Repressão do chavismo leva último jornal nacional da Venezuela a deixar de circular em papel Reprodução

Repressão do chavismo leva último jornal nacional da Venezuela a deixar de circular em papel

Após 75 anos de circulação, a edição impressa do diário El Nacional, da Venezuela, foi distribuída pela última vez nesta sexta-feira (14). O último jornal venezuelano de abrangência nacional crítico ao chavismo passará a ser distribuído apenas na versão online. A situação, segundo a publicação, é resultado da repressão imposta pelo governo de Nicolás Maduro, que impede, por exemplo, acesso a papel-jornal, cuja venda tem controle estatal.    

“Conseguiram silenciar as rádios e as televisões, e fizeram desaparecer os meios impressos independentes, transformando-os em plataformas para a internet. Éramos o último jornal nacional que ainda mantinha sua edição impressa”, afirmou o jornalista Miguel Henrique Otero, executivo-chefe do El Nacional que está no exílio, ao diário espanhol ABC, informou o jornal O Globo. A repressão aos veículos de mídia livres, disse, completa o perfil de “uma ditadura pura e dura”, na qual não há divisão de poderes ou liberdade de expressão.

O jornalista afirmou, segundo o diário O Estado de S.Paulo, que o chavismo usou outros meios para intimidar a publicação e seus jornalistas, incluindo a ação de milícias armadas, que diversas vezes agrediram funcionários do Nacional. Otero listou também como intimidação multas impostas pela Justiça e a pressão do chavismo sobre anunciantes privados, que tinha o objetivo de asfixiar financeiramente a empresa.

Com isso, a receita com publicidade caiu. Neste ano, o jornal tinha uma tiragem que não superava 10 mil exemplares em uma edição que caiu de 72 páginas para apenas 16. No último mês, o veículo já tinha deixado de circular aos sábados e às segundas-feiras, não encontrava mais anunciantes e já não conseguia pagar salários. “Fomos perseguidos por 15 anos. Duramos mais que os outros porque contamos com a solidariedade de jornais latino-americanos para que continuássemos a imprimir o jornal, mas no fim não fomos capazes de resistir”, lamentou Otero, que trocou a Venezuela pela Espanha em 2015, pouco depois de ser acusado de difamar o governo.

Em editorial publicado na edição desta sexta-feira, o jornal garante que a suspensão da edição escrita não será “prolongada nem definitiva”. E promete “não abandonar o campo de batalha nem bater em retirada” e tampouco “jamais ceder espaço aos que desafiam e sepultam os direitos humanos nem muito menos aos que se dedicam a exportar rumo ao exílio um povo exausto, afogado em mentiras e promessas cruelmente imaginadas, a milhões de crianças e que se expropriou o futuro”.

A redação do El Nacional, conforme O Estado de S.Paulo, está cheia de cadeiras e mesas vazias. Os jornalistas que restaram sofrem com a falta de internet, ocasionalmente cortada pelo governo, e com a incapacidade da empresa de repor as perdas salariais causadas pela inflação. Um dos últimos reajustes do salário mínimo anunciado pelo governo, em setembro, previa um aumento de 3.600%, subsidiado em parte pelo chavismo. O Nacional não aceitou por temer que o benefício fosse vinculado a uma mudança na linha editorial do jornal.

Com isso, todos os salários da empresa foram reduzidos. “Do repórter ao diretor, todos ganham a mesma coisa”, diz o vice-diretor de redação Argenis Martínez. “Todo mundo aqui ganha o salário mínimo. É bem comunista”, ironizou. Na Venezuela de Maduro, o salário mínimo compra apenas 8% da cesta básica mensal. 

A ONG Espaço Público, que trabalha pela liberdade de imprensa, estima que, desde que Maduro assumiu o poder, mais de 50% dos jornais fecharam. Nos últimos dois anos, 52 estações de rádio saíram do ar e canais estrangeiros e correspondentes internacionais foram expulsos do país.  A saída encontrada por muitos jornalistas foi fundar novos veículos online focados em investigação. O site Armando.info foi premiado internacionalmente por denunciar esquemas de corrupção. Seus fundadores, no entanto, tiveram de fugir da Venezuela. 

Leia mais em:

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,ultimo-jornal-critico-ao-chavismo-deixa-de-ser-impresso-na-venezuela,70002645505

https://oglobo.globo.com/mundo/pressao-chavista-leva-el-nacional-ultimo-jornal-impresso-da-venezuela-deixar-de-circular-23305027

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/12/ultimo-jornal-impresso-nacional-da-venezuela-el-nacional-deixara-de-circular-nesta-sexta.shtml