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Atual diretora de redação do jornal, Maria Cristina Frias, durante sessão especial Atual diretora de redação do jornal, Maria Cristina Frias, durante sessão especial Reprodução/Geraldo Magela/Agência Senado

Senado homenageia 98 anos da Folha de S.Paulo e Otavio Frias Filho

O Senado Federal homenageou nesta quinta-feira (14), em sessão especial, o jornal Folha de S.Paulo, que completou 98 anos de atuação no dia 19 de fevereiro, e também o trabalho do jornalista Otavio Frias Filho, diretor de redação do diário que morreu em agosto do ano passado, aos 61 anos.

Durante a sessão, realizada por requerimento da senadora Kátia Abreu (PDT-TO), a atual diretora de redação do jornal, Maria Cristina Frias, defendeu a importância do jornalismo independente para a democracia e sintetizou a linha editorial da Folha de S.Paulo, informou o site do Senado. “A ideia central do jornalismo que praticamos é que os poderes numa sociedade democrática precisam ser contrastados, não podem ser exercidos sem crítica ou contrapeso, sob o risco de se desviarem para o arbítrio.

O jornalismo, disse Maria Cristina, não pode ser exercido “num vácuo de autocritica e controle internos”. Ela destacou que, mesmo quando o jornalismo é praticado sob estritos protocolos técnicos, a capacidade de enxergar todo o campo é limitada – até pela natureza apressada do ofício – e incompleta do objeto. “É um fiapo de história que ainda não se revelou por inteiro”.

Maria Cristina Frias reconheceu que o jornalismo está sujeito a cometer erros e impropriedades. Uma maneira de reduzir esse risco, observou, é instalar mecanismos de autocontrole. “A Folha tem como rotina inarredável ouvir os argumentos de quem foi criticado nas matérias. Cultiva a pluralidade no seu quadro de jornalistas, colunistas e articulistas. O intuito é permitir o florescimento de um jornalismo crítico e preciso e leal com leitores, fontes e personagens da notícia”.

Pluralismo

O senador Eduardo Braga (MDB-AM) afirmou que a Folha de S.Paulo se guia por apartidarismo, pluralismo e crítica fundamentada, e por isso é a principal referência de jornal impresso do Brasil. Ele destacou que o jornal foi pioneiro em trazer a impressão offset, acabou com os moldes de chumbo, instalou o maior parque gráfico da América Latina e, na área editorial, revolucionou a velha maneira de fazer jornalismo ao instalar, por exemplo, a figura do ombudsman.

O senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), ainda conforme o site do Senado, disse que a Folha de S.Paulo não é apenas um órgão noticioso, mas verdadeiro agente transformador do processo de redemocratização. “A Folha ajudou o país a construir e a contar a História do Brasil dos últimos quase 100 anos, e isso não é pouca coisa. Nós somos frutos dessa história”, disse. O jornal, continuou, teve papel fundamental na promulgação da Constituição de 1988, nas primeiras eleições presidenciais, no impeachment de Fernando Collor e na instalação do Plano Real.

Crítica à censura aos jornais

O trabalho da Folha no impeachment de Collor foi relembrado pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que, na época, fazia parte do movimento estudantil. “A Folha deu espaço ao contraditório, deu voz aos militantes, foi a primeira a cunhar o termo ‘cara-pintada’” lembrou. Rodrigues também falou do papel dos jornais nos dias de hoje e criticou a censura à imprensa.

“No passado era empastelando os jornais, invadindo as redações; hoje é tentando destruir jornalistas pelas redes sociais. Agora foi com o Estadão, mas já foi com a Folha, com a Globo”, disse o senador, em referência ao recente tweet do presidente da República, Jair Bolsonaro, contra a jornalista Constança Rezende, do jornal Estado de S. Paulo.

O senador Humberto Costa (PT-PE) comentou a atuação da Folha de S.Paulo na “fiscalização, denúncia, construção de uma visão crítica, de mostrar defeitos, problemas e insuficiências” de governos. “Na [última] eleição, corajosamente denunciou interferência importante no processo eleitoral, colocando-se ao lado do que era justo e correto, independentemente do que aconteceria. Sua posição é corajosa hoje em dia para criticar posturas que podem agredir a democracia”, afirmou.

Representante do Supremo Tribunal Federal (STF) na sessão, o ministro Gilmar Mendes reconheceu o trabalho do jornal e de Frias. “Nem sempre gostei do que a Folha publicou sobre o meu desempenho, discordei da opinião do jornal muitas vezes, mas sempre considerei que a imprensa livre não existe para agradar a este ou aquele, tampouco a mim. E sempre reconheci no jornal e naquele que o comandou com brilho e talento, a honestidade de propósito. O grande valor da democracia está nas divergências”,  disse o ministro.

