Trabalho de jornalistas da AL em consórcio internacional revela avanços na investigação colaborativa Reprodução/ICIJ

Trabalho de jornalistas da AL em consórcio internacional revela avanços na investigação colaborativa

A participação de jornalistas latino-americanos no mais recente projeto jornalístico transnacional coordenado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), lançado em 26 de novembro, revela o quanto o avanço no uso de técnicas de colaboração e de alta tecnologia é capaz de tornar o jornalismo investigativo ainda mais eficiente, desde a apuração até a escolha das narrativas para distribuir as reportagens.

O projeto, The Implant Files, informa o Centro Knight, reúne 252 profissionais de 59 veículos de 36 países que investigaram dezenas de fabricantes e distribuidoras de dispositivos médicos em todo o mundo. Entre eles estão 39 profissionais da Argentina, Brasil (profissionais da revista piauí e da Agência Pública), Chile, Costa Rica, Equador, México, Peru e Venezuela.

No que diz respeito à comunicação, os jornalistas latino-americanos, assim como os de todos os países integrantes do projeto, fazem uso de uma ferramenta já experimentada em colaborações transnacionais anteriores do ICIJ: o Global I-Hub. "É uma espécie de Facebook fechado, onde você pode seguir temas de interesse (neste caso, um produto ou uma empresa em particular, um país, etc.). Você pode trocar informações, fazer perguntas e isso se transforma em uma espécie de reportagem coletiva", explicou Francisca Skoknic, jornalista da associação chilena LaBot.

Os meios de comunicação também compartilham documentos obtidos via solicitações de informações a partir do Centro de Conhecimento do ICIJ, plataforma usada anteriormente pelo consórcio para a investigação do Panama Papers. Entre os pedidos feitos pelos parceiros do Implant Files estavam os dados sobre recalls, que informariam boa parte das reportagens feitas pelos parceiros de mídia. Como parte da investigação, os repórteres puderam rastrear itens retirados de mercado nos Estados Unidos em seus próprios países.

"A América Latina é muito opaca sobre como as importações são tratadas, sobre as compras desses dispositivos e sobre a relação dos médicos com os fabricantes de implantes médicos. Os pacientes são muito mal informados por seus médicos sobre o que é colocado em seus corpos", disse Fabiola Torres, jornalista peruana do Ojo Público e Knight Fellow do ICFJ para a América Latina, ao Centro Knight.

A equipe do ICIJ enfrentou um desafio quando analisou os dados, para os quais eles usaram machine learning com o objetivo de descobrir mortes subnotificadas, explicou Díaz-Struck. Rigoberto Carvajal, um jornalista costarriquenho no time de dados e pesquisa do ICIJ, criou algoritmos para analisar os registros do banco de dados Manufacturer and User Facility Device Experience (MAUDE) da Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos. O banco de dados contém relatórios sobre “mortes suspeitas associadas ao uso de dispositivos, ferimentos graves e mau funcionamento”, de acordo com o site da FDA.

O algoritmo de Carvajal analisou relatórios com menções de mortes que foram classificadas erroneamente e, em seguida, uma equipe de onze pessoas vasculhou manualmente os registros para garantir que os resultados fossem precisos. O jornalista, diz o Centro Knight, rodou seu algoritmo novamente para ver se algum dispositivo médico estava envolvido na morte e a equipe mais uma vez checou os registros sinalizados, um por um.

Além de informar sobre a falta de informações públicas disponíveis sobre dispositivos médicos, a ausência de regulamentação e mortes sub-relatadas, os jornalistas latino-americanos também analisaram os conflitos de interesse entre médicos e a indústria de dispositivos médicos. Outros mergulharam profundamente em alguns dos gigantes da indústria, como a Medtronic no Chile, e seus papéis na região. A revista piauí analisou o crescimento dos processos judiciais contra a Silimed, fabricante de implantes de mama no Brasil, onde mais de 215 mil cirurgias estéticas para implante de silicone foram realizadas no ano passado.

Os parceiros de mídia entrevistaram pacientes, pessoas afetadas por implantes com mau funcionamento ou ineficazes. Agência Pública no Brasil ouviu mulheres que sofreram sérios efeitos colaterais negativos com o dispositivo de esterilização feminina Essure. O El Universo entrevistou o presidente executivo da Associação Equatoriana de Produtores e Distribuidores de Produtos Médicos (Asedim), que denunciou a presença de produtos falsificados e contrabandeados no sistema nacional de saúde pública.

Formatos narrativos inovadores

Para levar as reportagens ao maior público possível, os meios de comunicação latino-americanos estão utilizando uma variedade de formatos narrativos. O Ojo Público, do Peru, usou pela primeira vez visualizações em 3D e pôsteres para resumir as descobertas. Usando animadores e explicações textuais, os pôsteres respondem a perguntas como "Como um implante defeituoso entra no seu corpo?"

Parceiros de mídia também compartilharam descobertas em vídeo. A Mexicano Contra la Corrupción (MCCI), do México, usou um vídeo para compartilhar documentos de testes usados na reportagem sobre uma subsidiária da Zimmer Biomet, fabricante de aparelhos dentários, que foi investigada pelas autoridades dos EUA, de acordo com a MCCI. O uso do vídeo nas redes sociais tem grande efeito, conforme apontado por Raúl Olmos, autor da reportagem.

No Chile, um chatbot foi utilizado para informar os leitores sobre bombas de insulina e sobre o controle sanitário de dispositivos médicos no país, entre outras histórias. Quando a LaBot lança uma nova reportagem como parte das investigações, os leitores recebem notificações no Facebook Messenger ou no Telegram e podem conversar com o chatbot para saber mais.

"É uma nova maneira de contar histórias e acreditamos que isso traz algo diferente ao projeto. O primeiro bate-papo que lançamos foi a principal reportagem do ICIJ, que é muito longa e entrega muita informação", disse Andrea Insunza, jornalista da equipe. “A graça do robô é que ele foi capaz de pegar esses dados e relatá-los de uma maneira simples e amigável, simulando uma conversa com nosso público", acrescentou.

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https://knightcenter.utexas.edu/pt-br/blog/00-20399-cerca-de-40-jornalistas-latino-americanos-trabalham-em-investigacao-global-transfronte