Bolsonaro ajusta discurso e diz que país precisa da imprensa Reprodução/Poder360

Bolsonaro ajusta discurso e diz que país precisa da imprensa

O presidente Jair Bolsonaro, que tem o contumaz hábito de depreciar o jornalismo, defendeu nesta quinta-feira (18) a mídia noticiosa. Em discurso na cerimônia de comemoração do Dia do Exército no Comando Militar do Sudeste, em São Paulo, Bolsonaro disse que a democracia brasileira precisa da imprensa.

As declarações do mandatário brasileiro chegam logo após o registro de uma série de ataques às liberdades de expressão e de imprensa nos últimos dias – com destaque para a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes na qual ele ordenou que a revista digital Crusoé retirasse do ar reportagem citando o presidente da Corte, Dias Toffoli.

“Que pese alguns percalços entre nós, nós precisamos de vocês para que a chama da democracia não se apague”, disse Bolsonaro, dirigindo-se à imprensa, mas sem mencionar o episódio do STF. A decisão de Moraes foi classificada por especialistas e entidades de defesa do jornalismo e de direitos humanos como censura ao veículo, que publicou informações que constam de inquérito da Lava-Jato no âmbito da Justiça Federal em Curitiba.

O discurso de Bolsonaro foi feito no mesmo dia em que relatório da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) mostra que o Brasil caiu três posições no ranking e, agora, ocupa o 105º lugar, cada vez mais próximo da zona vermelha da classificação (que indica situação difícil para profissionais de imprensa). O documento, a edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, diz que o ódio, em parte promovido por líderes políticos de vários países, contra os jornalistas se transformou em violência em todo o mundo, levando a aumento do medo na profissão.

No evento desta quinta-feira, Bolsonaro defendeu a publicação de “palavras, letras e imagens que estejam perfeitamente emanados com a verdade” e disse crer ser necessário trabalhar por isso para “um Brasil maior, grande e reconhecido em todo cenário mundial”. O presidente, entretanto, acumula um histórico de críticas em função de sua reação em redes sociais contra veículos de imprensa, ações essas que ele classificou nesta quinta-feira como “percalços”. “Que as pequenas diferenças fiquem para trás”,  disse o presidente, que não quis dar entrevista depois da cerimônia, segundo informou o jornal O Globo.

“Fica difícil”

Na mais recente rusga com a imprensa, na última quinta-feira (11), o presidente afirmou em sua transmissão semanal nas redes sociais que tenta ser amigo da imprensa, mas voltou a se queixar de notícias sobre seu governo. “Quero ser amigo da imprensa, mas fica difícil. Todo dia são três ou quatro fake news”, afirmou na live.

Nas suas críticas, Bolsonaro se referiu a uma reportagem publicada pela revista Veja que apontou desinteresse do presidente durante as reuniões com parlamentares, recorrendo a computadores e outras distrações e deixando as conversas a cargo do ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil). “Não existe nenhum computador em minha sala de reunião. Em todos os momentos estive presente nas reuniões. Tratei todos com bastante dignidade, atenção, em reuniões nas quais foi tratado de política com P maiúsculo”, disse.

A animosidade do presidente com o jornalismo vem desde a campanha eleitoral do ano passado, e virou padrão desde que ele tomou posse. Levantamento publicado no mês passado pelo jornal O Estado de S.Paulo mostrou que, em média, Bolsonaro usou o Twitter uma vez a cada três dias para publicar ou compartilhar mensagens nas quais critica, questiona ou ironiza o trabalho da imprensa brasileira.

Quase metade das críticas e acusações contra a imprensa que aparecem na conta de Bolsonaro é feita por meio de retuíte de aliados e familiares, como dos filhos Carlos e Eduardo e as páginas que costumam reunir simpatizantes do presidente. Foi o caso do site Terça Livre, que no dia 10 de março, publicou texto que falsamente atribuiu à repórter do Estado de S.Paulo Constança Rezende a declaração “a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”, ao tratar da cobertura jornalística das movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador e filho mais velho do presidente. 

A gravação do diálogo, porém, mostra que Constança em nenhum momento fala em “intenção” de arruinar o governo ou o presidente. A conversa, em inglês, tem frases truncadas e com pausas. Só trechos selecionados foram divulgados. O texto publicado no Terça Livre tem como origem uma postagem no site francês Mediapart, que disse posteriormente reconheceu que as informações que serviram de base para o tuíte de Jair Bolsonaro “são falsas”. O texto original é assinado por Jawad Rhalib, que se apresenta como “autor, cineasta, documentarista e jornalista profissional”.

O caso envolvendo a repórter ganhou repercussão internacional e enfática reação de entidades que representam empresas de comunicação, jornalistas profissionais e a liberdade de expressão. Na ocasião, a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) emitiram nota conjunta em que lamentam o ataque do presidente ao Estado e à repórter Constança Rezende.

