Quanto mais digital for o mundo, mais necessário será o jornalismo, aponta pesquisa do Instituto Reuters Reprodução

Quanto mais digital for o mundo, mais necessário será o jornalismo, aponta pesquisa do Instituto Reuters

Trinta anos depois da invenção da internet (World Wide Web), o jornalismo profissional nunca foi tão importante para as sociedades do mundo, que vivem em um ambiente digital de múltiplas fontes e crescente desinformação. No entanto, a produção jornalística independente – sustentada em boa parte pelos jornais – está sob violenta pressão (econômica e política), o que ameaça a sua qualidade e, por consequência, sua relevância. Na medida em que a tecnologia cotidiana avança, essas tendências tendem a se aprofundar e, por isso, estão todos desafiados a quebrar esse ciclo, diz novo relatório do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo (RISJ, na sigla em inglês), da Universidade de Oxford.

O estudo detalha o atual cenário e alerta para o risco de um futuro sem jornalismo: o público dependerá cada vez mais de fontes de interesse próprio e rumores circulando online e offline, prejudicando o processo político, a iniciativa privada e a sociedade em geral. O relatório, do professor Rasmus Kleis Nielsen, diretor do RISJ, e Meera Selva, diretora do programa de bolsas do RISJ, esmiúça, a partir de várias pesquisas com base em evidências, a situação do jornalismo na atualidade. O estudo, apresentado na reunião deste ano do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, foi dividido em cinco tópicos que, dizem os pesquisadores, “todo mundo precisa saber sobre o futuro do jornalismo”:


1) Mudamos de um mundo onde as organizações de mídia eram guardiões da verdade sobre os fatos para o mundo de portais onde a mídia ainda cria a agenda de notícias, mas são as empresas de plataformas (como mecanismos de pesquisa, mídias sociais e agregadores de notícias) controlam o acesso ao público. Em 2018, dois terços dos usuários de notícias online pesquisados em 37 mercados diferentes em todo o mundo identificaram essas plataformas como sua principal maneira de acessar e encontrar notícias online. Entre os menores de 35 anos, três quartos dependiam principalmente de mídias sociais, mecanismos de busca e afins;


2) A hiperinformação manipulada por algoritmos das mídias sociais e mecanismos de busca online levam as pessoas a fontes cada vez mais diversificadas de informações. Há, é verdade, câmaras de eco (as bolhas de filtro), onde minorias altamente motivadas se alimentam de notícias e de comunidades que pensam da mesma forma. Mas a larga dimensão dada a esse fenômeno é equivocada. Estudos sobre mecanismos de pesquisa e uma ampla variedade de mídias sociais, incluindo Facebook, Twitter e YouTube, demonstram que as pessoas usam fontes de notícias mais diferentes e diversificadas, incluindo as que não buscam por vontade própria (as recomendadas);

3) O jornalismo está perdendo a batalha pela atenção das pessoas e, em alguns países, isso está associado à desconfiança do público em relação ao conteúdo jornalístico. Embora uma pequena minoria de fãs de notícias esteja extremamente interessada em notícias várias vezes ao dia, um número muito maior de pessoas acessa as notícias menos de uma vez por dia. Dados do Instituto Reuters com base em 37 mercados mostram que 17% acessam mais de cinco notícias por dia. Outros 48% dizem procurar informação noticiosa entre uma a cinco vezes ao dia, enquanto 35% estão desinteressadas e acessam notícias com frequência menor que uma vez por dia. A desconfiança agrava a situação em alguns países, como na Grécia e nos Estados Unidos, onde apenas 26% e 34% confiam na mídia, respectivamente. Por outro lado, 58% dos canadenses dizem que confiam na maioria das notícias produzidas por empresas jornalísticas, assim como metade da população alemã;

4) Os modelos de negócios que financiam as notícias estão em xeque, enfraquecendo o jornalismo profissional e deixando os meios de comunicação mais vulneráveis às pressões comerciais e políticas. Estima-se, por exemplo, que 90% das receitas dos publishers em todo o mundo continua vindo do meio impresso. As receitas digitais, em muitos casos, crescem apenas lentamente e, onde elas existem, a mídia de serviço público prestado pelo jornalismo está sob considerável pressão. A maioria das formas existentes de financiamento para o jornalismo profissional vai diminuir à medida que continuamos a nos mudar para um ambiente de mídia mais digital, onde empresas como Google e Facebook capturam a maior parte da publicidade, resultando em novos cortes de empregos nas redações dos jornais. O risco aqui não é simplesmente a redução e cobertura de temas importantes, mas também um negócio menos robusto de jornalismo, mais vulnerável à cooptação da mídia pelo Estado ou proprietários politicamente motivados e à pressão dos anunciantes;

5) As notícias são mais diversificadas do que nunca e o jornalismo qualificado, em muitos casos, está ainda melhor do que nunca, escrutinando desde os políticos mais poderosos até as maiores empresas privadas. Este jornalismo está mais independente, mais acessível, mais oportuno, mais informativo, mais interativo, mais engajado ao público. A mídia digital também permitiu que diferentes vozes marginalizadas fossem ouvidas e oferecessem acesso a uma gama muito maior de diferentes fontes e pontos de vista. Ao mesmo tempo, o corte de custos – como resultados do desequilíbrio do mercado, favorável a empresas de tecnologia, aumentou a pressão para produção de mais conteúdo em vários canais e um ciclo de notícias 24 horas por dia, sete dias por semana. Isso, em várias locais, levou a um grande volume de jornalismo superficial. Essa situação, em alguns países, é agravada pela hostilidade política cada vez mais aberta em relação ao jornalismo profissional independente. Nos piores casos, uma verdadeira guerra ao jornalismo.

Os pesquisadores enfatizam que essas cinco tendências não são importantes apenas para os jornalistas, mas também para o público que depende do jornalismo e para todos os que trabalham com jornalistas, desde políticos e ONGs até empresas privadas. “O jornalismo profissional independente pode informar o público, ajudar a combater a desinformação, conter demagogos populistas e contribuir para responsabilizar o poder público e privado. Mas a falta de relatos precisos, relevantes e imparciais, pode minar a confiança nas instituições, nos processos políticos e na tomada de decisões informadas, além de permitir que a corrupção e o abuso de poder floresçam”, destaca o relatório.

O estudo afirma ainda que os jornalistas e empresas de notícias precisam continuar a se adaptar à mídia digital, construindo uma profissão e um negócio adequados para o futuro. O relatório ressalta ainda a importância de “coletivamente proteger o direito dos jornalistas de relatar e liberdade de imprensa, reconhecendo que, no melhor dos casos, o jornalismo profissional independente cria valor público e serve ao público”.

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https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/our-research/more-important-less-robust-five-things-everybody-needs-know-about-future-journalism