Grupo de mídia controlado por fundo de investimentos faz oferta para comprar Gannett e gera preocupação nos EUA Reprodução

Grupo de mídia controlado por fundo de investimentos faz oferta para comprar Gannett e gera preocupação nos EUA

O grupo de jornais norte-americanos MNG Enterprises Inc., mais conhecido por Digital First Media, fez uma oferta de aquisição da empresa de comunicação Gannett Co., editora do diário USA Today e de importantes jornais locais como o Arizona Republic, Detroit Free Press e Iowa's Des Moines, em um valor próximo a US$ 1,36 bilhão. A oferta, revelada pelo The Wall Street Journal, gerou preocupação no mercado jornalístico dos Estados Unidos. Isso porque o principal acionista da Digital First Media é o fundo de investimento livre (hedge fund) Alden Global Capital, que no controle da empresa de mídia é criticado por esvaziar redações norte-americanas em busca de cortes de custos, um "destruidor de jornais", propenso a demissões "selvagens", bem como "um dos mais cruéis dos garimpeiros corporativos, aparentemente decididos a destruir o jornalismo local", segundo o The New York Times.

A Digital First Media, que possui cerca de 200 publicações em todo o país, ofereceu aos acionistas da Gannett US$ 12 por ação para comprar a empresa de imediato. A proposta representa um ágio de 23% sobre o preço de fechamento da ação da Gannett na última sexta-feira (11), de US$ 9,75. A oferta é considerada agressiva, com a Digital First Media forçando a Gannett a entrar em discussões imediatas sobre uma combinação estratégica e a contratar um banco de investimento, de acordo com uma carta dirigida ao conselho da Gannett que a Digital First Media – detentora de 7,5% da empresa que edita USA Today – tornou pública.

Na carta, a Digital First Media observou que a Gannett perdeu mais de 40% de seu valor nos últimos dois anos e meio e seus líderes "não demonstraram que são capazes de administrar efetivamente a empresa” como uma companhia de capital aberto. Durante esse período, conforme o documento, a Gannett sofreu com uma série de decisões destruidoras de valor tomadas por uma equipe de liderança desfocada – pagando demais por uma série de acordos digitais “não-essenciais” e perseguindo "uma malfadada tentativa" de assumir a Tribune Publishing Company (Tronc).

Tudo isso, diz o texto, enquanto a receita principal da Gannett, o EBITDA, as margens e o fluxo de caixa livre continuam caindo. Com o CEO da Gannett (Robert J. Dickey, em processo de aposentadoria), que deve sair em maio, e seu principal executivo digital deixando a empresa no final deste mês, continua o texto, há uma lacuna de liderança ainda maior. “Os acionistas da Gannett não podem ficar sentados e ver o valor adicional se desgastar enquanto a diretoria busca uma estratégia e um líder, especialmente quando há uma oportunidade de maximizar o valor agora”, ressalta a carta, assinada pelo presidente da Digital First Media (ou MNG), Joseph Fuchs.

Abutres

Jon Allsop, do Columbia Journalism Review, lembrou que a Digital First Media e a Alden ganharam as manchetes em abril de 2018, depois que o jornal The Denver Post publicou um editorial criticando-os como “abutres” ao lado de uma impressionante foto de funcionários, feita em 2013, com dezenas deles, agora demitidos, apagados. “Dado esse contexto bruto, o texto do The Wall Street Journal provocou preocupação imediata entre os repórteres de mídia e os observadores de notícias locais, muitos dos quais notaram que os títulos da Gannett em todo o país estão em um estado triste o suficiente sem a perspectiva de cortes adicionais”, escreveu Allsop.

Joshua Benton, do Nieman Lab, acrescentou que a Digital First Media é o pior proprietário de jornais na América e eles farão o melhor para tirar sangue da pedra já desidratada da Gannett. A empresa possui 109 jornais nos Estados Unidos e enfrenta nos últimos anos queda nas receitas de assinatura e de publicidade de jornais. As receitas nos primeiros nove meses de 2018 caíram pouco mais de 5% em relação ao ano anterior, para US$ 2,2 bilhões. Os lucros subiram para US $ 29 milhões, de US$ 20 milhões no ano anterior.

A editora do USA Today, sediada em McLean, Virgínia, informou que seu conselho irá "rever cuidadosamente a proposta recebida para determinar o curso de ação que acredita ser do melhor interesse da empresa e dos acionistas da Gannett". Não está claro se a empresa estaria interessada em participar de qualquer conversa, mas pessoas próximas à alta gerência de companhia disseram que era improvável.

Allsop, do Columbia Journalism Review, disse que, mesmo no caso de a investida da Digital First Media não der resultado, trata-se de um lembrete importante do poder dos "hedge funds" sobre as notícias locais. Se a oferta for bem-sucedida, prosseguiu, os jornalistas – e leitores – em todo os Estados Unidos devem se preparar para mais uma rodada de cortes em jornais. Em 16 meses encerrados em abril do ano passado, segundo o Pew Research Center, nove dos 16 jornais com circulação de 250 mil ou mais (56%) registraram demissões.

Leia mais em:

https://www.nytimes.com/2019/01/14/business/dealbook/gannett-takeover-offer-mng.html

https://www.ft.com/content/4faf1128-17f2-11e9-b93e-f4351a53f1c3

https://www.cjr.org/the_media_today/digital_first_bid_gannett.php

https://www.wsj.com/articles/hedge-fund-backed-media-group-prepares-bid-for-gannett-11547427720?utm_source=Pew+Research+Center&utm_campaign=e7a4cfa856-EMAIL_CAMPAIGN_2019_01_14_03_06&utm_medium=email&utm_term=0_3e953b9b70-e7a4cfa856-399348773

https://www.businessinsider.com/digital-first-media-is-planning-a-play-to-buy-gannett-wsj-2019-1

http://www.niemanlab.org/2019/01/newsonomics-let-the-2019-consolidation-games-begin-first-up-alden-seeks-to-swallow-gannett/