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Governo britânico estuda plano para escrutinar publicidade digital, fortalecer o jornalismo e reduzir poder de Google e Facebook Reprodução

Governo britânico estuda plano para escrutinar publicidade digital, fortalecer o jornalismo e reduzir poder de Google e Facebook

Um amplo relatório solicitado pelo governo britânico e divulgado na noite de segunda-feira (11) pode ser o começo de uma grande mudança na forma como Google e Facebook dominam o negócio de publicidade online e sufocam o jornalismo no Reino Unido. Denominado Cairncross Review, o documento recomenda, por exemplo, a criação de um órgão para regular a qualidade dos conteúdos distribuídos pelo duopólio digital, a abertura de investigação sobre a publicidade online e a garantia de benefícios fiscais para empresas noticiosas, além de um instituto de notícias de interesse público, um fundo de inovação, um código de conduta a ser assinado pelas gigantes de tecnologia e um plano de educação midiática.

O relatório foi produzido por um grupo de especialistas das indústrias de mídia, marketing, publicidade e tecnologia, sob o comando da economista e jornalista Frances Anne Cairncross ao longo dos dois últimos anos. A pesquisadora preside o Comitê Executivo do Instituto de Estudos Fiscais e, entre 2004 e 2014, foi reitora do Exeter College, de Oxford. Quando solicitou o estudo, o governo britânico informou que o objetivo era encontrar intervenções para “salvaguardar o futuro” da “imprensa livre e independente”. O trabalho afirma que o jornalismo escrito está "em risco", por causa do domínio de Google e Facebook nos mercados de busca e publicidade, bem como na coleta de dados das pessoas.

Os gigantes da web controlam tanto o mercado de publicidade online, afirma o relatório, que podem simplesmente "impor termos aos editores sem consultar ou negociar com eles", diz o relatório. "Há falta de transparência em toda a cadeia de fornecimento de publicidade", acrescenta o texto.  O aspecto mais marcante “da mudança dramática” no mercado de notícias do Reino Unido, afirma o estudo, é a velocidade e a extensão com a qual ocorre, com a maioria das pessoas lendo as notícias online. O relatório descreveu essas informações digitais como histórias vistas pelas pessoas a partir da escolha feita “por um programa de computador” e, muitas vezes, sem rotulagem clara sobre quem a publicou.

A democracia precisa do jornalismo

Nesta terça-feira (12), o ministro britânico para a Cultura, Digital, Mídia e Esporte, Jeremy Wright, anunciou que, seguindo a orientação do relatório, já pediu à Autoridade de Concorrência e Mercados para dar início a estudo sobre o mundo da propaganda online “amplamente opaco e extremamente complexo”. Esse escrutínio pode levar a uma investigação completa, que permitiria ao regulador da concorrência a usar seus poderes legais e obter informações que as empresas de tecnologia se negam a fornecer atualmente.

O ministro disse ainda que sua pasta deverá conduzir uma investigação própria sobre a regulamentação do mercado de publicidade online, que impõe “desafios sociais e econômicos”. Há expectativa de que essa iniciativa possa resultar na concessão de novos poderes a um regulador para supervisionar o mercado de publicidade online.

O governo britânico, entretanto, responderá plenamente ao relatório apenas no final deste ano. "Há algumas coisas em que podemos agir imediatamente, enquanto outras precisarão de uma análise mais cuidadosa com as partes interessadas sobre o melhor caminho a seguir", disse Wright, enfatizando a importância do relatório para o jornalismo.

“Uma democracia saudável precisa de jornalismo de alta qualidade para prosperar, e este relatório define os desafios para colocar nossos meios de comunicação em uma posição mais forte e mais sustentável, em face da mudança de tecnologia e desinformação crescente”.

O relatório, entretanto, não faz referência a duas reivindicações das empresas jornalísticas britânicas: imposto anual a ser cobrada das empresas de tecnologia da internet para o financiamento do jornalismo e a divisão de receitas sobre o conteúdo produzido pela imprensa e distribuído por mídias sociais e sites de busca na web.

