Spotify denuncia Apple na Comissão Europeia por abuso de poder Reprodução

Spotify denuncia Apple na Comissão Europeia por abuso de poder

Práticas comerciais sem transparência colocaram nesta semana dois gigantes digitais em confronto. O Spotify informou na quarta-feira (13) que apresentou uma denúncia à Comissão Europeia (CE) contra a Apple por concorrência desleal.

O diretor executivo da plataforma de streaming de música, Daniel Ek, afirmou em comunicado que a loja de aplicativos da Apple passou por mudanças que “limitam propositalmente a escolha e afogam a inovação”, atuando “como jogador e como árbitro” para tirar vantagem a respeito de outros desenvolvedores de apps. “Após tentar sem sucesso resolver estas questões diretamente com a Apple, agora pedimos que a CE entre em ação para assegurar uma concorrência justa”, afirmou Ek.

O Spotify criticou o fato de a empresa norte-americana cobrar de outras plataformas digitais uma taxa de 30% pelas compras feitas através do seu sistema de pagamento, o que obrigaria a plataforma de música a inflacionar o seu serviço premium.

Caso a taxa não seja paga, a Apple aplica uma série de restrições técnicas que limitam a experiência através do sistema, denunciou a companhia sueca. “Não estamos buscando um tratamento especial, simplesmente queremos o mesmo que outros aplicativos na loja da Apple como Uber ou Deliveroo, que não estão submetidas à taxa e, portanto, não têm as mesmas restrições”, comentou.

Além disso, reivindicou que todos os aplicativos tenham “o mesmo conjunto de regras e restrições, inclusive o Apple Music”, para que os consumidores tenham uma escolha real de sistemas de pagamento, e defendeu que as lojas de aplicativos não deveriam poder controlar as comunicações entre serviços e usuários.

Publishers frustrados

A Apple também experimenta no momento a desconfiança dos publishers. Com lançamento previsto para o próximo dia 25 de março, o serviço de assinatura de notícias da empresa de tecnologia enfrenta resistência de boa parte dos produtores de conteúdo. Há incertezas sobre se o Apple News, nova área do aplicativo de notícias já existente nos iPhones, não repetirá a frustração ocorrida com o Instant Articles, do Facebook, por exemplo, de poucos atrativos financeiros para os publishers. Além disso, de acordo com informações iniciais, as empresas noticiosas não teriam acesso aos dados dos assinantes do serviço da Apple, o que torna a oferta ainda menos atraente.

A desconfiança começa pelo baixo valor da assinatura mensal sugerida pela Apple, segundo o jornal The Washington Post, de cerca de US$ 10, e a agressiva taxa de 50% a ser recolhida pela gigante de tecnologia. A proposta da empresa liderada pelo CEO Tim Cook para os outros 50% do faturamento com assinaturas, ainda conforme o jornal norte-americano, também não é animadora para os publishers: divisão entre as empresas noticiosas com base em visualizações (engajamento por conteúdo), um modelo que se revelou perverso no passado recente.  

O valor a ser cobrado aos assinantes pelas Apple – empenhada na tentativa de reverter a queda nas vendas do iPhone –, é semelhante ao preço de serviços de streaming de música da empresa, Apple Music e iTunes, mas inferior às assinaturas mensais de jornais americanos como The New York Times (US$ 15) e The Wall Street Journal (US$ 39). No Apple News, os usuários poderão acessar uma biblioteca ilimitada de notícias, de maneira similar ao que ocorre em plataformas como a Netflix, colocando os publishers em constante competição entres eles.

Há rumores sobre o projeto da Apple desde o ano passado, principalmente depois que a empresa adquiriu o agregador de notícias Texture, mas as informações publicadas pelo The Washington Post ampliaram debate. Alguns analistas consideram pífia a proposta. "Para uma indústria que viu demissões crescentes – mais de 2 mil funcionários foram demitidos nas últimas semanas no BuzzFeed, Vice, HuffPost, Gannett e McClatchy –, a notícia veio como um golpe”, disse Mathew Ingram, do site Columbia Journalism Review. “Muitos ficaram indignados com o fato de que uma das empresas mais valiosas do mundo, um gigante com US$ 245 bilhões em caixa, receberia uma parte tão significativa da receita do plano proposto, enquanto afirma sobre o quanto se preocupa com o jornalismo”.

A jornalista Casey Newton, citada por Ingram, chamou a proposta de “obscena” e disse que o fato de a Apple pensar em uma participação de 50% é “um sinal preocupante da concentração do poder tecnológico”. O que se reflete na intenção da empresa de tecnologia, seguindo um costume das gigantes do setor, de não compartilhar os dados dos assinantes. O acesso a nomes de usuários, números de cartões de crédito e endereços de e-mail, afirmou Ingram, poderia tornar a parte da receita dos publishers (50%) mais palatável. “Mas, de qualquer forma, manter todos esses dados apenas reforça como todo o poder está nas mãos da Apple.”

Casey Newton, do The Verge, observou não há nada nos recursos do iPhone que justifique 50% da receita. A proposta da Apple, disse, deve "enviar os editores na direção contrária". O analista de tecnologia Ben Thompson comentou em seu boletim Stratechery que a Apple está fazendo o que os agregadores sempre fazem: usando o conteúdo de outros para atrair usuários.

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https://techcrunch.com/2019/03/13/daily-crunch-spotify-apple/