James Ball, da Universidade Columbia James Ball, da Universidade Columbia / Reprodução/ Amazon/ “Post-Truth: How Bullshit Conquered The World”

Investimento de US$ 600 milhões do duopólio Google-Facebook em projetos de veículos de comunicação faz mal ao jornalismo, diz especialista

Com o anúncio feito pelo Facebook nesta terça-feira (15), o duopólio formado pela rede social de Mark Zuckerberg e o gigante de buscas Google está comprometido a investir nos próximos dois a três anos um montante de pelo menos US$ 600 milhões para financiar projetos jornalísticos que se sustentem com base nas assinaturas digitais. Mas os recursos destinados pelo duopólio tecnológico podem realmente ser positivos ao jornalismo? O jornalista e escritor James Ball, da Universidade Columbia, diz que não.

“Amarrar o futuro do jornalismo a empresas de tecnologia ou de mídia social deixa os dois ainda mais próximos, tornando um relacionamento já perigosamente codependente em algo ainda menos saudável – e potencialmente comprometendo o jornalismo aos olhos dos leitores”, alerta Ball em artigo publicado no site Columbia Journalism Review. O financiamento das empresas do Vale do Silício ao jornalismo, escreveu, também pode favorecer um cenário no qual as empresas de tecnologia estariam menos pressionadas  para contribuir com as sociedades e infraestruturas da qual dependem, além de não compensar os danos que causam.

A cifra destinada pelas duas gigante de tecnologia é fruto da pressão às empresas de tecnologia cujos modelos de negócios erodiram as receitas da mídia com publicidade digital, estabeleceram a prática do faturamento por cliques e se transformaram nos principais vetores da praga da desinformação e do discurso de ódio na internet. Um modelo que aniquila aquele seria o principal algoz das falsidades na web que ameaçam destruir democracias: o jornalismo.

“Uma 'taxa de mídia social' é uma tentativa de evitar perguntas difíceis sobre como financiamos o jornalismo de interesse público, uma maneira de pedir ao governo para intervir e financiar o jornalismo sem ter a conversa difícil sobre o que isso significa e como funciona”, lamentou Ball, autor do livro “Post-Truth: How Bullshit Conquered The World”. Ele defendeu a necessidade de manter e aprimorar a tecnologia, com as grandes empresas prestando contas dos seus negócios. Ao mesmo, continuou, é preciso encontrar um modelo sustentável para o jornalismo de qualidade. “Para conseguir isso, nós realmente deveríamos tentar manter essas conversas separadas”, defendeu.

Veículos locais

Ao anunciar o investimento, o Facebook disse que se trata de uma expansão significativa de um plano para ajudar redações a criar e manter modelos de negócios sustentáveis. Os valores anunciados agora, ao contrário dos demais feitos anteriormente, não estão ligados a produtos do Facebook. “Continuaremos a combater notícias falsas (fake news), desinformação e notícias de baixa qualidade no Facebook”, disse em comunicado Campbell Brown, vice-presidente de parcerias de notícias globais do Facebook. “Também temos uma oportunidade, e a responsabilidade, de ajudar veículos de imprensa locais a crescer e prosperar”.

A primeira rodada de investimentos, segundo o jornal O Estado de S.Paulo, será feita nos Estados Unidos e concentrará recursos para o desenvolvimento de jornais regionais; pesquisas sobre maneiras de usar a tecnologia para apurar reportagens, além da criação de novos produtos. Haverá também um programa de incentivo para formação de jornalistas dentro das comunidades – serão mil profissionais inseridos em redações nos próximos cinco anos. Entre os beneficiários, estão centros de pesquisa e desenvolvimento, como o Pulitzer Center o Knight Lenfest Local News Transformation Fund, ou o Local Media Consortium, uma aliança de 80 empresas jornalísticas que representa 2,2 mil veículos. Resta saber se esse movimento não deixará os jornais locais reféns das plataformas como Facebook e Google.

Bilhões de dólares apenas em um lado da balança

Facebook e Google comandam cerca de 58% do mercado de anúncios digitais, direcionando enormes quantidades de dólares para suas plataformas, ressaltou o diário The Washington Post, mesmo enfrentando intenso escrutínio sobre o papel de suas plataformas na disseminação de desinformação. Enquanto isso, lembrou o jornal norte-americano, a receita de publicidade restrita e uma abundância de conteúdo de notícias e entretenimento gratuitos na web, distribuídos pelo duopólio, o emprego nas redações de jornais dos Estados Unidos diminuiu quase a metade desde 2008. As notícias locais foram especialmente atingidas pelo colapso do ecossistema de mídia, com menos clientes dispostos a gastar dólares em assinaturas.

Peter Kafka, do site especializado em comunicação e tecnologia, reagiu de forma divertida, menos pessimista, mas fez uma advertência. Disse que sempre vai comemorar quando Facebook e Google estiverem obrigados a doar ao jornalismo alguma parcela dos mais de US$ 50 bilhões que faturam por ano. E salientou: “Se você for otimista, argumentará que transferir as publicações de um modelo com base em anúncios para outro, suportado por seus consumidores [assinantes], é a melhor maneira de os publishers sobreviverem. Se você é um cínico, vai argumentar que, se o negócio de assinatura de notícias fosse realmente promissor, o Facebook e o Google o perseguiriam. Ambas as respostas podem ser verdadeiras!”

Leia mais em:

https://www.recode.net/2019/1/15/18182973/facebook-journalism-300-million-google-advertising-subscriptions

https://www.cjr.org/opinion/no-facebook-shouldnt-fund-journalism.php

https://www.washingtonpost.com/technology/2019/01/15/facebook-pledges-million-local-journalism-projects/?noredirect=on&utm_term=.44188f302446&wpisrc=nl_tech&wpmm=1

https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,facebook-investira-us-300-milhoes-em-jornalismo-local,70002680292