Ganhar a confiança do público digital exige cumplicidade entre jornalismo e leitor, diz ex-editor do The Guardian Reprodução/Vox

Ganhar a confiança do público digital exige cumplicidade entre jornalismo e leitor, diz ex-editor do The Guardian

O mundo é irremediavelmente cada vez mais digital e as gigantes de tecnologia estrangulam os negócios dos publishers. Além disso, a combinação entre o modelo de negócios de empresas como Facebook, Google e Twitter – que possibilitam a transformação de uma sociedade vertical para algo em que 4 bilhões de pessoas falando em um plano horizontal – tem sido usada por governos e grupos que pretendem estabelecer suas verdade, o que torna o jornalismo um inimigo que precisa ser desacreditado rapidamente. São várias as medidas pera estancar essa avalanche que visa arruinar a reputação do principal antídoto à desinformação. Uma delas, segundo o Alan Rusbridger, ex-editor do jornal britânico The Guardian, não tem recebido o destaque que merece: o estabelecimento de uma parceria, quase uma cumplicidade, entre o jornalismo o leitor online em busca da verdade.

Rusbridger é autor do livro “Breaking News" – um trocadilho que serve para notícia de última hora, que está irrompendo, mas também para o modelo de negócios da notícia, que está em disrupção, segundo o jornalista e especialista em mídia Nelson de Sá, da Folha de S.Paulo. O britânico, em recente entrevista ao site Vox, defendeu um jornalismo de linguagem direta e sincera com o público, como é o comportamento das pessoas nas mídias interativas.

“Minha experiência é que os leitores ficam surpresos quando os jornalistas podem dizer: ‘Você pode me ajudar? Aqui está o meu artigo. Está certo? Poderia ser melhorado? O que está faltando aqui? Sobre o que devo escrever a seguir?” Essas, disse, são perguntas colaborativas e abertas. Por enquanto, são raros os exemplos em que os profissionais de comunicação se comportam assim. Mas quando o fazem, os leitores se envolvem, o que leva à confiança – um dos problemas centrais a serem resolvidos pela mídia – e a melhores reportagens. Andrew Sparrow, que cobre o Parlamento pelo The Guardian, faz isso em forma de blog, contou Rusbridger.

Sparrow informa sobre o Parlamento no jornal e em seu blog, replicado em redes sociais, e interage com seus leitores, tratando-os como fontes de informação. As pessoas o amam, e seus textos estão entre os mais – se não os mais – procuradas no site do The Guardian atualmente. “Então, ele é um repórter que nunca escreve uma história; provoca uma grande discussão sobre o que está fazendo e é incrivelmente confiável”, destaca Rusbridger. “Se você realmente respeita seus leitores como pessoas que podem ajudá-lo, eles o farão”.

No complexo e árido meio digital para os publishers, o ex-editor do The Guardian oferece uma visão diferente de boa parte dos observadores. “Estamos apenas começando a vislumbrar ou entender o que tudo isso significa. Não acho que as pessoas estejam pensando de forma criativa o suficiente sobre como as pessoas agora obtêm seus conhecimentos, aprendem a confiar em seus conhecimentos, em quem confiar e em quem não confiam. Parece um erro ser tão indiferente”, disse.

Os jornalistas, afirmou Rusbridger, não estão curiosos o suficiente sobre por que as pessoas realmente gostam de mídia social, ainda que outras tantas as odeiem. “Se você observar como as pessoas se comportam nas mídias sociais, verá que elas tendem a ser muito menos declaratórias do que o jornalismo. É mais hesitante, é mais argumentativo, desafiador. As pessoas sentem que esta é uma maneira mais real de estabelecer a verdade do que receber ordens para confiar em alguém de quem você não pode querer confiar”.

Rusbridger insistiu que, em meio as enormes dificuldades impostas pelo mundo digital, são os jornalistas que vão ajudar a sociedade a decidir o que é verdade e o que não é verdade, mas para tanto eles precisam estar ao lado das pessoas. Se a lógica de mercado não tem como pagar por isso, é exatamente essa aproximação e identificação do jornalista com o público que poderá ajudar na demonstração de como o serviço oferecido pelo jornalismo é relevante ao interesse das pessoas. “O público realmente quer isso”.

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