Extremismo das manifestações na França é amplificado pelo modelo de negócio do Facebook, diz Frederic Filloux Reprodução/AFP

Extremismo das manifestações na França é amplificado pelo modelo de negócio do Facebook, diz Frederic Filloux

A violência, o discurso populista e a ausência de verdadeiros líderes de um grupo que reúne pessoas da esquerda à direita nos recentes protestos na França, com ápice no sábado (1º) passado – quando Paris se tornou uma praça de guerra –, são alimentados pelo Facebook. Esse é o entendimento do editor do site Monday Note, Frederic Filloux, que esteve em Paris no último fim de semana. “Como amplificador absoluto e 'radicalizador' da raiva popular, o Facebook demonstrou sua toxicidade para o processo democrático”, assinala o jornalista ao associar o que ocorre hoje entre os franceses a outros casos, como a recente eleição no Brasil e o pleito presidencial nos Estados Unidos em 2016.   

Como em outros momentos críticos em vários lugares do mundo, segundo análise de Filloux, o tão criticado modelo de negócio da rede social continua com o mesmo protagonismo. Garante engajamento e articulação a partir da sua gigantesca capilaridade e muita desinformação. Em paralelo, a rede social privilegia publicações pessoais e de grupos e, ao mesmo tempo, reduz a visibilidade dos conteúdos jornalísticos.

Ao detalhar como se dá a participação da rede social norte-americana nos protestos na França, Filloux ressalta que 63% dos usuários da internet estão no Facebook. Além disso, o país é servido por uma notável infraestrutura para celulares que é relativamente barata e confiável. O resultado, destaca o jornalista, são inúmeras selfies, vídeos e transmissões ao vivo feitos durante o evento, que alimentaram a raiva e a fantasia, com enorme eficiência. “Passei uma tarde inteira lá [na capital francesa]. Quase todas as pessoas com quem conversei admitiram confiar no Facebook para se informar em tempo real sobre os eventos que se desdobram”.

O jornalista conta que há duas semanas mais de 1,5 mil eventos no Facebook relacionados aos protestos foram organizados localmente, às vezes conquistando um quarto da população de Paris. “Pensadores autodenominados tornaram-se figuras nacionais, graças a páginas populares e a uma onda do Facebook Live”, diz Filloux. Um deles, Maxime Nicolle (107 mil seguidores), organiza frequentes transmissões ao vivo improvisadas, imediatamente seguidas por milhares de pessoas. O “evangelho” de Nicolle, que virou uma voz nacional, entretanto, é uma miscelânea de exigências incoerentes, diz o editor do Monday Note.

Menos jornalismo e mais força às bolhas sem pluralidade

Filloux lamenta que, nesse cenário caótico, o Facebook substituiu a mídia tradicional. “Em várias cidades, jornalistas foram atacados e se tornaram o foco de um ódio público generalizado”. Para os manifestantes, desde os moderados até os mais radicais, continua o jornalista, o Facebook não mente porque é a expressão das pessoas, mesmo exibindo óbvias notícias falsas, como imagens antigas de manifestantes ou boatos de que tanques estavam prontos para atacar os manifestantes, que usam como símbolo o colete amarelo do kit de emergência para motoristas. O editor do Monday Note diz ainda que os esforços para desmascarar as fraudes, feitos por jornalistas verificadores de fato, se perdem em meio ao ruído de desinformação.

"Enquanto os ‘coletes amarelos’ não acreditam mais no que a mídia tradicional diz, as transmissões ao vivo no Facebook e mais amplamente os vídeos que circulam nas redes sociais aparecem como a única mídia confiável", afirma Vincent Glad, jornalista do Libération. Além disso, reforça o comunicador francês especializado em mídias interativas, o novo algoritmo do Facebook favorece o conteúdo dos grupos em detrimento daqueles postados pela mídia. “Ao contrário de uma crença popular entre manifestantes, convencidos de que [o presidente Emmanuel] Macron está os censurando com a ajuda do Facebook, o melhor aliado deles é Mark Zuckerberg. O novo algoritmo afunilou os ‘coletes amarelos’ em uma bolha de filtro amplamente preenchida com conteúdo amarelo.”

Ameaça à democracia que precisa ser contida

Filloux escreveu nesta segunda-feira (3) sempre ter dito que o Facebook é a arma mais ameaçadora às democracias já inventada. “Nos últimos dois anos, o sequestro da rede social por grupos populistas ou partidos corrompeu uma dúzia de processos eleitorais em todo o mundo e levou ao poder uma série de líderes populistas que terão um efeito profundo em seus países”, adverte. O jornalista afirma que “agora é certo” que Donald Trump, nos Estados Unidos, e Rodrigo Duterte, nas Filipinas, devem sua eleição ao Facebook. No Brasil, diz, o presidente eleito Jair Bolsonaro construiu uma forte base eleitoral em grande parte “graças a um armamento bem organizado” no WhatsApp (que pertence ao Facebook).

Nem por isso, enfatiza o jornalista, o Facebook deve ser banido, até porque “abriria as comportas” para serviços completamente além do controle dos governos ocidentais, como os aplicativos Telegram, WeChat ou Toutiao. “Apesar de sua incrível negligência, o gerenciamento do Facebook é seguro (...), mas precisa mais do que nunca ser regulado de uma forma ou de outra”, diz Filloux. “Uma maneira razoável seria desmantelá-lo, dividindo Facebook, WhatsApp e Instagram, pois estão atualmente interconectados. [Isso] Pode demorar um pouco. Espere mais danos nesse meio tempo”.

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https://mondaynote.com/how-facebook-is-fueling-the-french-populist-rage-27a86acb9d85