Startups investem em verificação humana para classificar a credibilidade da mídia em tentativa de novo modelo de negócio Reprodução/Wired

Startups investem em verificação humana para classificar a credibilidade da mídia em tentativa de novo modelo de negócio

Conquistar, manter e ampliar a confiança da audiência são prioridades para o sucesso do jornalismo profissional e qualificado no meio digital, onde a desinformação se multiplica e confunde a opinião pública. No meio online, o modelo de negócios e os algoritmos de empresas de tecnologia como Google e Facebook não têm, até aqui, facilitado a tarefa imposta aos veículos jornalísticos. Pelo contrário. Há, entretanto, startups propondo uma nova forma de comércio no qual o principal produto é a classificação da confiabilidade da mídia em navegadores da internet com base na avaliação humana, algo também feito por organizações sem fins lucrativos. Resta saber o quão positivo será a atuação destes “árbitros do jornalismo online”, como denominou o jornalista Will Oremus, da revista digital Slate.

O trabalho de classificação dos veículos de comunicação digital é o negócio da startup norte-americana NewsGuard, que recentemente fechou um acordo com a Microsoft para incorporar seu “ranking” no navegador Edge da gigante de tecnologia como uma configuração opcional (também está disponível no Chrome, do Google). A companhia, que emprega uma equipe de 25 pesquisadores humanos para avaliar os veículos de notícias, passou oito meses desenvolvendo “classificações de confiabilidade” para os principais veículos de notícias online e, na semana passada, chamou a atenção por um caso envolvendo publishers do Reino Unido.

O jornal The Guardian publicou, no último dia 23, uma reportagem contando que o Daily Mail Online, um dos sites de notícias e fofocas de celebridades mais lidos entre os britânicos, havia recebido da NewsGuard um rótulo vermelho, com um índice de confiabilidade de três entre nove pontos e o seguinte aviso: "Prossiga com cuidado: esse site geralmente não mantém os padrões básicos de precisão e responsabilidade.” Para usuários do Microsoft Edge com o recurso, a frase apareceu na própria página do popular site e ao lado de cada link dirigido – nos resultados de pesquisa do Google, feeds do Facebook ou Twitter.

A tarja (ou escudo) vermelha é uma de quatro classificações que a startup desenvolveu a partir de um conjunto de nove critérios padronizados para julgar cada publicação. O verde indica que a fonte de notícias "geralmente atende aos padrões básicos de precisão e responsabilidade". Links do YouTube e da Wikipédia, por exemplo, têm um escudo azul com a letra “i” no interior, o que significa uma plataforma que inclui conteúdo gerado pelo usuário e não-alterado. Links para publishers online relativamente novos, como o Trace e o Outline, recebem uma sinalização cinza com uma linha horizontal, o que significa que "ainda estão em processo de avaliação". Sites como Breitbart e RT.com estão marcados em vermelho e um ameaçador ponto de exclamação dentro, aplicado também ao Daily Mail Online.

Oremus, do Slate, contou que em agosto do ano passado um analista da startup norte-americana tentou contato com os editores do site britânico, por telefone e e-mail, fazendo perguntas sobre as políticas do veículo sobre manchetes enganosas, links de fontes e transparência editorial. A NewsGuard não obteve resposta. Mas depois de ver o texto do The Guardian, a equipe do Daily Mail Online procurou a startup.

"Apenas recentemente nos tornamos conscientes da NewsGuard e estamos em negociações com eles para que essa classificação notoriamente equivocada seja resolvida o mais rápido possível", disse um porta-voz Daily Mail Online. Por enquanto, porém, a startup mantém suas classificações. Se o ‘Mail’ quiser uma melhor, terá de aprimorar alguns de seus padrões, disse Steven Brill, CEO e cofundador da empresa, ao lado do ex-editor do The Wall Street Journal Gordon Crovitz.

“Algoritmos não chamam as pessoas para comentar”

Durante grande parte desta década, escreve Oremus, o setor de notícias viu seus rendimentos crescerem e caírem ao sabor de algoritmos programados para caçar cliques e dar visibilidade à publicidade, como no feed de notícias do Facebook. Esses algoritmos tendem a enfatizar a atratividade de determinadas manchetes e não a reputação do autor do conteúdo, o que ajuda a alimentar notícias falsas. “Mas o encontro do ‘Mail’ com a NewsGuard pode pressagiar uma nova fase: na qual os algoritmos das grandes plataformas de tecnologia começam a incorporar medidas de confiabilidade de uma empresa de notícias, enquanto um punhado de startups e organizações sem fins lucrativos disputam para serem os árbitros por trás dessas classificações”, diz Oremus.

O jornalista ressalta, entretanto, que a classificação online da credibilidade dos publishers também tem seus problemas. Um deles é o fato que credibilidade significa coisas diferentes para pessoas diferentes, e até mesmo os árbitros mais bem-intencionados estarão sujeitos a ambos os seus próprios preconceitos e pressões externas. É o caso do NuzzelRank. Em junho de 2018, uma nova lista começou a circular nos círculos da mídia. "É nosso plano de longo prazo criar o mais abrangente sistema de busca de notícias na Internet", proclamou o Nuzzel, detalhando como usaria o software para identificar fontes respeitáveis e filtrar o spam. Seu sistema de busca seria vendido como parte de um serviço de assinatura, mas os rankings de seriam públicos.

No topo da listagem estavam o The New York Times (9,1 em uma escala de 10 pontos), o The Washington Post (8,7) e o The Atlantic (8,3). Na sequência, estava o site TechCrunch (8,3), à frente do The Guardian, da CNN, da Bloomberg e da New Yorker. Startups como Medium, BuzzFeed e Business Insider apareceram à frente de fontes como NPR, BBC, The Economist e a própria Slate (7,5). Ficou claro, disse Oremeus, que o NuzzelRank não salvaria a mídia ou o discurso democrático tão cedo.

Mas há iniciativas – algumas sem fim lucrativo – mais sérias de avaliação da credibilidade jornalística que brotaram dos destroços das eleições dos Estados Unidos em 2016 e que valem a pena ser pesquisadas, garante Oremus: Trust Project, a Journalism Trust Initiative e Trust & News Initiative. Os indicadores feitos pelo Trust Project já estão sendo usados pelo Facebook e pelo Google News, ainda não para classificar as notícias.

Oremus conta que Brill disse a ele que a NewsGuard “lutou” para dar uma marca vermelha ao Slate por não separar as notícias da opinião (uma característica editorial da revista digital). Mas esse é o tipo de argumento que ele acredita que requer julgamento humano, e não algorítmico. "Nós fazemos o que os algoritmos não fazem", disse ele. "Algoritmos não chamam as pessoas para comentar".

No ano passado, a NewsGuard ligou para os principais editores do Slate e os desafiaram a defender as suas políticas. “Felizmente, ao contrário do ‘Mail Online’, atendeu o telefone. Por fim, a equipe da startup estava satisfeita com o fato de que a mistura de notícias e opiniões da Slate ficou clara para os leitores, e era mais jornalístico do que abertamente partidário, recebendo uma boa pontuação e um escudo verde.

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