Obsessão pela autocrítica

O jornalista Josias de Souza destacou a “obsessão” de Otavio Frias Filho pela autocrítica. Ela se traduz, por exemplo, na seção Erramos, e por meio da figura do ombudsman, da qual a Folha foi vanguardista. Sobre esse trabalho, o senador Weverton (PDT-MA) disse que a Folha teve “uma sabedoria política extraordinária ao entender que o jornalismo precisa autocriticar-se, verificando quais são os erros e acertos”. “Nessa linha editorial independente, a Folha acolheu a pluralidade do pensamento”, acrescentou.

O acolhimento à pluralidade também foi destacado pelo senador José Serra (PSDB-SP). Ele lembrou o momento em que passou a escrever para a Folha, depois de viver no exterior nos anos de regime militar. O senador Jorge Kajuru (PSB-GO) também contou sua experiência como jornalista da Folha. “A imprensa não foi feita para bajular ninguém e a Folha é exemplo disso. Foi o único jornal brasileiro que deu espaço para perseguidos políticos e intelectuais falarem.”.

Jornalista por formação, a senadora Eliziane Gama (PPS-MA) destacou o protagonismo de Frias para revolucionar o jornal. “Foi o veículo que mais se notabilizou na transição do Brasil do regime militar para o democrático”, acrescentou a senadora. A senadora Kátia Abreu, por sua vez, contou como conheceu e foi amiga de Otavio Frias Filho por mais de uma década. Disse que o convidou para conhecer o Jalapão, em seu estado. “Se estivesse na sede da Folha ou ao lado dos artesãos do Jalapão, era a mesma pessoa simples e correta. Não conheci alguém mais culto e mais civilizado, sempre disposto a discutir saídas para o Brasil”, afirmou.

Marco na história do jornalismo

O diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, ressaltou que Otavio Frias Filho foi o idealizador do Código de Ética da entidade, que contém os princípios de autorregulamentação “que consagram tudo aquilo que simboliza o bom jornalismo que defendemos: independência, busca permanente da verdade, profissionalismo, compromisso com os valores da democracia e reconhecimento e correção dos erros”.

Os 98 anos que a Folha de S.Paulo completa em 2019, assinalou Pedreira, também simbolizam esses princípios. “Toda essa longevidade está diretamente relacionada à capacidade da Folha de fazer jornalismo profissional e de qualidade, de se modernizar e se atualizar, de estar atenta aos anseios e interesses da Nação, dos cidadãos, dos seus leitores”.

Foi em sintonia com as mudanças que o Brasil atravessou na década de 1980, disse Pedreira, que Otávio Frias Filho implantou na Folha de S.Paulo o Projeto Editorial que resulta no jornalismo crítico, plural, apartidário e irrequieto que são a marca deste grande jornal. “O Projeto Folha, como passou a ser chamado, é um marco na história do jornalismo brasileiro”.

Estas qualidades são evidentes hoje na Folha, em benefício dos seus leitores, em meio à revolução deflagrada pela internet, pelas mídias digitais, pelas redes sociais, lembrou o diretor executivo da ANJ. “As informações e a opiniões trafegam em alta velocidade, em todas as direções, e isso é muito positivo. Mas cresceu assustadoramente a disseminação da informação falsa, conferindo ainda mais valor à informação de credibilidade que é a essência do bom jornalismo que a Folha de S.Paulo representa”.

Mais jornalismo e liberdade de imprensa

Contra as informações falsas, o melhor antídoto é mais jornalismo, é mais liberdade de imprensa, defendeu Pedreira. “Por isso, é essencial a existência de veículos como a Folha. E é auspicioso o crescimento que a Folha e tantos outros jornais estão tendo nas suas audiências digitais. Pois a verdade é que, ao contrário do que muita gente diz, nunca se leu tanto jornal quanto nos dias de hoje”.

Os jornais, ressaltou o diretor executivo da ANJ, são lidos não apenas no papel, mas nos computadores e, principalmente, nos celulares a gente tem na palma da mão a notícia apurada com profissionalismo, editada e contextualizada com critério e ética, dentro do objetivo de dar aos cidadãos a visão do mundo que as cerca. Por isso, reforçou Pedreira, o livre exercício do jornalismo é tão importante para as nossas vidas e é inseparável da democracia. Só com informação de qualidade, com o debate aberto, poderemos construir os consensos necessários à prosperidade.

“Ao homenagear nesta Sessão Especial do Senado a Folha de S.Paulo e Otavio Frias Filho estamos homenageando, acima de tudo, o jornalismo e a liberdade de imprensa”,  disse Pedreira. Ao lamentar a morte precoce de Otávio Frias Filho, o diretor executivo da ANJ enfatizou que o jornalista iluminou o caminho jornalístico do país com seu apreço pelo profissionalismo, sua obstinação pela informação precisa e a valorização do pluralismo.

“A Folha segue com brilho a direção apontada por Otavio. A ANJ cumprimenta Maria Cristina e todos aqueles que fazem a cada dia, a cada minuto, a Folha de S.Paulo. Que vocês prossigam com sua missão, assim como todos os que fazem jornalismo profissional, independente e de qualidade em nosso país. Repito: precisamos de mais e mais jornalismo, precisamos de mais e mais liberdade de imprensa.”

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