Brasil piora em ranking de liberdade de imprensa que revela violência insuflada por discurso de ódio contra jornalistas em todo o mundo Reprodução

Brasil piora em ranking de liberdade de imprensa que revela violência insuflada por discurso de ódio contra jornalistas em todo o mundo

O discurso do ódio, em parte promovido por líderes políticos de vários países, contra os jornalistas se transformou em violência em todo o mundo, mostra a edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, publicado nesta quinta-feira (19) pela organização Repórteres sem Fronteiras (RSF). O Brasil caiu três posições no ranking e, agora, ocupa o 105º lugar, cada vez mais próximo da zona vermelha da classificação (que indica situação difícil para profissionais de imprensa). Ameaças, insultos e agressões fazem agora parte dos “riscos ocupacionais” da profissão em muitos países, afetando também os profissionais brasileiros. Há, consequentemente, um aumento do medo na profissão.

No Brasil, a eleição de Jair Bolsonaro em outubro de 2018, após uma campanha marcada por discursos de ódio, desinformação, ataques à imprensa e desprezo pelos direitos humanos, é um prenúncio de um período sombrio para a democracia e a liberdade de expressão no país, afirma o documento da RSF. “Em um país onde dois terços da população se informam pelas redes sociais, a plataforma de mensagens WhatsApp desempenhou um papel central na campanha (...) e tomou o lugar das fontes tradicionais de informação”, afirma o relatório. “Nesse contexto tenso, os jornalistas brasileiros tornaram-se um alvo preferencial, e são regularmente atacados por grupos disseminadores de ódio, especialmente nas redes sociais.”

Na Venezuela, a situação é igualmente preocupante. Este ano, o país perdeu mais cinco posições e se aproxima perigosamente da parte mais baixa do ranking (que avalia a situação do jornalismo anualmente em 180 países e territórios), em 148º lugar. Em 2018, a repressão se intensificou contra a imprensa e a RSF registrou um número recorde de detenções arbitrárias e casos de violência contra jornalistas praticados por forças de segurança e pelos serviços de inteligência. “Houve uma migração em massa de jornalistas mais jovens”, explicou ao jornal O Globo a jornalista Luz Mely Reyes, uma das criadoras do site Efecto Cocuyo. “Além da crise do modelo jornalístico, que é internacional, e da crise econômica interna, há perseguição e censura prévia, levando muitos profissionais a deixarem o país”.

No ano passado, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) da Venezuela ainda suspendeu o sinal de canais de rádio e televisão considerados muito críticos, e dezenas de jornalistas estrangeiros foram detidos, interrogados e deportados. A deterioração da situação levou muitos profissionais de imprensa a deixarem o país para fugir de ameaças e preservar sua integridade física.

Este ano, o continente americano registrou a maior degradação do indicador regional, um resultado que não se deve apenas ao mau desempenho no Brasil e na Venezuela, mas também em países como Nicarágua e até Estados Unidos, hoje em 48º lugar no ranking. O país, onde um clima cada vez mais hostil se instalou na esteira da postura do presidente Donald Trump frente aos meios de comunicação, perdeu três posições em 2019 e caiu na zona laranja, onde se situam nações consideradas problemáticas para o exercício do jornalismo.

A Nicarágua, que caiu 24 posições, sofreu uma das quedas mais significativas em 2019. Lá, os jornalistas que cobrem os protestos contra o governo de Daniel Ortega, vistos como oponentes, são frequentemente agredidos. Muitos deles foram forçados ao exílio para escapar de ameaças e acusações de envolvimento com o terrorismo.

O continente abriga também um dos países mais mortais do mundo para exercer a profissão, o México, onde pelo menos dez jornalistas foram assassinados em 2018. Entretanto, a chegada ao poder do presidente Andrés Manuel López Obrador, em dezembro de 2018, após uma campanha eleitoral marcada por numerosos ataques a jornalistas, acalmou em alguma medida as relações entre o poder público e a imprensa mexicana, mostra o relatório. A transição política, junto a uma diminuição relativa no número de assassinatos no país (onze casos em 2017), justificam um ligeiro avanço do país no ranking, subindo três posições.

Na Europa, ataques verbais contra a profissão e uma retórica antimídia de maneira geral também estão cada vez mais presentes em muitas democracias, indica o texto publicado nesta quinta-feira. “Os jornalistas são declarados indesejados, ameaçados, e são insultados por personalidades que estão no mais alto nível do poder”.

A tendência está crescendo, particularmente na França, onde o líder do partido  França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, declarou que o ódio aos jornalistas era “saudável e justo”. No país, o ódio à mídia, uma das principais características da raiva dos “coletes amarelos”, é a ilustração mais preocupante disso, e foi brutalmente manifestada com agressões e intimidações sem precedentes. Uma repórter da “La Dépêche du Midi“ chegou a ser ameaçada de estupro e insultada por uma horda de manifestantes revoltados em Toulouse em janeiro.

O documento da RSF mostra ainda que o número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança sua atividade profissional continua diminuindo, enquanto os regimes autoritários reforçam seu controle sobre os meios de comunicação. É o caso da Rússia, em 149º lugar, onde o Kremlin aumentou a pressão contra a mídia independente na Internet, com prisões, buscas arbitrárias e leis mordaças.

A África, por sua vez, teve a menor degradação regional da edição de 2019 do ranking. Uma mudança de regime permitiu que a Etiópia esvaziasse suas prisões de jornalistas e desse um salto espetacular de 40 posições. Foi também uma alternância política que permitiu a Gâmbia apresentar uma das altas mais importantes do relatório, subindo 30 posições.

Apenas 24% dos 180 países e territórios exibem uma situação considerada "boa" ou "relativamente boa" (categorias respectivamente branca e amarela na escala de cores do Ranking) em comparação com 26% no ano passado. Os Estados Unidos (48º), onde um clima cada vez mais hostil se instalou na esteira da postura do presidente Donald Trump frente aos meios de comunicação, perderam três posições em 2019 e caíram na zona laranja, onde se situam os países considerados problemáticos para o exercício do jornalismo.

Nova realidade nos EUA

Os jornalistas norte-americanos nunca haviam sido alvos de tantas ameaças de morte. Tampouco haviam recorrido a empresas privadas para garantir sua segurança. O ódio aos meios de comunicação é tanto que, em Maryland, um homem abriu fogo deliberadamente na redação do diário local de Anápolis, The Capital Gazette, deixando cinco mortos. O assassino havia compartilhado amplamente a sua raiva do jornal nas redes sociais.

 “Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”, alerta Christophe Deloire, secretário geral da RSF. “Deter esse mecanismo do medo é absolutamente urgente para mulheres e homens de boa vontade que prezam as liberdades adquiridas ao longo da história."

Leia mais em:

https://rsf.org/pt/ranking-mundial-da-liberdade-de-imprensa-2019-mecanica-do-medo

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-perde-posicoes-e-cai-para-105-lugar-em-ranking-mundial-de-liberdade-de-imprensa,70002796036

https://oglobo.globo.com/mundo/discurso-do-odio-contra-jornalistas-cresce-no-mundo-inclusive-no-brasil-23607549