Brendan Nyhan, cientista político e professor de políticas públicas da Universidade de Michigan Brendan Nyhan, cientista político e professor de políticas públicas da Universidade de Michigan / Reprodução

Dar voz ao público fideliza audiência e reforça combate à desinformação, dizem estudos

Não basta conhecer o perfil do leitor, é preciso saber o que ele pensa e quais são suas principais necessidades, interagir de forma constante e dar voz às pessoas. Esses não são desafios novos para os jornalistas e empresas noticiosas, mas persistem até hoje. Superá-los o mais rápido possível é, segundo recentes pesquisas elaboradas nos Estados Unidos, uma forma de fortalecer o jornalismo em um momento no qual ele se encontra sob ataque. Ao mesmo tempo, essa aproximação com o leitor pode dar mais eficácia ao combate à desinformação na web, começando por compreender o real impacto das inverdades espalhadas em mídias interativas, como Google e Facebook, em especial no cenário político.

O uso da desinformação e de notícias falsas para manipular a política tem sido estudado e debatido de forma mais intensa desde 2016, quando esse tipo de conteúdo se alastrou na internet durante a eleição presidencial dos Estados Unidos e o Brexit, no Reino Unido. De lá para cá, várias pesquisas mostraram como o fenômeno pode ter interferido nos resultados desses e de outros pleitos ao longo dos últimos anos. Brendan Nyhan, cientista político e professor de políticas públicas da Universidade de Michigan, que estuda a desinformação na web desde 2016, e outros pesquisadores chegaram a uma conclusão diferente, conta Mathew Ingram, editor da área digital do site Columbia Journalism Review.   

Os estudos de Nyhan e seus colegas indicam que as notícias falsas atingiram apenas uma pequena proporção da população antes e durante as eleições de 2016. Desde então, o alcance da desinformação vem caindo. Além disso, a maior parte das pessoas que se engajam neste tipo de conteúdo, afirmam os pesquisadores, já estão inclinadas a acreditar naquilo. “Em outras palavras, é mais ou menos apenas um viés de confirmação”, diz Andrew Guess, cientista político de Princeton coautor de uma das pesquisas de Nyhan.

O risco de insuflar a desinformação

O jornalismo é parte desse enredo, segundo os pesquisadores, ao amplificar a ideia de que as notícias falsas realmente manipulam as sociedades. A teoria de Nyhan, conta Ingram, remete ao mito de que a peça de rádio de Orson Welles, "Guerra dos Mundos", causou pânico generalizado entre a população dos Estados Unidos quando foi ao ar em 1938. A peça teria sido ouvida por um pequeno número de pessoas, que não mostraram qualquer reação negativa. Em parte, o mito persistiria porque os jornais da época o enfatizaram, numa tentativa de desacreditar o rádio (um concorrente relativamente novo na época) como uma fonte de notícias. Hoje, o mesmo ocorre, argumenta Nyhan, em relação a agentes russos manipulando as pessoas com desinformação disseminada no Facebook. Para os estudiosos, essa ideia é alimentada por preocupações mais amplas sobre a influência das redes sociais nas sociedades.

Kathleen Hall Jamieson, professora de Comunicação na Universidade da Pensilvânia e autora do livro “Cyberwar: How Russian Hackers and Trolls Helped Elect a President, tem outro entendimento, mas também considera a mídia como um incauto amplificador da desinformação. Com mais de 40 anos de estudos sobre o comportamento humano, Kathleen sustenta em sua obra que as evidências sugerem que a desinformação propagada por russos provavelmente influenciou o resultado da eleição presidencial norte-americana, em parcela por causa do número de eleitores indecisos, suscetíveis a este tipo de tática.

A pesquisadora, entretanto, observa que a mídia tradicional desempenhou um papel fundamental na divulgação da falsidade ao produzir reportagens sobre, por exemplo, os e-mails da democrata Hillary Clinton. Kathleen diz que as notícias falsas não teriam tido muito impacto para influenciar a eleição, uma vez que um número relativamente pequeno de votos deu a vitória ao republicano Donald Trump.

