Desinformação nas redes sociais mantém poder de fogo em eleição na Índia e deve continuar presente nos pleitos futuros Reprodução/BBC

Desinformação nas redes sociais mantém poder de fogo em eleição na Índia e deve continuar presente nos pleitos futuros

Considerada a maior eleição do mundo, o pleito da Índia, iniciado nesta quinta-feira (11), coloca novamente em evidência o flagelo da desinformação nas redes sociais com o objetivo de manipular a política e estabelecer o ódio para dividir as sociedades, em especial nos períodos eleitorais. Assim como nas eleições brasileiras de 2018, o principal propagador de notícias falsas entre os indianos é o aplicativo de mensagens WhatsApp, pertencente ao Facebook. A repetição do problema sinaliza que futuras eleições importantes, como a da Indonésia, no dia 17 deste mês, a do Parlamento Europeu, em maio, e a da presidência dos Estados Unidos, em 2020, estão fadadas ao mesmo cenário, que pode influenciar a decisão do eleitorado.

Na Índia, relatou a Associated Press (AP), autoridades eleitorais lutam para combater a disseminação de notícias falsas que começaram a circular há meses e, segundo a Comissão Eleitoral, podem até decidir os resultados de uma eleição que promete ser acirrada. O pleito ocorre em um contexto conturbado. De um lado está o Partido Bharatiya Janata, do primeiro-ministro Narendra Modi, que busca um segundo mandato com políticas que, segundo alguns, aumentaram as tensões religiosas e minaram o multiculturalismo; de outro está a oposição, que investe consideravelmente em anúncios nas redes para tentar conquistar os eleitores descontentes.

Em cenários polarizados como esse, notícias falsas ganham força, dizem especialistas. Na Índia, a situação é ainda mais complexa. No entanto, as empresas de interação na web, principalmente o Facebook – e seu WhatsApp, mais recentemente – prometem, e não cumprem, encontrar soluções para o problema desde 2016, na eleição que levou o republicano Donald Trump à Casa Branca, e de forma mais enfática em março de 2018, após a revelação do vazamento de dados de milhões de usuários, por meio da parceria com a consultoria Cambridge Analytica, que participou da propaganda eleitoral do republicano.

Em relação ao mercado indiano, o Facebook também encontra dificuldades para alegar desconhecimento e incapacidade para lidar com as variáveis do país. A empresa sabe que as notícias falsas são um enorme desafio na Índia, uma nação com 1,14 bilhões de conexões de celulares, a maioria dos usuários do Facebook no mundo (340 milhões), e outros 240 milhões de usuários do serviço de mensagens WhatsApp. Além disso, a maior democracia do mundo (até 879 milhões de pessoas devem votar ao longo de cinco semanas) é, segundo especialistas, também a que tem uma das populações mais suscetíveis a acreditar em conteúdos falsos, informou a AP.

A reportagem da agência relatou, por exemplo, os hábitos dos comerciantes Ram Shankar Rai, dono de uma loja em Nova Déli, passa pelo menos duas horas por dia consumindo notícias compartilhadas nas redes sociais. Ao receber no WhatsApp uma enxurrada de vídeos e fotos sobre um ataque aéreo indiano no Paquistão ele não duvida nem por um instante da autenticidade do conteúdo, diz a AP. Na verdade, os registros são do terremoto que aconteceu em 2005 no Paquistão. “É novidade, como pode ser falso?”, diz Ram.

Outro exemplo de notícia falsa apareceu no Facebook em fevereiro, após um atentado suicida na Caxemira, uma área reivindicada tanto pela Índia quanto pelo Paquistão. O atentado matou 40 soldados indianos e aumentou as tensões entre os dois lados. Duas semanas após o ataque, um usuário do Facebook compartilhou uma gravação do que ele disse ser uma ligação telefônica na qual o chefe do BJP, Amit Shah, estava falando. Shah foi supostamente ouvido dizendo: "Concordamos que, para a eleição, precisamos de uma guerra". Mas a gravação não foi real. Foi feito juntando diferentes partes de áudio de histórias antigas. A postagem no Facebook foi vista por 2,5 milhões de espectadores e compartilhada mais de 150 mil vezes antes de ser removida pela empresa.

Ações insuficientes

Um código de ética, que inclui a proibição de anúncios de campanha por pelo menos 48 horas antes do início das votações, foi adotado pelas gigantes das mídias sociais no país, mas a Comissão Eleitoral não acredita que isso seja suficiente. De acordo com N. Gopalaswami, ex-comissário chefe da Comissão, não foi feito o suficiente e as notícias falsas devem ter papel relevante na decisão. Na opinião dele, as autoridades deveriam ter estabelecido penalidades para partidos políticos e para plataformas como Facebook, WhatsApp e Twitter.

Além do documento com diretrizes coletivas, cada empresa adotou estratégias próprias para tentar conter a disseminação de conteúdos falsos no país. O Facebook, desde o mês passado, começou a bloquear contas falsas e usar organizações externas de checagem. O WhatsApp montou campanhas para ensinar os usuários a identificarem o que é verdadeiro. O Twitter não adotou medidas específicas.

