –, por exemplo, diz que monitora as conversas usando Spike, CrowdTangle e Torabit e alerta sua equipe quando ela encontra histórias "problemáticas". A partir dali dois ou três repórteres de diferentes redações trabalham em conjunto para dissipar o rumor, verificando um conjunto de perguntas pré-estabelecidas. Assim que o relatório de verificação fica pronto, ele é examinado por pelo menos dois parceiros de mídia antes de ser disponibilizado online e disseminado por todos os veículos que integram o projeto.

Apesar de todo o esforço, a tarefa fica limitada diante do gigantismo do WhatsApp. "O volume de grupos é tão grande que eles [Comprova] só podem combater o que é relevante”, diz Pablo Ortellado, professor de políticas públicas da Universidade de São Paulo (USP), que monitora cerca de 200 sites de notícias, mil páginas no Facebook e 350 grupos do WhatsApp no Brasil. Mesmo assim, o especialista diz estar otimista em relação ao impacto do Comprova, que também checa informações falsas, conteúdo forjado e manipulações em outros aplicativos e redes sociais. “As pessoas que produzem notícias falsas não têm o mesmo poder de broadcasting do Comprova”, lembra Ortellado.

Fazem parte do projeto: AFP, Band, BandNews, Canal Futura, Correio do Povo, Exame, GaúchaZH, Gazeta do Povo, Gazeta Online, Jornal do Commercio, Metro Brasil, Nexo Jornal, Nova Escola, NSC Comunicação, Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Povo, Poder360, piauí, Rádio BandNews FM, Rádio Bandeirantes, SBT, UOL e Veja.

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