As entidades afirmaram que os ataques à repórter têm o objetivo de desqualificar o trabalho jornalístico. “Abert, Aner e ANJ assinalam que a tentativa de produzir na imprensa a imagem de inimiga ignora o papel do jornalismo independente de acompanhar e fiscalizar os atos das autoridades públicas”, diz a nota.

“Fonte de todo o mal”

Também em março, alguns dias depois, o presidente fez críticas à Folha de S.Paulo, jornal ao qual já havia proferido diversos ataques. Em entrevista ao telejornal Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, no dia 27 de março, o presidente se referiu ao jornal como uma "fonte de todo o mal", quando questionado pelo apresentador José Luiz Datena sobre elogios feitos por ele ao ditador chileno Augusto Pinochet durante recente visita ao Chile.

"Não foi falado em Pinochet, ditadura em nada no Chile. Me aponte um áudio, um vídeo nesse sentido, não teve nada disso. A imprensa, maldosamente, um jornal bota, escreve... Geralmente a Folha de S.Paulo começa com tudo. Toda a fonte do mal é a Folha de S.Paulo", disse Bolsonaro.

Questionado por Datena se não haveria "uma obsessão" da parte de Bolsonaro pela Folha, o presidente retrucou. "Não, ela que tem por mim. É o contrário. Publica uma mentira dessas, porque não tem isso em lugar nenhum. Tudo o que fizemos lá foi filmado, fotografado, e vai pra esse lado".

Bolsonaro esteve no Chile de 21 e 23 deste mês, onde foi recebido pelo presidente Sebastián Piñera. Em uma entrevista em 2015, o brasileiro, então deputado federal, elogiou o ditador chileno Augusto Pinochet, que ficou no poder de 1973 a 1990. "Pinochet fez o que tinha que ser feito porque dentro do Chile existiam mais de 30 mil cubanos, então tinha que ser de forma violenta pra reconquistar o seu país", afirmou Bolsonaro na ocasião.

Durante sua visita oficial ao Chile, os principais líderes da oposição boicotaram um almoço que Piñera ofereceu ao brasileiro. O próprio presidente chileno, depois da partida de Bolsonaro, declarou que os elogios à ditadura Pinochet eram "tremendamente infelizes". Em meio a essas desavenças e trapalhadas, Bolsonaro e sua equipe deram um primeiro sinal de tentativa de aproximação com a imprensa ao criar uma agenda de cafés-da-manhã com jornalistas. Na primeira rodada, entretanto, os jornais Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S.Paulo não foram convidados.

Falta “bom senso”

Também nesta quinta-feira, o vice-presidente Hamilton Mourão – que, ao contrário do presidente Bolsonaro, tem mostrado habilidade ao se relacionar com a imprensa – voltou a classificar como censura a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que determinou a retirada do ar de reportagem que cita o presidente da Corte, ministro Dias Toffoli. 

Para Mourão, falta "bom senso" ao Judiciário diante do caso. “Eu já declarei que considero um ato de censura isso daí. Óbvio está no seio do judiciário, uma decisão tomada dentro do STF, compete ao Judiciário chegar a um final melhor disso daí tudo”, disse.  “Não quero tecer críticas ao Judiciário. Cada um sabe onde aperta os seus calos. Espero que se chegue a uma solução de bom senso nisso aí. Acho que o bom senso não está prevalecendo”, afirmou. 

A matéria "O amigo do amigo do meu pai",  que foi retirada do ar na última segunda-feira (15) revelava um documento de um processo da Lava-Jato em Curitiba em que o ex-presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, afirmava que este era o codinome de Dias Toffoli. A decisão de Moraes faz parte de um inquérito sigiloso aberto no mês passado para apurar ataques ao Supremo. Dias Toffoli, em entrevista ao jornal Valor Econômico nesta quinta-feira (18), refutou a tese de que houve censura. Para ele, os veículos de imprensa orquestraram uma narrativa "inverídica" para constranger e emparedar o Supremo às vésperas de a Corte tomar uma decisão sobre a prisão após o julgamento em segunda instância.

Leia mais em:

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/03/bolsonaro-diz-que-folha-e-toda-a-fonte-do-mal-na-imprensa.shtml

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/04/quero-ser-amigo-da-imprensa-mas-fica-dificil-diz-bolsonaro-em-transmissao.shtml

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,imprensa-e-alvo-de-bolsonaro-no-twitter-a-cada-3-dias,70002750823

https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,imprensa-e-essencial-para-a-democracia-diz-bolsonaro,70002796018

https://www.valor.com.br/politica/6217667/bolsonaro-em-que-pese-os-percalcos-precisamos-de-voces-da-imprensa

https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-diz-que-pais-precisa-da-imprensa-para-que-chama-da-democracia-nao-se-apague-23608762

https://oglobo.globo.com/brasil/para-mourao-decisao-de-retirar-reportagem-do-ar-ato-de-censura-falta-de-bom-senso-23609197