López Obrador desqualifica imprensa e não garante transparência, dizem jornalistas mexicanos Reprodução

López Obrador desqualifica imprensa e não garante transparência, dizem jornalistas mexicanos

Após um período de extrema violência e impunidade no período da presidência de Enrique Peña Nieto, de 2012 a 2018, o México permanece hostil ao jornalismo, segundo relato dos jornalistas Salvador Camarena e Daniel Moreno, durante o 12º Colóquio Ibero-americano de Jornalismo Digital, em 14 de abril, na Universidade do Texas em Austin. Os profissionais, segundo o Centro Knight, afirmaram que o atual mandatário mexicano, Andrés Manuel López Obrador, há quatro meses no poder, implementou uma estratégia de assédio e desqualificação contra os meios de comunicação que está causando uma polarização da imprensa do país.

Camarena, diretor-geral de investigação jornalística da organização Mexicanos contra a Corrupção e Impunidade (MCCI), e Moreno, diretor editorial do site Animal Político, conduziram a palestra "Os Desafios e Realidades do Jornalismo Mexicano", na qual os jornalistas explicaram o panorama atual da imprensa crítica no México diante da chegada ao poder de López Obrador, em 1º de dezembro de 2018.

O presidente, que tem aprovação de mais de 70% de acordo com pesquisas, fez do ataque aos meios uma de suas narrativas favoritas, disse Camarena. Um exemplo é o termo "imprensa fifí", que López Obrador cunhou para se referir à mídia que, em sua opinião, é conservadora e, portanto, corrupta, explicou o jornalista.

"Esses insultos nos levam a uma polarização maior, onde ele tem muito dinheiro, muitos canais de comunicação, maioria nos dois congressos – a Câmara dos Deputados e a Câmara dos Senadores – e também tem um governo inteiro mobilizado nisso, em ofender os jornalistas", disse Camarena.

López Obrador, informou o Centro Knight, oferece coletivas de imprensa de segunda a sexta-feira às 7h por cerca de uma hora e meia, que são transmitidas na televisão aberta, YouTube, Facebook, Twitter e são divulgadas no Spotify. No entanto, sua estratégia de comunicação está longe de oferecer transparência e prestação de contas, segundo Moreno. "Se alguém faz uma pergunta crítica, os jornalistas que estão na coletiva de imprensa sibilam contra o jornalista porque 'como ele ousa perguntar essas coisas'", disse Moreno. "Dar uma coletiva de imprensa onde os jornalistas fazem isso se você perguntar algo ‘errado’ não é prestar contas", acrescentou.

Quando os jornalistas refutam as declarações de López Obrador com dados, o presidente os desqualifica e insiste que são seus próprios dados o que conta, disse Moreno. Como na coletiva de imprensa na sexta-feira, 12 de abril, quando o jornalista da Univision Jorge Ramos o questionou sobre a taxa de homicídios no México. O comunicador recebeu milhares de ataques em redes sociais com a hashtag #JorgeRamosProvocador. Na segunda-feira seguinte, o presidente se referiu ao fato de que, se os jornalistas "passam do limite, eles já sabem o que acontece".

Pelo menos três jornalistas foram assassinados no México em 2019. Desde 2000, mais de cem comunicadores mexicanos foram mortos, segundo a organização Repórteres sem Fronteiras (RSF).

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