Revista "Time" homenageia o jornalismo e elege repórteres e jornal como “Pessoas do Ano” Reprodução

Revista "Time" homenageia o jornalismo e elege repórteres e jornal como “Pessoas do Ano”

A revista norte-americana "Time" escolheu jornalistas perseguidos e um jornal — chamados de "guardiões — como "Pessoas do Ano". Em um período no qual a liberdade de imprensa esteve ameaçada não apenas em regimes autoritários, mas também em democracias, incluindo os Estados Unidos, a publicação dedicou capas para quatro casos de violação da liberdade de imprensa, ressaltando que a independência dos jornalistas é o que distingue a democracia da tirania.

A distinção foi concedida aos jornalistas Jamal Khashoggi, morto em outubro, Maria Ressa, editora do site de notícias filipino Rappler, e Wa Lone e Kyaw Soe Oo, da agência Reuters. Também foi agraciado o jornal Capital Gazette, de Annapolis (EUA). O grupo recebeu da revista o nome de “Os guardiães e a guerra pela verdade".

“Conforme olhamos para as escolhas, ficou claro que manipulação e abuso da verdade são realmente o fio condutor em muitas das grandes histórias deste ano”, disse Edward Felsenthal, editor-executivo da "Time", conforme relato do jornal Folha de S.Paulo. Ao explicar a decisão, ele escreveu que os quatro jornalistas e o jornal são representantes de “uma luta ampla de tantos outros no mundo — até 10 de dezembro, ao menos 52 jornalistas haviam sido assassinados em 2018 — que arriscam tudo para contar a história dos nossos tempos.”

Ousadia para revelar a verdade

Khashoggi, jornalista saudita que escrevia para o jornal norte-americano The Washington Post, foi assassinado em outubro dentro do consulado de Riad em Istambul (Turquia) por integrantes do alto escalão do governo. A inteligência norte-americana, informa O Globo, apontou ter provas de que o príncipe herdeiro saudita, Mohammed Bin Salman, ordenou o crime, mas os investigadores do país e o presidente norte-americano, Donald Trump, o eximiram da culpa e defenderam manter sem rusgas a relação diplomática e econômica entre os dois Estados.

"O homem corpulento com o cavanhaque cinzento e o comportamento gentil ousou discordar do governo de seu país. Ele disse ao mundo a verdade sobre sua brutalidade em relação àqueles que falariam. E ele foi assassinado por isso", diz o primeiro parágrafo da reportagem, em referência a Khashoggi. Na visão da "Time", o assassinato "desnudou a verdadeira natureza de um príncipe sorridente, a absoluta ausência de moralidade na aliança entre Estados Unidos e Arábia Saudita e a centralidade da questão sobre a qual o saudita foi morto".

Tal independência, diz a revista norte-americana, não é pequena. “Marca a distinção entre tirania e democracia. E em um mundo em que autoritários em ascensão avançaram obscurecendo a diferença, houve uma clareza no espetáculo da fúria de um tirano visitado por um homem armado apenas com uma caneta. Porque os homens fortes do mundo só parecem fortes. Todos os déspotas vivem com medo do seu povo. Para ver a força genuína, olhe para os espaços onde os indivíduos ousam descrever o que está acontecendo na frente deles", escreveu a publicação, que elege a "Pessoa do Ano" desde 1927.

“É a primeira vez que escolhemos alguém que não está mais vivo como personalidade do ano, mas é também muito raro que a influência de uma pessoa cresça tão imensamente após a morte”, afirmou Felsenthal, da Time, segundo a Folha de S.Paulo.

Citação à jornalista brasileira

A jornalista Maria Ressa, de 55 anos, dirige o site Rappler nas Filipinas sob ataques de mídias sociais e do populista presidente Rodrigo Duterte. O veículo foi responsável por descrever a violenta guerra contra as drogas e os assassinatos das forças de segurança de Duterte, que vitimaram cerca de 12 mil pessoas, segundo a ONG Human Rights Watch. A "Time" destaca que o governo agora se recusa a credenciar os jornalistas do Rappler para cobri-lo e ainda acusou o site de fraude fiscal, em alegações que podem resultar em dez anos de prisão para Maria.

Os repórteres da agência Reuters, Kyaw Soe Oo e Wa Lone, foram submetidos à prisão durante o trabalho em Myanmar, permanecem separados de suas famílias julgados por terem desafiado as divisões étnicas do país. Os jornalistas expuseram o assassinato de dez membros da perseguida minoria muçulmana rohingya e foram condenados a sete anos de cadeia. Já os assassinos foram sentenciados a dez anos de reclusão.

Em Anápolis, nos Estados Unidos, a equipe do diário Capital Gazette se mobilizou para preparar a edição do dia seguinte a um ataque armado que matou quatro jornalistas e um assistente de vendas. O atirador foi detido e queria “vingança” contra o veículo, segundo policiais. Ele se chama Jarrod Ramos, 38, e processou a publicação em 2012 por causa de um artigo sobre um processo de assédio contra ele. Nem o colunista, nem o editor da história sobre o caso trabalham mais na Gazette. A “Time” destacou o fortalecimento dos laços da comunidade local.

A revista dos Estados Unidos mencionou a jornalista brasileira Patricia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, como exemplo de perseguição à imprensa, depois de ter publicado que apoiadores do presidente eleito Jair Bolsonaro impulsionaram disparos de conteúdos no WhatsApp, muitos deles marcados por desinformação, durante a eleição deste ano. A segunda colocação da distinção da Times ficou com o presidente Donald Trump, enquanto o terceiro lugar foi do procurador especial Robert Mueller, que investiga uma possível interferência russa nas eleições presidenciais de 2016.

Leia mais em:
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/12/saudita-morto-reporteres-investigativos-e-jornal-atacado-sao-pessoas-do-ano-da-time.shtml

https://oglobo.globo.com/mundo/revista-time-elege-khashoggi-outros-jornalistas-perseguidos-como-pessoa-do-ano-23296541