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Tim Cook, da Apple, e Mark Zuckerberg, do Facebook Tim Cook, da Apple, e Mark Zuckerberg, do Facebook / Reprodução / Business Insider

Contragolpe da Apple à ação invasiva do Facebook revela como os negócios do oligopólio digital estão amarrados

Ao usarem aplicativos para obter informações pessoais de usuários do iPhone, da Apple, em troca de uma recompensa monetária, Facebook e Google expuseram mais uma vez até onde podem ir para deixar seus negócios, calcados no uso dos dados de quem navega na web, ainda mais lucrativos. Mas também mostraram que os dentes da Apple são tão grandes e afiados quanto os da rede social e a empresa de buscas na internet. Mais: o imbróglio é uma oportunidade para ver bem de perto como os grandes tubarões que dominam o mar digital dependem uns dos outros para continuar a se alimentar fartamente. 

Cada movimento feito na relação entre o Facebook e a Apple, por exemplo, por mais azeda que esteja, representa bilhões de dólares. Por isso, os tubarões nadam como se estivessem em uma partida de xadrez no nível dos grandes mestres deste exigente jogo de mais de 1,5 mil anos. Nas atitudes invasivas do Facebook e Google reveladas nesta semana pelo site TechCrunch, a Apple fez um movimento audacioso em suas peças. O contragolpe acertou o Facebook, uma vez que o Google rapidamente bloqueou seu app "espião", assumiu que “errou” e pediu desculpas ao fabricante do mais icônico smartphone do planeta. A rede social de Mark Zuckerberg, porém, não teve a mesma sorte.

A Apple rescindiu as credenciais de desenvolvimento do Facebook, o que prejudica a capacidade da rede social de testar produtos de software, entre outras coisas. A empresa comandada pelo CEO Tim Cook disse que "o Facebook tem usado seus integrantes [funcionários] para distribuir um aplicativo de coleta de dados para os consumidores, o que é uma clara violação de seu acordo com a Apple". Jornalistas e analistas comentaram que este é, de fato, um grande golpe para o Facebook, pois a empresa conta com o programa para o desenvolvimento interno de seus produtos e para fornecer rapidamente atualizações de aplicativos para seus usuários.

"É difícil exagerar o quão louco é o fato de o Facebook não poder enviar atualizações internas de aplicativos aos funcionários neste momento. Seria um grande risco para o desenvolvimento de produtos da empresa se isso se estender por qualquer período de tempo", disse o jornalista especializado Kurt Wagner, do site Recode.

Na quarta-feira (30), a jornalista Sarah Frier, da Bloomberg, informou que o Facebook confirmou que todos os seus aplicativos iOS internos para funcionários (os aplicativos que testam todos os produtos em andamento, bem como os aplicativos internos de recursos dos funcionários, para transporte etc.) estavam offline. A empresa informou que negocia uma solução junto à Apple.

A punição da Apple ao Facebook pode, na prática, segundo a revista Fortune, afetar mais do que qualquer multa da Comissão Federal do Comércio (FTC, na sigla em inglês), que avalia sanção à maior rede social do mundo pela violação de um acordo de 2011. Ocorre que se o Facebook não puder testar seus aplicativos e lançar novos recursos, não poderá copiar rapidamente os recursos para dispositivos iOS de concorrentes como o Snapchat. Os problemas logísticos que afetam o cotidiano dos funcionários do Facebook que usam iPhones também podem ser um grande obstáculo.

Em essência, diz a Fortune, a Apple está colocando um freio na capacidade do Facebook de "mover-se rapidamente e quebrar as coisas", citando um dos lemas da rede social. Não está claro se a decisão da Apple de revogar as credenciais do Facebook é apenas temporária.

Necessária tolerância

Outros observadores externos acreditam que a Apple precisa ir além, conforme o site Business Insider. John Gruber, escritor e cientista de computação escreveu em seu blog Daring Fireball (especializado em tecnologia, particularmente na Apple) que seria justificável, neste momento, que a empresa fundada por Steve Jobs removesse da sua App Store todos os aplicativos voltados ao consumidor do Facebook. "Às vezes um valentão precisa ser socado na cara, não apenas mandado parar", escreveu.

Ail Dash, CEO da startup de desenvolvimento de aplicativos Glitch, twittou que "seria um bom momento para os usuários da Apple mostrarem que querem que o Facebook seja responsabilizado da mesma forma que os outros desenvolvedores". E provocou: "Qualquer outra empresa que realizasse fraude deliberada das regras da plataforma da Apple em tal nível terá todos os seus aplicativos excluídos da App Store".

Mas isso não ocorreu no caso do Facebook justamente por conta da codependência dos grandes tubarões. Limar totalmente do iPhone a rede social que tem mais de 2 bilhões de usuários equivaleria a um ataque direto a uma das empresas mais poderosas do mundo. E isso provavelmente causaria dor profunda em ambos os lados. Por outro lado, a rede social poderia fazer o mesmo, retirando seus apps do iPhone e convencendo os clientes que adoram seus aplicativos a migrarem para o Android, o que seria fatal para a Apple.  

O jornalista Mathew Ingram, editor-chefe da área digital do site Columbia Journalism Review, recentemente mostrou, também comparando as grandes empresas a tubarões, que Tim Cook não poupa palavras para criticar os "coletores de dados" como Facebook e Google. Ingram, entretanto, ressaltou que, embora a Apple talvez não se envolva diretamente na segmentação de anúncios ou na vigilância de usuários, ela ainda se beneficia de maneira significativa com esses tipos de práticas. 

Isso ocorre, ressaltou o jornalista, por meio de um contrato de quase US$ 9 bilhões com o Google para incluir a barra de ferramentas do gigante de buscas em produtos da Apple, como o navegador Safari. “As críticas de Cook sobre a privacidade digital seriam muito mais sinceras se ele admitisse que a Apple atualmente é bem paga para ignorar a privacidade de seus usuários”, afirmou Ingram.

Ou seja, o Facebook precisa da Apple e vice-versa (e isso vale também para o Google). Anúncios para smartphones são atualmente responsáveis por 93% da receita total de publicidade do Facebook. Quase metade da receita total da rede social vem dos Estados Unidos e Canadá. Em solo norte-americano, diz o Business Insider, algo em torno de 40% a 50% de todos os dispositivos móveis em uso são iPhones. No mercado global, a Apple tem 1,4 bilhão de dispositivos ativos entre iPhones (900 milhões), Macs, iPads, Apple TVs, iPods e Apple Watches. Deste total, 900 milhões são iPhones.

No fim, destaca o Business Insider, os gigantescos valores por trás das problemáticas que estão no tabuleiro do jogo dos grandes tubarões --  Google, Amazon, Facebook e Apple (GAFA) -- provavelmente serão demais para serem desprezados. Por enquanto, tudo indica que Facebook e Apple terão de continuar a lidar um com o outro.

Leia mais em:
https://www.nytimes.com/2019/01/30/technology/facebook-privacy-apple-tim-cook.htmlhttps://www.bloomberg.com/news/articles/2019-01-30/facebook-sales-profit-beat-wall-street-estimates-shares-surge
https://www.theverge.com/2019/1/31/18204559/apple-facebook-feud-market-research-platform-power
https://www.theverge.com/2019/1/30/18203551/apple-facebook-blocked-internal-ios-apps
http://fortune.com/2019/01/30/apple-facebook-regulator-data/
https://www.businessinsider.com/apple-wont-nuke-facebooks-apps-over-facebook-research-dispute-2019-1?nr_email_referer=1&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_content=Tech_select