Analfabetismo funcional no Brasil é obstáculo para educação midiática, peça importante no combate à desinformação e ódio nas redes sociais Reprodução/BBC

Analfabetismo funcional no Brasil é obstáculo para educação midiática, peça importante no combate à desinformação e ódio nas redes sociais

Três entre cada dez brasileiros são considerados analfabetos funcionais, diz nova edição do Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), pesquisa idealizada em parceria entre o Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa e realizada com o apoio do IBOPE Inteligência. No entanto, de acordo com o estudo, mesmo com suas dificuldades – limitação para ler, interpretar textos, identificar ironia e fazer operações matemáticas em situações da vida cotidiana – esse grupo é usuário frequente das redes sociais. Entre eles, 86% usam WhatsApp, 72% são adeptos do Facebook e 31% têm conta no Instagram. Os dados revelam o tamanho do desafio existente no país no que diz respeito a uma das principais frentes contra desinformação e ódio na internet, que subiram em assustadores percentuais no segundo turno da eleição deste ano, segundo a BBC News Brasil: a alfabetização midiática.

Um dos reflexos do baixo nível de alfabetismo no contexto digital é que essas pessoas ficam mais vulneráveis à desinformação, especialmente memes, imagens manipuladas e usadas em contexto falso, diz Christine Nyirjesy Bragale, vice-presidente de comunicação do The News Literacy Project, entrevistada pela BBC News B rasil. "Obviamente elas têm uma capacidade limitada para checar através de pesquisa e leituras paralelas, e seu acesso a jornalismo impresso de qualidade é limitado", explica Christine.

A especialista norte-americana afirma que, para superar o problema, o primeiro passo é garantir que as pessoas, independentemente de seus níveis de leitura, compreendam que a desinformação pode vir por diferentes canais, incluindo imagens manipuladas e vídeo e se espalhar rapidamente. "Só essa consciência já é um começo para combater a desinformação e diminuir a sua propagação."

Pollyana Ferrari, jornalista, pesquisadora de mídias digitais e professora da PUC-SP, diz acreditar que o trabalho de conscientização só virá com o amadurecimento do uso das redes sociais, que ainda é recente no Brasil (14 anos), além de educação. Ela cita o caso de Portugal, que oferece aulas de letramento em mídias digitais nas escolas de educação básica desde os anos 90.

"A pessoa não vai deixar de ver um vídeo e compartilhar, o brasileiro acredita muito no grupo do WhatsApp da família, seja para o bem ou para o mal. As pessoas têm direito de ter um celular, pode ter mais risco de cair em golpes e receber vírus, mas vai aprender usando. Mas não há o que fazer, a responsabilidade é dos governos, das empresas, de treinar, formar, o trabalho é coletivo e de 'formiguinha'."

A professora lembra que, até pela dificuldade de interpretação de texto, as mensagens falsas se propagam mais por mensagens em áudio. "Muita gente acredita nas 'fakes news' porque não tem bagagem, não tem senso crítico, quando há uma escolaridade precária, a pessoa fica muito mais manipulável."

No WhatsApp, segundo o Inaf, as chances de proliferação de desinformação são realmente maiores. Além do fato de que há maior nível de confiança entre participantes de grupos (amigos, familiares etc), gratuidade e de certo anonimato, quase não há diferença de uso entre os grupos divididos por nível de alfabetização. Enquanto 92% dos analfabetos funcionais enviam mensagens escritas, o índice é de 99% entre os alfabetizados; 84% dos analfabetos funcionais compartilham textos que outros usuários enviaram, já 82% dos alfabetizados fazem isso.

Falsidade em escala industrial e ataque às minorias

Superar as dificuldades educacionais e garantir que um número maior de pessoas possa diferenciar e evitar desinformação e ódio é fundamental para a redução do índice de compartilhamento desses conteúdos considerados tóxicos. E talvez ajude a explicar pelo menos parcela dos dados obtidos com exclusividade pela BBC News Brasil junto à ONG SaferNet. O levantamento mostra um preocupante crescimento de postagens na internet com mensagens que incitem a prática de crimes, pregando a violência ou o extermínio de grupos e minorias, ou divulgando mensagens de cunho racista.

Os números mostram que durante os 21 dias que separaram as votações em primeiro e em segundo turno na eleição deste ano as denúncias com teor de xenofobia cresceram 2.369,5%, de apologia e incitação a crimes contra a vida, 630,52%, de neonazismo, 548,4%, de homofobia, 350,2%, de racismo, 218,2%, e de intolerância religiosa, 145,13%.

O número total de denúncias mais que dobrou em relação ao pleito de 2014: passou de 14.653 para 39.316 neste ano. A maior parte do conteúdo denunciado por meio da plataforma da SaferNet estava no Facebook. Entre 16 de agosto e 28 de outubro, 13.592 denúncias foram feitas tendo URLs (os endereços) da rede social. Em segundo lugar vem o Twitter, com 1.509, seguido de Instagram, com 1.088, e do YouTube, com 400.

"A internet é caixa de ressonância da sociedade. Essas eleições foram muito polarizadas, e isso se refletiu nas redes sociais", diz o presidente da SaferNet, Thiago Tavares, ouvido pela BBC News Brasil. O crescimento de denúncias das eleições de 2014 para 2018, afirma, também se deve à "produção e difusão em escala industrial” de conteúdos enganosos criados para incentivar o ódio, o preconceito e a discriminação.

"Boa parte das fake news tinham alvos claros: mulheres, negros, pessoas LGBT. Então, não surpreendeu que esses grupos fossem vítimas desses ataques", diz Tavares. O Ministério Público Federal tem acesso a todas as denúncias feitas na plataforma da ONG, e a partir desse banco de dados faz investigações.

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46177957

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46146756