Serviço de notícias por assinatura digital que Apple pretende lançar decepciona publishers Reprodução/AFP/Folha de S.Paulo

Serviço de notícias por assinatura digital que Apple pretende lançar decepciona publishers

Com lançamento previsto para o próximo dia 25 de março, o serviço de assinatura de notícias da Apple enfrenta resistência de boa parte dos produtores de conteúdo. Há incertezas sobre se o Apple News, nova área do aplicativo de notícias já existente nos iPhones, não repetirá a frustração ocorrida com o Instant Articles, do Facebook, por exemplo, de poucos atrativos financeiros para os publishers. Além disso, de acordo com informações iniciais, as empresas noticiosas não teriam acesso aos dados dos assinantes do serviço da Apple, o que torna a oferta ainda menos atraente.

A desconfiança começa pelo baixo valor da assinatura mensal sugerida pela Apple, segundo o jornal The Washington Post, de cerca de US$ 10, e a agressiva taxa de 50% a ser recolhida pela gigante de tecnologia. A proposta da empresa liderada pelo CEO Tim Cook para os outros 50% do faturamento com assinaturas, ainda conforme o jornal norte-americano, também não é animadora para os publishers: divisão entre as empresas noticiosas com base em visualizações (engajamento por conteúdo), um modelo que se revelou perverso no passado recente.  

O valor a ser cobrado aos assinantes pelas Apple – empenhada na tentativa de reverter a queda nas vendas do iPhone –, é semelhante ao preço de serviços de streaming de música da empresa, Apple Music e iTunes, mas inferior às assinaturas mensais de jornais americanos como The New York Times (US$ 15) e The Wall Street Journal (US$ 39). No Apple News, os usuários poderão acessar uma biblioteca ilimitada de notícias, de maneira similar ao que ocorre em plataformas como a Netflix, colocando os publishers em constante competição entres eles.

Há rumores sobre o projeto da Apple desde o ano passado, principalmente depois que a empresa adquiriu o agregador de notícias Texture, mas as informações publicadas pelo The Washington Post ampliaram debate. Alguns analistas consideram pífia a proposta. "Para uma indústria que viu demissões crescentes – mais de 2 mil funcionários foram demitidos nas últimas semanas no BuzzFeed, Vice, HuffPost, Gannett e McClatchy –, a notícia veio como um golpe”, disse Mathew Ingram, do site Columbia Journalism Review. “Muitos ficaram indignados com o fato de que uma das empresas mais valiosas do mundo, um gigante com US$ 245 bilhões em caixa, receberia uma parte tão significativa da receita do plano proposto, enquanto afirma sobre o quanto se preocupa com o jornalismo”.

A jornalista Casey Newton, citada por Ingram, chamou a proposta de “obscena” e disse que o fato de a Apple pensar em uma participação de 50% é “um sinal preocupante da concentração do poder tecnológico”. O que se reflete na intenção da empresa de tecnologia, seguindo um costume das gigantes do setor, de não compartilhar os dados dos assinantes. O acesso a nomes de usuários, números de cartões de crédito e endereços de e-mail, afirmou Ingram, poderia tornar a parte da receita dos publishers (50%) mais palatável. “Mas, de qualquer forma, manter todos esses dados apenas reforça como todo o poder está nas mãos da Apple.”

Casey Newton, do The Verge, observou não há nada nos recursos do iPhone que justifique 50% da receita. A proposta da Apple, disse, deve "enviar os editores na direção contrária". O analista de tecnologia Ben Thompson comentou em seu boletim Stratechery que a Apple está fazendo o que os agregadores sempre fazem: usando o conteúdo de outros para atrair usuários.

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A própria Apple fez uso deste recurso ente 2011 e 2015, com o Newsstand, por meio do qual oferecia em único portal a venda de assinaturas digitais a jornais e revistas para tablets. Para tanto, a empresa cobrava comissão de 30%, não estimulava a leitura nos sites das companhias jornalísticas e também não compartilhava os dados dos usuários com os publishers. O serviço e suas condições foram amplamente discutidos pelo Comitê de Estratégias Digitais (CED) e pela diretoria da Associação Nacional de Jornais (ANJ). O CED manteve diversas reuniões com representantes da Apple com o objetivo de obter algumas concessões, mas a empresa se manteve irredutível. Em consequência, por sugestão do comitê, a diretoria recomendou aos associados que não vendessem assinaturas por meio do Newstand que se tornou irrelevante no Brasil.

Agora, entretanto, a Apple pode levar uma ligeira vantagem diante da crítica situação financeira dos jornais locais e outros que não tem o mesmo tamanho do The New York Times, disse Ingram. “A infeliz realidade é que alguns publishers podem não ter muita escolha quando decidirem aceitar ou não o acordo da Apple”, disse. Essas empresas não têm o poder da marca e, na maioria dos casos, segundo o jornalista, os programas de assinatura são menores, o que significa que precisam de toda a ajuda possível para obter receita. “Assim como as propostas do Facebook antes, o negócio da Apple é uma barganha tipicamente faustiana”.

Atualmente, a Apple News tem um alcance de mais de 90 milhões de leitores, e isso faz com que pareça extremamente atraente para os publishers em dificuldades, muitos dos quais viram suas receitas publicitárias despencarem diante do domínio de Google e Facebook, lembrou Ingram.  “Mas o preço desse acordo não é apenas 50% da receita; é também o custo incalculável de se dedicar ao seu negócio e, potencialmente, à sua sobrevivência para terceiros”, afirmou o jornalista. Neste caso, continuou, um terceiro, a Apple, tem seus próprios interesses comerciais em mente, apesar de todas as declarações animadoras sobre compromisso com o jornalismo. “Nunca construa sua casa em terras alugadas, alguém disse certa vez.”

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https://stratechery.com/2019/the-cost-of-apple-news/?utm_source=Memberful&utm_campaign=0eb2aba319-weekly_article_2019_02_13_free&utm_medium=email&utm_term=0_d4c7fece27-0eb2aba319-110992817

https://www.editorandpublisher.com/feature/as-the-media-landscape-changes-online-what-digital-trends-can-publishers-expect-to-see-in-2019/

https://www.businessinsider.com/apple-march-event-launch-news-service-2019-2?nr_email_referer=1&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_content=Tech_select

https://www.cjr.org/the_media_today/apple-publishers-subscription-revenue.php?utm_source=CJR+Daily+News&utm_campaign=c9198f6e83-EMAIL_CAMPAIGN_2018_10_31_05_02_COPY_01&utm_medium=email&utm_term=0_9c93f57676-c9198f6e83-174426941

https://www.recode.net/2019/2/13/18224013/apple-news-publishers-50-percent-subscription-explained-new-york-times-washington-post-texture

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/02/apple-quer-lancar-netflix-de-noticia-mas-taxa-de-50-sofre-resistencias.shtml

https://www.poderpda.com/aplicaciones/apple-noticias-comision-50-por-ciento/

https://www.theverge.com/interface/2019/2/13/18222498/apple-news-publisher-deal-50-percent-lol

https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,servico-de-assinatura-de-noticias-da-apple-sera-lancado-em-marco-diz-site,70002719851