Idosos foram os principais vetores da multiplicação de desinformação nas redes sociais em 2016, diz pesquisa Reprodução/Universidades de Nova York e Princeton

Idosos foram os principais vetores da multiplicação de desinformação nas redes sociais em 2016, diz pesquisa

Desde que, em 2016, ficou evidente a atuação de grupos organizados com base em uma verdadeira indústria de conteúdos digitais falsos com o objetivo de manipular grandes debates políticos – naquele ano, as eleições dos Estados Unidos e o referendo do Brexit, no Reino Unido –, notícias falsas, boatos, informações desvirtuadas e discurso de ódio se multiplicaram nas redes sociais em todo o mundo, em clara ameaça às democracias. Para quem combate essa perigosa aberração, como é o caso do jornalismo, o conhecimento sobre como a desinformação se move e evolui é fundamental. É o caso do detalhado estudo norte-americano divulgado nesta quinta-feira (10), que revela o quão era limitado em 2016 o compartilhamento de falsidades – e, ao mesmo tempo, já tão prejudicial – e quem mais espalhava a mentira: pessoas com idades acimas de 65 anos. 

A pesquisa, publicada na quarta-feira (10) na revista Science Advances e realizada por cientistas das universidades de Nova York e Princeton, dos Estados Unidos, indica que, em 2016, as pessoas acima de 65 anos que mais compartilharam notícias falsas espalharam as falsidades sem qualquer outra influência marcante, como a ideológica. A pesquisa, com 1,3 mil pessoas (a partir de um grupo original maior, de 3.500 usuários e não usuários do Facebook) que aceitaram dividir suas informações antes e depois da eleição de 2016 nos Estados Unidos, mostra que, no geral, apenas 8,5% dos pesquisados compartilharam notícias falsas via Facebook no ano em que Donald Trump foi eleito. Apenas 3% das pessoas de 18 a 29 anos propagaram inverdades, em comparação com 11% das pessoas com mais de 65 anos.

“Quando mencionamos a idade, muitas pessoas dizem: 'oh sim, isso é óbvio'”, disse o co-autor do estudo Andrew Guess, cientista político da Universidade de Princeton, ao The Verge. “O impressionante é que o relacionamento se mantém mesmo quando você controla a filiação partidária ou a ideologia. Não se trata apenas de impulsionamentos por pessoas mais velhas e mais conservadoras”, disse Guess. Se os idosos têm mais probabilidade de compartilhar notícias falsas do que os mais jovens, destacou, há implicações importantes na forma como projetaremos intervenções para reduzir a disseminação de notícias falsas.

Existem também dois pontos importantes que devem ser considerados aqui. Um deles é o fato de várias pesquisas atestarem que o público do Facebook vem envelhecendo rapidamente nos últimos anos, o que poderia sugerir a presença de um grupo maior de usuários compartilhando desinformação. A parcela de norte-americanos mais velhos que usam a rede social dobrou desde agosto de 2012, quando apenas 20% pessoas com 65 anos ou mais disseram ao Pew Research Center que estavam no Facebook.

Por outro lado, como disseram os autores da pesquisa em artigo no jornal The Washington Post, muita coisa aconteceu no cenário online e de mídia desde 2016. “Nossos resultados enfocam o comportamento da mídia social de mais de dois anos atrás. No meio online, isso é praticamente uma eternidade”, escreveram. Os pesquisadores também não têm como comprovar, com base na pesquisa, se o habito de compartilhar notícias falsas é da geração nascida antes de 1950 ou uma prática adquirida pelas pessoas ao envelhecerem, por uma série de motivos inerentes à idade mais avançada.

Analfabetismo digital impulsiona mentiras

O estudo não chegou a uma conclusão sobre por que os usuários mais velhos são mais propensos a compartilhar fraudes, embora os pesquisadores apontem para duas possíveis teorias. A primeira é que as pessoas mais velhas, que vieram para a internet mais tarde, não possuem as habilidades de alfabetização digital dos mais jovens. A segunda é que as pessoas experimentam declínio cognitivo à medida que envelhecem, tornando-as mais propensas a cair em fraudes. Para os propagadores de mentiras na web, essa mesma lógica é aplicada para enganar outros grupos, de diferentes faixas etárias, o que pode ser feito a partir da sofisticação do engodo, assim como fazem os golpistas há séculos.

Independentemente da idade, a lacuna de alfabetização digital tem sido atribuída à disposição dos usuários no compartilhamento de fraudes. Ocorre que determinar se uma pessoa é ou não alfabetizada digitalmente permanece uma questão em aberto. Mas pelo menos parte da questão parece clara: notícias falsas se espalham rapidamente no Facebook, em parte porque os artigos de notícias geralmente parecem idênticos no feed de notícias (o que, em tese, confunde mais os usuários idosos e os de baixa alfabetização digital, sejam eles publicados pelo The New York Times ou em uma fazenda de notícias falsas que fatura com cliques). Outro comportamento mais recente, e bem explorado pelos grupos interessados em propagar inverdades, é a propensão das pessoas a compartilhar falsidades caso tenham sido enviadas por amigos ou familiares de confiança.

O estudo divulgado nesta semana também descobriu que muito mais republicanos (18%) compartilhavam links para sites de notícias falsas do que os democratas (4%). Mas os pesquisadores alertam que isso pode ser simplesmente resultado do fato de que a maioria das notícias falsas produzidas durante a campanha foram favoráveis a Donald Trump ou tentavam desacreditar a democrata Hillary Clinton.

“Apesar do amplo interesse no fenômeno da desinformação, sabemos muito pouco sobre quem realmente compartilha notícias falsas”, admite Joshua Tucker, professor de política na Universidade de Nova York. “Este estudo é um primeiro passo para responder a essa pergunta. “Talvez de forma mais significativa, descobrimos que compartilhar esse tipo de conteúdo no Facebook era uma atividade relativamente rara durante a campanha presidencial de 2016.” De lá para cá, independente da faixa etária, os dados mostram que a prática passou a ser bem mais comum, como se viu na eleição presidencial no Brasil.

Leia mais em:

http://advances.sciencemag.org/content/5/1/eaau4586

https://www.pressgazette.co.uk/fake-news-not-big-factor-in-donald-trumps-presidential-win-research-suggests/?utm_medium=email&utm_campaign=2019-01-10&utm_source=Press+Gazette+Daily+new+layout

http://www.niemanlab.org/2019/01/old-people-are-most-likely-to-share-fake-news-on-facebook-theyre-also-facebooks-fastest-growing-u-s-audience/

https://www.theverge.com/2019/1/9/18174631/old-people-fake-news-facebook-share-nyu-princeton