Bloqueio das redes sociais no Sri Lanka reflete pressão global sobre as gigantes de tecnologia, que continuam a fugir de suas responsabilidades em relação a conteúdo  Reprodução/AFP

Bloqueio das redes sociais no Sri Lanka reflete pressão global sobre as gigantes de tecnologia, que continuam a fugir de suas responsabilidades em relação a conteúdo 

A decisão do governo Sri Lanka de bloquear o acesso a redes sociais neste domingo (21), logo após a série de ataques contra igrejas e hotéis que deixou mais de 200 pessoas mortas no país em plena Páscoa. A medida, uma tentativa de impedir a disseminação de boatos relativos aos atentados, pode marcar um ponto de virada em como países do mundo percebem o Vale do Silício – e sua disposição de agir para impedir a disseminação de falsidades online –, relatou reportagem do jornal The Washington Post. A reação radical do Sri Lanka reflete a insatisfação global com o desinteresse das gigantes digitais em assumir a responsabilidade do conteúdo que propagam. O movimento, no entanto, abre mais o caminho para aqueles que desejam apenas reprimir e controlar a informação que circula nas mídias interativas.

A decisão tomada no fim de semana tornou o Sri Lanka no primeiro país a bloquear as redes sociais em resposta a um incidente nacional, disse ao The Washington Post Alp Toker, diretor executivo do NetBlocks, um grupo britânico de direitos digitais sediado em Londres que registra cerca de 60 incidentes ou bloqueios parciais online desde 2015. Em geral, afirmou Toker, há um “crescente desejo” por parte dos governos de “ter a última palavra sobre se a mídia social é censurada, bloqueada ou restrita”.

O The Washington Post lembrou, assim como já fez em reportagens anteriores, que uma década atrás, Facebook, Twitter e outras mídias interativas tiveram papel importante em revoltas pró-democracia que derrubaram ditadores em todo o Oriente Médio, e seus serviços foram vistos como uma forma de ajudar em catástrofes, permitindo que as autoridades transmitissem informações cruciais e organizassem assistência.

Hoje, porém, advertiu o diário norte-americano, essas mesmas redes sociais também têm sido utilizadas, como apontam vários analistas, para corroer a democracia, espalhando desinformação para uma audiência de milhões de pessoas em questão de minutos e alimentando a violência étnica antes que as autoridades tomem medidas para impedir.

Essa sensação, segundo registrou o The Washington Post, cresce diante da aparente inabilidade dos gigantes da tecnologia em encontrar um equilíbrio entre a liberdade de expressão e a proteção do público contra danos. "O que aconteceu ontem com o governo fechando o acesso às mídias sociais é parte de um quadro muito maior que está acontecendo em todo o mundo", disse Michael Abramowitz, presidente da Freedom House, uma think tank com sede em Washington (EUA) que mede os direitos políticos e civis globalmente.

Os países de tendência autoritária, afirmou o presidente da Freedom House, trabalham há muito tempo para controlar as mídias sociais quando desafiam sua capacidade de controlar informações. Mas no ano passado, governos mais democráticos começaram a atacar sites de mídia social, considerando novas regulamentações para acabar com a desinformação durante as eleições e para impedir seu uso como pontos de disseminação de ódio e extremismo, destacou o The Washington Post.

"Eu não posso dizer se está certo ou errado, mas mostra com certeza a preocupação com a desinformação nesta parte do mundo", disse o ex-agente do FBI Clinton Watts, que estuda desinformação para o Policy Research Institute. "O bloqueio impede que a comunicação acelere a desinformação e organize os ataques", disse. "Essencialmente, esse bloqueio pode desacelerar as coisas para que as autoridades entendam o que está acontecendo antes que a violência saia do controle".

Google e Twitter se recusaram a comentar. O Facebook não respondeu imediatamente aos pedidos de comentários na segunda-feira (22). "As pessoas confiam em nossos serviços para se comunicar com seus entes queridos e estamos comprometidos em manter nossos serviços e ajudar a comunidade e o país durante este momento trágico", disse o Facebook no fim de semana.

O pesquisador Sanjana Hattotuwa, do Center for Policy Alternatives em Colombo (maior cidade do país), disse ao The Washington Post que há uma grande quantidade de informações erradas circulando sobre o número de mortos e feridos nos atentados. Hattotuwa monitoria as redes sociais em busca de fake news e de conteúdos de incitação ao ódio ou à violência no país. Ele afirmou que boatos sobre a autoria do ataque estariam se espalhando rapidamente no idioma cingalês no Facebook e no Twitter. Um deles atribui os atentados a homens-bombas muçulmanos, informação que não foi confirmada até o momento pelas autoridades. 

O temor é que voltem a se repetir as cenas de março de 2018. Na ocasião, um boato circulou nas redes sociais afirmando que um homem muçulmano teria assassinado uma pessoa da etnia cingalesa — que engloba 75% da população e segue majoritariamente o budismo. Com 22 milhões de habitantes, o Sri Lanka é marcado por uma série de conflitos étnicos e religiosos entre a maioria cingalesa e as minorias tâmil (que segue principalmente o hinduísmo e inclui 11% da população). 

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https://www.washingtonpost.com/technology/2019/04/22/sri-lankas-social-media-shutdown-illustrates-global-discontent-with-silicon-valley/?noredirect=on&utm_term=.d2b36c41c1c5&wpisrc=nl_tech&wpmm=1

https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/04/apos-atentados-na-pascoa-sri-lanka-bloqueia-redes-sociais.shtml