Análise de métricas sustenta decisão do The Guardian de datar de forma explícita suas postagens para evitar o uso malicioso dos textos nas redes sociais Reprodução

Análise de métricas sustenta decisão do The Guardian de datar de forma explícita suas postagens para evitar o uso malicioso dos textos nas redes sociais

As métricas aplicadas pelas redações há muito ultrapassaram a simples lógica das páginas vistas, usuários únicos e interação simplificada (cliques e compartilhamentos, por exemplo). Os sistemas de medidas estão mais sofisticados, mas podem resultar em nada se os dados não forem avaliados sob critério jornalístico. Essa prática não apenas facilita a produção de qualidade, mas também é mais uma arma contra a desinformação na internet, como revela um recente caso vivenciado pelo jornal britânico The Guardian, que acabou motivando o jornal a decidir marcar de forma explícita a data de todas as suas publicações antigas em seu site e nas mídias sociais.

O objetivo da iniciativa, conta Chris Moran, editor de projetos estratégicos do The Guardian, é impedir que essas reportagens sejam manipuladas em ações enganosas para que se tornem virais. Anteriormente, o jornal havia alertado os leitores quando uma reportagem tinha vários meses ou anos de idade com um aviso sob o carimbo de tempo no lado esquerdo dos artigos e na seção “mais visualizada” online. Agora, a guerra continuada em notícias falsas levou o The Guardian a mover este aviso para o topo dos artigos relevantes, acima da manchete, onde também fica destacado em amarelo.

Moran diz que houve um aumento de páginas partidárias no Facebook, além de ações em outras mídias interativas, compartilhando conteúdo antigo como se tivesse sido publicado recentemente “para apoiar objetivos específicos”. O jornalista conta que o jornal percebeu com mais clareza a necessidade de tomar uma medida mais drástica ao analisar os resultados de métricas de algumas postagens. Um dos casos mais emblemáticos é a postagem do diário sobre um ataque a bomba a uma igreja do Paquistão.

Desinformação propagada via Facebook

Às 7 da manhã de 18 de março, Nick Dastoor, da equipe de audiência do The Guardian, escreveu Moran no site Columbia Journalism Review, começou a trabalhar no e-mail diário da equipe que detalha como o público responde às histórias no dia anterior e o que é o possível aprender com os relatos. Dastoor abriu o Ophan, ferramenta de análise do The Guardian que permite rastrear histórias nos mínimos detalhes, e notou um aumento contínuo nas visualizações de páginas para o artigo sobre o ataque a bomba na igreja no Paquistão.

O jornalista sabia que as 51 mil páginas vistas vinham quase inteiramente do Facebook, que o público estava vendo principalmente a história em seus celulares, que o público era global e principalmente novo em relação à audiência do jornal. Além disso, o The Guardian não estava promovendo a reportagem, e estava evidente que foi provavelmente impulsionado por páginas de determinados grupos hospedadas no Facebook. Muitos leitores estavam gastando apenas alguns segundos na história de 942 palavras. Ficou claro para Dastoor que o que estava acontecendo nada tinha a ver com audiência motivada por jornalismo.

Além do fato de que muitos dos autores das postagens que replicaram a notícia condenavam o restante da mídia por não cobrir o fato, Dastoor logo percebeu que o texto era sobre um acontecimento de 2013, e a nova e frenética audiência claramente não sabia disso, pois não havia interação com a reportagem original, apenas com as postagens. “É difícil saber exatamente como e quando o renascimento deste artigo começou, mas sabemos que nos últimos dias ele foi compartilhado em uma coleção de páginas do Facebook de extrema direita e islamofóbicas, sem qualquer sugestão de que isso tenha acontecido há mais de cinco anos”, relatou Dastoor naquele dia.

Os dados sinalizaram que claramente não estávamos fazendo o suficiente para resolver, enfatiza Moran: “As pessoas, maliciosamente ou não, podem usar os reportagens antigas para se adequarem à sua própria agenda e, às vezes, espalhar o ódio”. O movimento que está sendo feito agora é "um esforço para melhorar a transparência e contextualizar o nosso jornalismo com precisão", disse.

Confiança, destaca Moran, é parte integrante do jornalismo responsável, e O The Guardian leva suas responsabilidades a sério. “Não é possível controlar todas as ações em todas as plataformas no mundo digital, mas acreditamos que esses passos tornarão cada vez mais difícil para os maus atores usarem o jornalismo para fins errados, e ajudarão os leitores a ter um contexto claro em torno de nossos artigos, independentemente de quando foi publicado”.

Leia mais em:

https://www.pressgazette.co.uk/guardian-fake-news-bid-timestamps-social-sharing/

https://www.bbc.com/news/technology-47799878

https://www.cjr.org/innovations/you-may-hate-metrics-guardian-audience-twitter-images.php

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