Em novo embate com o publisher do NYT, Trump nega incitar violência contra a imprensa e diz ser vítima de injustiça Reprodução/NYT

Em novo embate com o publisher do NYT, Trump nega incitar violência contra a imprensa e diz ser vítima de injustiça

Seis meses depois de ter quebrado um acordo, revelado encontro com o publisher do jornal The New York Times, A. G. Sulzberger, distorcer o conteúdo da conversa e elevar ao máximo seus ataques para desqualificar a imprensa – “produtora de fake news” e inimiga do povo” –, o presidente Donald Trump voltou a se encontrar nesta quinta-feira (31) com o jornalista que comanda um dos mais influentes jornais do mundo. Questionado sobre o fato de sua retórica que desqualifica diariamente o jornalismo multiplicar os ataques à imprensa em todo o mundo, o republicano que ocupa o cargo mais importante do mundo negou sua responsabilidade e se vitimizou.

Em julho do ano passado, depois de se encontrar com Sulzberger, a pedido da presidência, Trump disse nas redes sociais que a reunião tinha sido “muito boa”, e que passou boa parte do tempo comentando sobre “a vasta quantidade de fake news publicadas pela mídia. “[A expressão] ‘fake news’ se transformou na frase ‘inimigos do povo’. Triste!”, disse o presidente – sem esclarecer que a expressão fora usada por ele próprio, em diversos pronunciamentos.

À época, Sulzberger rebateu o relato do presidente, e afirmou que foi ao encontro, na realidade, com o objetivo de alertar Trump sobre sua retórica anti-imprensa. “Eu disse diretamente ao presidente que sua linguagem não era apenas divisiva, como também perigosa”, declarou Sulzberger em nota. Ele destacou que discurso inflamado do presidente contribui mais ameaças contra jornalistas. Horas depois, Trump voltou à carga, e acusou o “falido New York Times” de não fazer nada além de “escrever reportagens ruins” a respeito de conquistas positivas do governo. “Eu não permitirei que nosso grande país seja liquidado por inimigos anti-Trump da moribunda indústria jornalística”, atacou o republicano.

Na entrevista desta semana, Trump fez comentários longos e, às vezes, contraditórios sobre a mídia – "importante", mas "tão ruim" e "injusta" –, e chamou a si mesmo de "vítima" de uma cobertura injusta. "Eu acho que é muito ruim para um país quando a notícia não é retratada com precisão", afirmou. “Eu realmente sei [disso]. E eu acredito que sou uma vítima disso, honestamente”.

O presidente recusou-se a assumir a responsabilidade pelo aumento das ameaças contra jornalistas desde que assumiu o cargo, um fato confirmado por todos os levantamentos das entidades jornalistas mais respeitadas do mundo. Quando Sulzberger lembrou que os líderes autocratas estrangeiros se sentem encorajados com o discurso de Trump e estão usando cada vez mais o termo "notícias falsas" para justificar a supressão do escrutínio jornalístico e independente – com censura, ameaças, prisão, assassinatos e outras formas de violência –, Trump respondeu: "Eu não gosto disso”.

Sarcástico, Trump disse notar que o termo fake news aplicado à imprensa tem sido usado cada vez mais pelas pessoas, inclusive em outros países. “Eu não necessariamente atribuo isso a mim”, disse, para em seguida frisar: “Eu acho que posso atribuir o termo para mim. Acho que fui eu quem começou a usá-lo, eu diria.” Sulzberger insistiu e de forma repetida perguntou ao presidente se ele entendia os efeitos globais de suas palavras.

"Estamos vendo líderes de organizações jornalísticas dizendo muito diretamente que os governos acham que existe um clima de impunidade que foi criado [a partir da retórica de Trump]", disse Sulzberger. "Você sabe que os Estados Unidos e os ocupantes de seu escritório historicamente têm sido os maiores defensores da liberdade de imprensa", enfatizou o jornalista ao destacar a importância ocupado pelo atual presidente norte-americano. Trump interveio: “Também acho que estou. Eu quero ser”. Rapidamente acrescentou: “Eu acho que a única coisa que sinto é que, ao ver a cobertura da imprensa [o presidente usou a palavra network, ou seja, rede], é tão ruim.”

Egocentrismo

Os jornalistas e o editor do The New York Times pediram para que Trump reconsiderasse sua campanha na qual desabona insistentemente a imprensa. "[Os efeitos] estão sendo sentidos em todo o mundo, incluindo por pessoas que estão literalmente colocando suas vidas em risco para relatar a verdade", disse Sulzberger. "Eu entendo isso", respondeu Trump antes de voltar, mais uma vez, a reclamações sobre o que ele qualifica como má cobertura da mídia sobre o seu governo.

“Eu tive histórias ruins, histórias muito ruins em que eu achava que era verdade e nunca iria reclamar. Mas quando você tem histórias realmente ruins, onde isso não é verdade, então você diz: "Isso é injusto", completou o presidente norte-americano. Foi a vez de Sulzberger rebater: "Nunca é divertido estar do outro lado disso. Você tem o meu compromisso de que, ao fazer isso [jornalismo] de forma agressiva [independente], também faremos isso de forma justa."

"Eu aprecio isso", respondeu Trump. "Corri, ganhei e estou realmente fazendo um bom trabalho", disse, novamente lamentando que sua vitória não tenha recebido o elogio que ele achava que merecia – particularmente do The New York Times. "Eu tenho o direito de ter uma ótima história – apenas uma – do meu jornal", finalizou o republicano.

Leia mais em:

https://www.nytimes.com/2019/02/01/business/media/donald-trump-interview-news-media.html

https://www.nytimes.com/2018/07/29/us/politics/trump-new-york-times-sulzberger.html