Facebook deve ajudar os líderes democráticos a construir um debate construtivo na rede social, diz Frederic Filloux Reprodução

Facebook deve ajudar os líderes democráticos a construir um debate construtivo na rede social, diz Frederic Filloux

Os novos protestos dos "coletes amarelos" em diversas cidades da França no último fim de semana refletem o desgaste do presidente Emmanuel Macron em apenas 18 meses de governo. A crise, diz o jornalista Frederic Filloux, editor do site Monday Note, está associada ao modelo de negócio do Facebook que não apenas impulsiona a desinformação, como impede o diálogo construtivo. “As tentativas de explicar ou educar não têm chance de serem ouvidas. Os líderes políticos precisam repensar sua abordagem e o Facebook deve ajudar”, defende.

Filloux, que na semana passada detalhou o papel da rede social norte-americana na amplificação e na organização dos violentos atos do heterogêneo grupo que tem protestado na França, diz em texto mais recente que o governo de Macron não foi capaz de se comunicar e explicar as reformas que propõe. Em contrapartida, a desinformação propagada no Facebook ocupou o espaço vazio deixado pelo presidente e sua equipe. Exemplo disso, afirma o jornalista, foi a declaração do primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, no fim de novembro, na qual ele admitiu ser “provavelmente incapaz de explicar” o novo regime de tributos na área de energia, entre eles os impostos sobre os combustíveis.  

A multidão, entretanto, fez a tradução em nome Philippe, destaca Filloux: “O segmento mais pobre da população, morando em áreas rurais e com longas viagens ao trabalho, terá que pagar mais, e os carros a diesel que [a população] foi encorajada a comprar em breve serão legalmente obsoletos, não tecnicamente, mas por decreto. Isso desencadeou a Jacquerie [rebeliões camponesas ocorridas em 1358], que na França é uma especialidade nacional”. Enquanto o governo se comunicava mal, uma mudança feita pelo Facebook em seu algoritmo, sob a alegação de combate a notícias falsas, aumentou ainda mais a surdez dos usuários da rede social (67% dos franceses) ao reduzir a visibilidade dos conteúdos jornalísticos no chamado feed de notícias do site norte-americano.

As seis maiores organizações de mídia na França têm, lembrou Filloux, um alcance diário cumulativo de 12 milhões de usuários (números de outubro passado), 41% do público do Facebook. Mesmo esses números são enganosos, afirma o editor do Monday Note, uma vez que os usuários gastam mais de 50 minutos por dia no Facebook, mas reservam apenas alguns minutos para a mídia de notícias. Esse desequilíbrio, continua o jornalista, também explica a incapacidade de conduzir o debate em direção à razão.

A partir desse tipo de ambiente digital, afirma Filloux, a rede social norte-americana ajudou, nos últimos dois anos, populistas a chegarem ao poder e, em muitos países, foi involuntariamente utilizada para multiplicar interesses de grupos extremistas. “Agora, se quiser se redimir pelos danos que causou, o gigante social deve ajudar os líderes democraticamente eleitos a contrabalançar a multidão digital e fomentar o debate construtivo”, recomenda Filloux. “Talvez já seja tarde demais para Emmanuel Macron, mas não faltam democracias ameaçadas pelas forças das trevas do extremismo para ajudar”.

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