"É um espaço adverso. Isso significa que sempre teremos que nos adaptar. Sempre vemos novas ameaças surgindo", disse Kaushik Iyer, gerente de engenharia do Facebook que trabalha com integridade e segurança nas eleições. Na Índia, como bem sabe Iyer, postagens e vídeos em mais de uma dúzia de idiomas regularmente desconcertam o software de triagem automatizado do Facebook e seus moderadores humanos, ambos construídos em grande parte em torno do inglês. Muitos posts problemáticos vêm diretamente de candidatos, partidos políticos e da mídia.

No WhatsApp, onde as mensagens são criptografadas, a empresa tem pouca visibilidade do que está sendo compartilhado. "As eleições indianas em 2019 são um teste importante para o sucesso de 2020 e para a condução das eleições em todos os lugares", admitiu Graham Brookie, diretor do Laboratório Digital de Pesquisa Forense do Atlantic Council, uma think tank que trabalha com o Facebook para estudar campanhas de desinformação. No ano passado, dezenas de civis foram mortos em linchamentos após boatos espalhados sobre eles no WhatsApp.

Os internautas indianos, muitos dos quais são relativamente novos na web, podem não ter a consciência de que “só porque está em uma tela não significa que seja verdade”, disse à AP Apar Gupta, que dirige um grupo chamado Internet Freedom Foundation (Fundação Internet Livre, na tradução). Além disso, segundo o jornal Folha de S.Paulo, WhatsApp afirma que as campanhas violam as regras da plataforma ao usar sistemas automatizados para fazer disparos em massa de mensagens. A prática ganha nova escala no ciclópico pleito indiano.

O problema da Índia com notícias falsas não é novo, e já mostrou que pode ter consequências graves. No final de 2018, pelo menos 20 pessoas foram mortas em ataques de gangues que foram desencadeadas por rumores nas mídias sociais sobre crianças sendo sequestradas em aldeias. Os verificadores de fato, alguns deles trabalhando em parceria com o Facebook, dizem que no período que antecedeu a votação viram de tudo, desde imagens manipuladas captadas pelos principais meios de comunicação, até citações deturpadas que provocaram divisões comunais, notícias falsas e propaganda odiosa.

Gupta disse que a Comissão Eleitoral deveria ter reforçado a responsabilidade por partidos políticos e plataformas de mídia social como Facebook, Twitter e WhatsApp, com penalidades por violações. "A Índia claramente não fez o suficiente", disse ele, acrescentando que parte da responsabilidade recai sobre as plataformas de mídia social.A Internet cresceu e está tendo que deixar a casa de seus pais e encontrar um emprego", dissee, sugerindo que as plataformas devem ajustar seus algoritmos de mecanismo de busca para avaliar a credibilidade das fontes mais fortemente do que anúncios e conteúdo viral.

No começo de abril, o Facebook informou que removeu centenas de páginas e contas enganosas associadas ao BJP e seu principal rival, o Congresso Nacional Indiano, muitos dos quais estavam publicando informações falsas. A rede social também removeu mais de 100 páginas falsas e contas controladas pelos militares paquistaneses.

Sem garantias

O Facebook anunciou ajustes no seu serviço de mensagens, mas não pretende com isso impedir o estrago da desinformação nas eleições da Índia. Este é o entendimento que se tem ao analisar o que Zuckerberg disse na terça-feira (2), ao comentar as eleições na União Europeia. O bilionário afirmou que sua plataforma é muito melhor do que era em 2016 em combater a interferência eleitoral, mas não pode garantir que o site não seja usado para prejudicar as eleições do Parlamento Europeu em maio.

Apesar dos problemas verificados em vários pleitos, como o brasileiro, Zuckerberg disse que, desde 2016, houve muitas eleições relativamente limpas que demonstraram as defesas que a companhia construiu para proteger a integridade delas. “Nós certamente fizemos muito progresso... Mas não, eu não acho que alguém possa garantir em um mundo onde você tem nações que estão tentando interferir nas eleições, não há uma única coisa que possamos fazer e dizer que a questão está resolvida”, disse Zuckerberg em entrevista à emissora nacional irlandesa RTE. “Esta é uma corrida armamentista em curso, onde estamos constantemente construindo nossas defesas e esses governos sofisticados também estão evoluindo suas táticas.”

Minando a democracia

Colunista do jornal britânico The Guardian e professor de estudos de mídia na Universidade de Virgínia, Siva Vaidhyanathan comenta que a eleição da Índia é exemplar para mostrar os danos que o Facebook causa na sociedade, bem antes e, também, depois do escândalo da Cambridge Analytica. O gigantesco vazamento dados revelado no começo de 2018, segundo ele, começou a abrir os olhos das pessoas sobre problemas que há muito estavam presentes, e continuam presentes na maior rede social do mundo e em suas outras plataformas (Instagram e WhatsApp). 