Seja qual for a influência da desinformação, é certo que jornalistas e veículos têm refletido sobre os cuidados necessários para, no combate às notícias falsas, não acabar dando a elas um espaço desmedido. O desafio, que não é de fácil superação, passa pelo melhor relacionamento com os leitores, visto por muitos como a melhor maneira de as redações recuperarem a receita e a confiança do público que perderam nos últimos anos.

Em busca da lealdade da audiência

Jacob Nelson, professor na escola de jornalismo da Arizona State University e especialista em engajamento de audiência, afirma que, antes da internet, os jornalistas raramente buscavam feedback de seus leitores. Hoje, em um mundo cada vez mais digital, afirma o pesquisador, a imprensa não apenas precisa conversar com o público, como também conquistar sua lealdade. E há muitas incertezas nessa tarefa.

Dois estudos conduzidos por Nelson e outros pesquisadores revelam que a crescente preocupação do jornalismo em relação ao público de notícias não foi acompanhada do entendimento, que ganhou mais espaço recentemente, sobre a necessidade de identificar as audiências e saber o que elas querem das notícias. Mesmo quando os jornalistas concordam que o público consome menos notícias sobre assuntos de maior interesse social do que outros temas, como entretenimento, eles tiram conclusões diferentes sobre por que isso acontece, afirma Nelson em artigo no site The Conversation. Alguns culpam o público, outros culpam os jornalistas.

Há em prática estratégias de redação para melhor compreensão e conexão com seus leitores, telespectadores e ouvintes, que diferem de uma organização para outra. Alguns confiam em métricas digitais para determinar o que seus leitores gostam e não gostam, e usam essa informação para dar a eles o conteúdo que desejam. A estratégia do BuzzFeed é uma das mais conhecidas desse tipo de abordagem. Outros, continua Nelson, confiam em informações mais qualitativas.

A City Bureau, uma organização de notícias sem fins lucrativos com sede em Chicago, conta o pesquisador, organiza semanalmente “salas de redação públicas” com o objetivo de reunir jornalistas e o público para discutir questões locais e compartilhar recursos e conhecimento para promover melhores reportagens.

O principal, conforme mostram os estudos é que o modo como os jornalistas percebem suas audiências “afeta poderosamente” o que fazem para alcançá-los. No caso da medição de audiência, as redações tendem a favorecer a quantidade do público. Dois motivos sustentam essa tendência. O primeiro é objetivo: quanto maior a audiência, melhor será a receita com publicidade e assinaturas. O outro é o entendimento segundo o qual o jornalismo de relevância tem sentido apenas se há audiência suficiente para garantir monetização.

Jornalismo distante; público desinteressado

A confiança nessas métricas, afirma Nelson, deixou clara uma suposição importante que os jornalistas têm sobre a natureza de seu público. Ao observarem que os leitores tendem a clicar em notícias de estilo de vida, esportes, restaurantes, entre outras, e não nas chamadas “hard news”, muitos dos jornalistas entrevistados concluíram que a maioria do público simplesmente não está interessado no que eles consideraram "importante", neste caso de maior relevância social.

Nelson afirma que um grupo crescente de inovadores do setor de notícias acredita que essas métricas podem estar mal aplicadas e que a maioria do público está genuinamente interessado em ler sobre questões cívicas.
Este grupo, diz o pesquisador, acredita que não é a falta de interesse que mantém os cidadãos longe das reportagens. É o desdém pela forma como as histórias estão sendo relatadas.

O público, continua Nelson, se sente alienado e desconfiado do jornalismo que raramente solicita suas perspectivas e, consequentemente, falha em refletir com precisão suas vidas. Para corrigir isso, os jornalistas precisam se envolver mais ativamente com o público, praticando o jornalismo engajado.

Os estudos do professor Arizona State University também revelam que os jornalistas sentem a necessidade de criar oportunidades para um engajamento mais significativo com o público, especialmente com as comunidades até então pouco consideradas. Em uma amostragem, essas oportunidades incluíam iniciativas online e offline projetadas para criar confiança e fortalecer os laços com minorias que os jornalistas cobrem em suas reportagens, mas não necessariamente atingem com suas reportagens.

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