Agitação na indústria de mídia sinaliza para um 2019 de muitas fusões e aquisições Reprodução

Agitação na indústria de mídia sinaliza para um 2019 de muitas fusões e aquisições

Em qualquer mercado as pressões financeiras costumam atrair os players conhecidos como tubarões. Mas no mar revolto da indústria de mídia neste começo de 2019, disse nesta sexta-feira (18) o editor-chefe de jornalismo digital do site Columbia Journalism Review, Mathew Ingram, “até mesmo tubarões estão sendo atacados por outros tubarões”. Ingram refere-se a especulações em relação a vários negócios envolvendo publicações do meio impresso e digital.

O caso mais emblemático é o da empresa de comunicação Gannett Co., editora do diário USA Today, diz Ingram, no site Columbia Journalism Review. Muitos veem na companhia o candidato perfeito para comprar outros players, como McClatchy ou Tribune Inc. (ex-Tronc). Há poucos dias a Gannett chegou a anunciar a possibilidade de adquirir os ativos da editora digital Gizmodo Media, da Univision.

Quase ao mesmo tempo, entretanto, o The Wall Street Journal noticiou que a Gannet recebeu uma oferta de aquisição do grupo de jornais norte-americanos MNG Enterprises Inc., mais conhecido por Digital First Media (DFM), em valor próximo a US$ 1,36 bilhão. A DFM é controlada pelo fundo de investimento livre (hedge fund) Alden Global Capital. Por isso, neste momento, a DFM nada ameaçadoramente tal qual os grandes tubarões brancos.

De acordo com o analista da indústria jornalística Ken Doctor, a DFM divulgou uma margem de lucro operacional de 17% no ano passado, muito maior do que a maioria das organizações de mídia. "A Alden Global Capital está ganhando muito dinheiro destruindo o jornalismo local", escreveu Doctor, especialista em mídias digitais do site Nieman Journalism Lab que participou do Congresso da Associação Nacional de Jornais (ANJ), em 2014, e prestou consultoria a associados da entidade. Jim Friedlich, diretor executivo do Instituto Lenfest, comparou a possível aquisição da Gannett pela DFM com uma "madeireira tentando comprar o parque nacional”.

Ingram, por sua vez, ressaltou que a Digital First Media, que possui cerca de 200 publicações, adquiriu de forma discreta 7,5% das ações da empresa que edita o USA Today, “como um prelúdio para o lançamento de uma oferta de aquisição”. Depois, em carta enviada nesta semana à diretoria da Gannett, a DFM avisou que pretende comprar a companhia a US$ 12 por ação.

Essa agitação toda tem motivado vários analistas a projetar um ano de muito negócios. Caso a Gannett saia do jogo envolvendo o Gizmodo, por exemplo, a porta estará aberta para outros interessados, diz Ingram. Entre eles, está Bryan Goldberg, o homem por trás da editora digital Bustle. No site Nieman Lab, ao comentar o possível negócio envolvendo a DFM e a Gannett, Ken Doctor assinalou: "Esta pode ser a primeira de uma série de fusões e aquisições [no setor] de jornais de 2019, mas definitivamente não será a última”.

Paga para ignorar a privacidade

Em outro texto no site Columbia Journalism Review, Mathew Ingram mostrou que hoje realmente estava disposto a entrar em um tanque de tubarões, mas muito bem armado. A presa neste caso foi o CEO da Apple, Tim Cook, que na última edição da revista Time fez um ensaio sobre a importância de garantir privacidade online das pessoas, em contraponto aos negócios de empresas como Facebook e Google. O executivo pediu uma abrangente legislação federal sobre privacidade.

Ingram disse que há muitas razões para concordar com Cook, “já que a internet e a coleta de dados se tornaram parte de quase tudo o que fazemos, e sabemos surpreendentemente pouco sobre como empresas como o Facebook usam esses dados”. Mas o jornalista destacou que executivo está à frente de um negócio cuja pedra angular não é a coleta e uso dados e, por isso, não tem interesse em vigiar as pessoas e seus comportamentos. “[A Apple] gera bilhões de dólares em lucro com a venda de hardware físico, como MacBooks e iPhones. Como não é basicamente um negócio de publicidade, não precisa se preocupar tanto com coisas como segmentação ou mineração de dados”, disse o jornalista.

Ingram, entretanto, alfinetou ainda mais a Apple. Embora a empresa talvez não se envolva diretamente na segmentação de anúncios ou na vigilância de usuários, disse, ela ainda se beneficia de maneira significativa com esses tipos de práticas. Isso ocorre, ressalta o jornalista, por meio de um contrato de quase US$ 9 bilhões com o Google para incluir a barra de ferramentas do gigante de buscas em produtos da Apple, como o navegador Safari. “As críticas de Cook sobre a privacidade digital seriam muito mais sinceras se ele admitisse que a Apple atualmente é bem paga para ignorar a privacidade de seus usuários”, afirmou Ingram.

Leia mais em:

https://www.cjr.org/the_media_today/dfm-gannett.php?utm_source=CJR+Daily+News&utm_campaign=7228993b58-EMAIL_CAMPAIGN_2018_10_31_05_02_COPY_04&utm_medium=email&utm_term=0_9c93f57676-7228993b58-174426941

 

https://www.cjr.org/the_new_gatekeepers/tim-cook-privacy-apple.php