Transparência na publicidade programática

O texto, de 157 páginas, sugere que Google e Facebook divulguem o quanto de cada libra gasta em publicidade online realmente alcança o publisher, depois que ele é canalizado através de sistemas de lances automáticos, dentro da lógica de publicidade programática. Na prática, as gigantes da web, neste caso principalmente o Google, controlam a maioria da publicidade em sites de notícias, uma vez que os clientes publicam anúncios via plataformas automatizadas de lances. Sob essa publicidade programática, os anunciantes decidem quanto querem gastar para alcançar um grupo demográfico específico.

As trocas automáticas executam leilões de alta velocidade toda vez que alguém carrega uma página da web para determinar qual anúncio veem. No entanto, a plataforma que executa o leilão recebe uma fatia do lance bem-sucedido, assim como muitos outros intermediários, deixando o publisher com uma pequena porcentagem do dinheiro.

Benefícios fiscais e regulação

Entre as demais sugestões do relatório, estão novas formas de isenção fiscal ao jornalismo, incluindo a extensão do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) com taxa zero, hoje aplicado apenas aos impressos, a jornais e revistas digitais. No caso dos conteúdos distribuídos pelas empresas com negócios na web, o documento afirma que um regulador deve supervisionar os esforços das plataformas online para melhorar a experiência de notícias dos usuários, incluindo a expansão dos esforços para identificar fontes confiáveis e confiáveis. "Essa tarefa é importante demais para deixar inteiramente a critério das entidades comerciais", diz o relatório.

Além disso, as empresas de tecnologia, diz o texto, devem ser forçadas a dar aos produtores de notícias "alertas prévios" sobre grandes mudanças em seus "algoritmos" para dar tempo aos sites noticiosos se prepararem. Também precisam estabelecer códigos de conduta para acordos comerciais com produtores de notícias. Esses acordos, diz o relatório, devem ser aprovados e supervisionados por um regulador “com poderes para insistir no cumprimento” dos acertos.

A News Media Association (NMA), que representa a indústria de notícias, saudou o relatório, "que reconhece o papel crítico do jornalismo escrito para a democracia", mas sinalizou que pretende aprofundar o debate. "Estamos ansiosos para nos engajarmos com o governo e discutir as recomendações do Cairncross mais detalhadamente e como elas devem ser levadas adiante com urgência e garantir que apoiem o jornalismo independente oferecido por uma imprensa forte e sustentável", disse a NMA em comunicado.

Leia mais em:

https://www.pressgazette.co.uk/cairncross-review-support-for-expansion-of-bbc-local-democracy-scheme-from-regional-publisher-and-trade-body/?utm_medium=email&utm_campaign=2019-02-12&utm_source=Press+Gazette+Daily+new+layout

https://www.pressgazette.co.uk/press-gazette-applauds-cairncross-review-plan-to-protect-news-publishers-from-google-and-facebook-dominance/?utm_medium=email&utm_campaign=2019-02-12&utm_source=Press+Gazette+Daily+new+layout

https://www.pressgazette.co.uk/culture-secretary-sets-out-next-steps-for-cairncross-review-proposals-and-hails-report-important-milestone-for-news-media/?utm_medium=email&utm_campaign=2019-02-12&utm_source=Press+Gazette+Daily+new+layout

https://www.pressgazette.co.uk/cairncross-review-institute-for-public-interest-news-innovation-fund-and-tax-reliefs-among-nine-proposals-to-save-uk-news-industry/?utm_medium=email&utm_campaign=2019-02-12&utm_source=Press+Gazette+Daily+new+layout

https://www.theguardian.com/media/2019/feb/12/digital-ad-market-competition-facebook-google

https://www.holdthefrontpage.co.uk/2019/news/cairncross-review-government-urged-to-expand-ldr-scheme-and-set-up-institute-for-public-interest-news/

https://www.journalism.co.uk/news/the-cairncross-report-what-it-says-and-first-impressions/s2/a734570/

https://www.bbc.com/news/av/uk-47209936/cairncross-review-tech-giants-need-news-watchdog

https://www.independent.co.uk/voices/cairncross-review-journalism-future-news-digital-regulation-a8776111.html