Há muito os atores políticos descobriram como usar o Facebook com bastante habilidade, diz o especialista, e o primeiro-ministro indiano Narendra Modi foi um dos pioneiros. Em 2014, na eleição vencida por Modi, assim como em 2016, quando Rodrigo Duterte foi eleito nas Filipinas, o Facebook tinha funcionários ajudando-os a trabalhar com o sistema de maneira mais eficiente. O Facebook, diz Vaidhyanathan, gabava-se do fato de que tanto Modi quanto Duterte eram experientes no Facebook, os candidatos mais conectados de todos os tempos.

“Na verdade, Narendra Modi tem mais amigos e seguidores no Facebook do que qualquer outra figura política no mundo. Ele é o mestre do Facebook. Não é coincidência que Narendra Modi e Rodrigo Duterte sejam líderes nacionalistas perigosos que ou defenderam diretamente a violência contra as pessoas, o seu próprio povo”, destaca Vaidhyanathan.

Os números superlativos dos dois mandatários no Facebook, e a forma como usam a rede social, afirma Vaidhyanathan, é uma amostra que como a empresa norte-americana não se preocupou, por quase uma década, que vários grupos, patrocinados pelo Estado ou patrocinados por agrupamentos com determinados interesses políticos, estavam surgindo em torno da plataforma, não apenas nos Estados Unidos e não apenas em referência a uma eleição, mas em todo o mundo, “num esforço concentrado ou, de alguma forma, num esforço distribuído, para minar a democracia e a sociedade civil”.

O que ocorre desde a eleição de 2016 nos Estados Unidos, continua o especialista, é que toda vez que há uma grande eleição em todo o mundo, o Facebook tomará iniciativas para reivindicar que está limpando sua participação naquele pleito. Houve, segundo Vaidhyanathan, avanços reais nas eleições da Alemanha, Holanda e França, por exemplo. “Mas não tem feito muito em outros lugares do país. Não fez quase nada no México antes de sua eleição. Até agora não surgiu nenhuma estratégia para lidar com a bagunça muito maior na Índia, a maior democracia do mundo”.

Nesses países, o Facebook deu preferência ao seu modelo de negócio capaz segmentar pessoas com bastante precisão, como fez última eleição presidencial dos Estados Unidos. “É a razão pela qual o Facebook ganha tanto dinheiro. E isso está tirando todo o dinheiro da mídia e do jornalismo”, lamenta Vaidhyanathan.

Leia mais:

 

https://www.economist.com/business/2019/04/04/facebooks-ad-system-seems-to-discriminate-by-race-and-gender

https://s2.washingtonpost.com/128af34/5ca517e7fe1ff677b1fdbd67/Y2EubXVsbGVyQHVvbC5jb20uYnI%3D/8/40/aa0285fc7c1cc75a0a55af8aecbb27e6

https://s2.washingtonpost.com/128af33/5ca517e7fe1ff677b1fdbd67/Y2EubXVsbGVyQHVvbC5jb20uYnI%3D/6/40/aa0285fc7c1cc75a0a55af8aecbb27e6

https://www.buzzfeednews.com/article/ryanhatesthis/facebook-page-thousands-ads-fake-solar-rebate?utm_source=Sailthru&utm_medium=email

https://www.tecmundo.com.br/redes-sociais/138205-consultor-financeiro-britanico-entra-acordo-milionario-facebook.htm

https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,pesquisadores-pedem-que-amazon-pare-de-vender-reconhecimento-facial-a-policia,70002778266

https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,dados-de-540-milhoes-de-usuarios-do-facebook-foram-expostos-em-servidores-sem-senhas,70002778386

https://oglobo.globo.com/economia/milhoes-de-dados-de-usuarios-do-facebook-foram-expostos-em-nuvem-da-amazon-23570857

https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,facebook-pediu-senha-de-e-mails-pessoais-de-novos-usuarios-diz-site,70002778002

https://www.cjr.org/analysis/publishers-facebook-payment.php?utm_source=API+Need+to+Know+newsletter+utm_medium=email&utm_term=0_e3bf78af04-5cc668f87e-45815109

 

https://br.reuters.com/article/internetNews/idBRKCN1RF1E1-OBRIN

 

https://www.fastcompany.com/90329130/now-facebook-is-asking-for-your-emails-password-if-you-want-to-use-the-site?utm_source=postup&utm_medium=email&utm_campaign=Fast% 20Company% 20Daily & position = 8 & partner = newsletter & campaign_date = 04032019

 

https://es.reuters.com/article/technology/idESKCN1RE0DJ

https://www.reuters.com/article/us-facebook-privacy/millions-of-facebook-records-found-on-amazon-cloud-servers-upguard-idUSKCN1RF2C0

https://www.nytimes.com/2019/04/01/technology/india-elections-facebook.html

https://www.nytimes.com/2019/04/03/world/australia/social-media-law.html

https://www.theguardian.com/politics/2019/apr/04/inquiry-launched-into-data-use-from-no-deal-brexit-ads-on-facebook

https://www.apnews.com/642ead4f6f0c445bb74f134a225d095a