Sociedade precisa ser protegida do modelo de negócio das gigantes de tecnologia, assinalam editoriais de jornais britânicos Reprodução

Sociedade precisa ser protegida do modelo de negócio das gigantes de tecnologia, assinalam editoriais de jornais britânicos

Dois dos principais jornais britânicos, Financial Times e The Guardian, dedicaram editoriais sobre o relatório do Comitê de Cultura, Digital, Mídia e Esporte da Câmara dos Comuns do Reino Unido, divulgado na segunda-feira (18), que acusou o Facebook de violar as leis de privacidade e concorrência. A investigação que gerou o documento, afirmam os diários, encontrou as mesmas evidências que têm pavimentado o caminho rumo a um consenso entre países de diferentes continentes: a sociedade precisa ser protegida do modelo de negócio da rede social norte-americana, assim como o do Google e de outras empresas, que explora os dados –  que talvez sejam o mais valioso ativo do planeta na atualidade – de forma anticompetitiva, invasiva e descontrolada.

“Os dados parecem, de fato, ser o petróleo da era digital”, diz o Financial Times. Algo, continua o jornal, que as grandes empresas de tecnologia não querem reconhecer. Mas o acúmulo de decisões e solicitações normativas em diversos países, diz o diário econômico, aponta para um novo entendimento sobre o papéis dos dados – um ativo – e dos consumidores; um produto e não a clientela. “As empresas que anunciam nelas são os verdadeiros clientes das plataformas de tecnologia”.

O Financial Times salienta que as questões de privacidade e concorrência costumavam ser vistas separadamente. O relatório desta semana e uma série de iniciativas de outros países mudaram essa abordagem, e as duas principais vias por meio das quais as empresas de tecnologia faturam começam a ser analisadas de forma associada. Na Alemanha, os reguladores descobriram que o modelo de publicidade direcionada do Facebook, que depende da coleta de enormes quantidades de dados pessoais, é anticompetitivo porque o domínio da rede social permite que ele imponha termos injustos sobre os usuários, que têm basicamente de se inscrever ao monitoramento constante para poder acessar o produto. “O fato de o Facebook não ter concorrentes significativos torna o consentimento dado pelos usuários uma ‘ficção’”.

O The Guardian, por sua vez, afirma que, após a divulgação do relatório do Comitê de Cultura, Digital, Mídia e Esporte da Câmara dos Comuns, "políticos de todo o espectro concordam" que os poderes das grandes empresas de tecnologia devem ser contidos. “A economia de vigilância aparece como uma ameaça existencial à democracia. A autorregulação já não é suficiente. Mas é um longo caminho desde o sentimento até a política. O relatório definiu um caminho”, diz o jornal. “Os governos nunca devem controlar totalmente a internet, mas precisamos deles para proteger a sociedade de qualquer maneira".

O diário ressalta que o documento “colocou o dedo” em uma das vantagens mais importantes que o Facebook tem sobre a mídia publicitária tradicional: sabe o tudo o que seus usuários dizem sobre si mesmos, além do que outros coletores de dados fornecem sobre as pessoas que navegam na internet. Trata-se, diz o jornal, de um problema que vai bem além do Facebook. Google e seu YouTube, que raramente são mencionados no relatório do parlamento britânico, afirma o The Guardian, desempenham um papel quase tão importante na disseminação da desinformação online e estão felizes em lucrar com isso.

No entendimento do The Guardian, há um paradoxo no coração da extraordinária eficácia das grandes empresas de tecnologia. Algumas pessoas confiam no que encontram nas plataformas online em parte porque estão desiludidas com as instituições e representações políticas. Ao mesmo tempo, estão online de forma permanente, como smartphone como uma amigo que é levado para todo lugar. “Mas essa aparente intimidade é, na verdade, um lugar onde as pessoas podem ser mais profissionalmente manipuladas do que nunca, porque os anunciantes sabem muito mais sobre nós”.

Por outro lado, afirma o The Guardian, quando algumas empresas gigantes de propaganda controlam grande parte da internet, a pressão sobre elas oferece aos governos um meio de controle indireto em defesa do consumidor. A Alemanha, novamente, é o melhor exemplo disso, diz o jornal. Depois de ser ameaçado com graves multas pelo governo alemão se não removesse o discurso de ódio rapidamente, o Facebook revelou competência para atender a exigência. “Os governos nunca devem controlar totalmente a internet, mas precisamos deles para proteger a sociedade de qualquer maneira”, enfatiza o The Guardian.

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https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/feb/18/the-guardian-view-on-facebook-the-arrogance-of-power?utm_term=RWRpdG9yaWFsX01lZGlhQnJpZWZpbmctMTkwMjIw&utm_source=esp&utm_medium=Email&utm_campaign=MediaBriefing&CMP=media_email

https://www.ft.com/content/c28637b4-3447-11e9-bd3a-8b2a211d90d5