Rodrigo Lopes Rodrigo Lopes / Divulgação

Entidades repudiam retenção e ameaças a repórter do jornal Zero Hora por parte do governo Maduro na Venezuela

Entidades ligadas ao jornalismo emitiram nota nesta segunda-feira (28) criticando a retenção do repórter Rodrigo Lopes, de Zero Hora, do Grupo RBS, na Venezuela. O jornalista foi mantido sem comunicação com o exterior durante duas horas, ameaçado e interrogado em uma unidade militar, em Caracas, enquanto cobria a crise que assola o governo de Nicolás Maduro.

Em nota conjunta, a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) protestaram com indignação contra a detenção de Lopes. “Trata-se de mais um episódio de ataque ao livre exercício do jornalismo, cometido pelo regime de Nicolás Maduro, que há muito abdicou da fachada de aparente democracia”, diz o comunicado. As entidades manifestaram solidariedade com o repórter e com o jornal Zero Hora, bem como com “todos os jornalistas venezuelanos e estrangeiros, que tentam fazer seu trabalho em meio às ameaças do regime bolivariano”. ANJ, ABERT e ANER destacaram ainda esperar que as autoridades brasileiras façam chegar ao governo venezuelano este protesto diante da violência cometida contra um cidadão e profissional brasileiro, em legítimo exercício de sua atividade.

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) também condenou a detenção temporária de Lopes. "[Trata-se de] prática abusiva do governo para intimidar e restringir a circulação de informação independente e de interesse público internacional", disse a presidente da entidade María Elvira Domínguez, diretora do diário colombiano El País de Cali. Ela responsabilizou o governo “pela segurança dos jornalistas” que procuram informar à opinião pública sobre a convulsionada situação que atravessa a Venezuela. "Ao impedir os jornalistas de buscar e divulgar informações, viola-se o direito dos cidadãos a estarem informados", completou. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) foi outra entidade a se posicionar contrária à retenção do brasileiro, "especialmente por não ser a primeira vez em que um profissional da imprensa brasileira no exercício da profissão é detido sem justificativa plausível por agentes venezuelanos".

Rodrigo Lopes, que trabalha no jornal Zero Hora há 22 anos e tem em seu currículo mais de 30 coberturas internacionais, foi retido e mantido incomunicável durante duas horas pelas forças do governo de Nicolás Maduro no Centro Estratégico de Seguridad y Protección de la Pátria, próximo ao Palácio Miraflores. O repórter teve o celular e o passaporte apreendidos durante o período em que ficou detido. Ao ser liberado, informou o jornal do Rio Grande do Sul, Lopes teve sua foto registrada e foi ameaçado: “Se te pegarmos novamente, tu vais ser preso e responderás processo segundo as leis venezuelanas”. Por questões de segurança, o repórter deixou a Venezuela e retornou ao Brasil.

Em relato publicado em Zero Hora, Lopes contou que cobria uma manifestação de apoiadores de Maduro próximo ao Palácio Miraflores, quando foi abordado por um homem não identificado. Ele arrancou o celular de suas mãos e começou a ver as imagens registradas no aparelho. Ao observar fotos e vídeos de um comício do líder da oposição Juan Guaidó, coberto pelo repórter no início da tarde, gritou: “Militante da oposição!” Lopes respondeu informando ser jornalista brasileiro. “Ah, brasileiro!”, ironizou o venezuelano, que conduziu o jornalista de forma coercitiva para dentro da área protegida por barreiras militares.

“Fui levado a um superior, um rapaz de cabelo curto, vestindo terno e gravata. Vários homens me cercaram. De camisa social vermelha como uniforme, observavam com desdém e viravam as costas”, relatou o repórter. No local, militares obrigaram o jornalista a permanecer sentado em uma sala sem comunicação com o exterior, quando chegou a sofrer ameaças de prisão e agressão. O repórter foi interrogado e teve de responder acerca da linha editorial do veículo para o qual trabalha. Lopes também teve o pedido de comunicação com a Embaixada do Brasil em Caracas negado três vezes. “Vamos te prender para saberes o que é bom. A imprensa brasileira chama nosso presidente de ditador”, disse um dos militares, segundo relato de Lopes.

Após o interrogatório, o repórter foi escoltado até fora da unidade. Recebeu seu celular, de onde nada foi apagado, e seu passaporte. Na saída, outro homem, dessa vez usando trajes civis lhe informou. "Agora, o senhor está fichado conosco, conhecemos tua cara e sabemos onde escreves". A RBS, em conjunto com o repórter, decidiu retirá-lo de Caracas, uma vez que não havia mais condições mínimas de segurança para atuação do profissional depois da detenção. Ele desembarcou no Brasil no domingo (27).

“[Me sinto] triste por ter abortado a cobertura de um fato que mobiliza o mundo. Revoltado por ter meu direito ao exercício do jornalismo independente cerceado. Mas, acima de tudo, indignado, porque, em última análise, quem perde com a censura é a sociedade. Foi o direito dos leitores de ZH de saberem o que está acontecendo na Venezuela que foi ceifado”, escreveu o jornalista em Zero Hora. 

O Grupo RBS, em comunicado à imprensa, reiterou sua defesa à liberdade de imprensa e repudia toda e qualquer forma de violência dirigida a jornalistas em atividade profissional.

Leia aqui a nota da ANJ, ABERT e ANER na íntegra

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https://gauchazh.clicrbs.com.br/mundo/noticia/2019/01/entidades-de-comunicacao-repudiam-retencao-e-ameacas-a-reporter-de-zh-na-venezuela-cjrgigbm000k801umujwwgqw2.html

https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/rodrigo-lopes/noticia/2019/01/reporter-de-zh-e-recluso-em-quartel-na-venezuela-veja-o-relato-cjrffw30z00xo01q9ergymlym.html