Brooke Binkowski, ex-editora no Snopes Brooke Binkowski, ex-editora no Snopes / Reprodução/The Guardian

Verificadores dizem que Facebook não leva fact-checking a sério e pedem fim da parceria

Propagandeada como uma de suas principais e mais eficazes reações à disseminação de desinformação em seu site, a parceria do Facebook com organizações de jornalistas verificadores de fato tem sido criticada por integrantes e ex-integrantes do projeto. Entrevistados pelo jornal britânico The Guardian, alguns desses profissionais disseram que a colaboração produziu resultados mínimos e que perderam a confiança no Facebook. A empresa, disseram, recusou-se repetidamente a divulgar dados significativos sobre os impactos de seu trabalho, o que seria motivo suficiente para romper o acordo. "Eles não estão levando nada a sério. Estão mais interessados em parecer bem e passar a responsabilidade adiante. Eles claramente não se importam [com as ‘fake news’], disse Brooke Binkowski, ex-editora no Snopes, um dos sites de verificação de fatos parceiros do Facebook.

A jornalista afirmou que o Facebook “basicamente” usou os verificadores para contornar sua a crise de relações públicas. Outros verificadores afirmaram que a contratação de uma empresa de marketing, a Definers Public, para desacreditar críticos e concorrentes, alimentou o mesmo tipo de propaganda que os verificadores de fatos regularmente desmascaram, o que seria ainda mais determinante para o término da parceria. O Facebook começou a construir suas parcerias com as agências de notícias após a eleição presidencial de 2016, durante a qual histórias falsas e propaganda política atingiram centenas de milhões de usuários na plataforma. Atualmente, a rede social tem mais de 40 parceiros de mídia em todo o mundo, incluindo a Associated Press, PolitiFact e o Weekly Standard, e defende que as falsas notícias na plataforma estão "tendendo para baixo".

"Por que devemos confiar no Facebook quando ele está empurrando os mesmos rumores de que seus próprios verificadores de fatos chamam de notícias falsas?", rebateu um verificador de fatos da rede social ao The Guardian. "Trabalhar com o Facebook nos faz parecer mal", acrescentou o jornalista, que defendeu o fim da parceria. Binkowski, que deixou a Snopes no início deste ano e agora administra seu próprio site de verificação de fatos, disse que a parceria Facebook-Snopes rapidamente se tornou contraproducente. Durante as primeiras conversas com o Facebook, a jornalista disse que tentou levantar preocupações sobre o uso indevido da plataforma no exterior, como a explosão do discurso de ódio e desinformação durante a crise Rohingya em Mianmar e outras formas de propaganda violenta. "Eu estava trazendo a questão de Mianmar de novo e de novo", disse. "Eles eram absolutamente resistentes", lamentou.

“Lista suja”

Em Mianmar, o Facebook está, ao lado de 48 empresas de diversos países, entre eles Estados Unidos, Reino Unido, França, Suíça e China, citadas em uma “lista suja” de corporações acusadas de envolvimento em violações ambientais e direitos humanos ou de fazer negócios com militares do país, que é acusado de genocídio. A rede social está na lista porque "permitia consistentemente que sua plataforma fosse usada para incitar o ódio e a violência contra minorias na Birmânia, em particular a minoria muçulmana Rohingya e os muçulmanos em geral". Recente missão da ONU em Mianmar identificou especificamente que a empresa de mídia social desempenha um papel em aumentar ainda mais as tensões étnicas. Em novembro, um relatório independente encomendado pelo Facebook concluiu que, em Mianmar, “o Facebook se tornou um meio para aqueles que buscam espalhar o ódio e causar danos, e as postagens estão ligadas à violência offline”.

Depois de admitir ter responsabilidade no problema e eliminar páginas propagadoras de ódio, a redes social, entretanto, continua a abrigar páginas semelhantes distribuindo o mesmo conteúdo tóxico. "Acredito fortemente que eles estão espalhando notícias falsas em nome de potências estrangeiras hostis e governos autoritários como parte de seu modelo de negócios", disse Binkowski. Um porta-voz do Facebook se recusou a comentar se os anunciantes influenciaram a checagem de fatos, dizendo em um e-mail: "A principal maneira de revelar notícias potencialmente falsas a verificadores de fatos de terceiros é via aprendizado de máquina".

Potencial para abuso

O Facebook aparentemente repete na checagem de dados o mesmo princípio de todo o seu modelo de negócios. Ao contrário do que prega Mark Zuckerberg e seus executivos, diz o cientista de dados e professor na Universidade Standford Michal Kosinski, o Facebook divulga fatos sobre seus usuários aos anunciantes, em troca de dinheiro “Eu chamaria isso de ‘vender dados’”, diz. “O Facebook alegando que não está vendendo dados do usuário é como um bar dando um Martini grátis com um pacote de amendoim ao custo de US$ 12 e, em seguida, afirmar que não está vendendo bebidas”, compara.

O analista alerta que o potencial disso para o abuso é óbvio. Para resolver esse problema, afirma, é preciso oferecer aos usuários transparência e controle. Antes de serem direcionados para o site de um anunciante, por exemplo, os usuários devem saber quais de suas características foram usadas para segmentá-los. Eles também devem ser avisados, afirma de que, se continuarem, esses traços serão revelados ao anunciante. "Não se pode confiar no Facebook para corrigir esse problema em si. Você confiaria nas alegações das grandes empresas de tabaco sobre o câncer de pulmão?”, adverte.

Leia mais em:

https://www.nytimes.com/2018/12/12/opinion/facebook-data-privacy-advertising.html?utm_campaign=Newsletters&utm_source=sendgrid&utm_medium=email

https://www.theguardian.com/technology/2018/dec/13/they-dont-care-facebook-fact-checking-in-disarray-as-journalists-push-to-cut-ties

https://www.theguardian.com/world/2018/dec/12/facebook-among-firms-named-on-myanmar-human-rights-dirty-list