Nick Enfield, professor na Universidade de Sydney, na Austrália Nick Enfield, professor na Universidade de Sydney, na Austrália / Reprodução

Compartilhar desinformação nas redes sociais é como ignorar os cuidados contra as doenças infecciosas, diz linguista

A humanidade está conectada e as pequenas ações nas redes sociais podem ter grandes consequências. Se as informações compartilhadas forem falsas, haverá danos reais, uma vez que são expostas em uma cadeia de usuários que podem levar adiante o conteúdo, multiplicando a desinformação, assim como ocorre com as doenças infecciosas. Mesmo assim, as pessoas tratam os conteúdos nas mídias interativas de maneira imprudente. A análise é de Nick Enfield, professor de linguística na Universidade de Sydney, na Austrália. “Parece que estamos cegamente dispostos a compartilhar histórias cuja verdade não temos certeza”.

Em artigo no jornal The Guardian, compara o problema às mudanças nas condições de vida através de explosões populacionais e urbanização que introduziram novos e drásticos riscos de infecção, da cólera à peste bubônica. “Sem saber como as doenças se espalham, as pessoas contribuíram ativamente para a crise com comportamentos perigosos, como falta de saneamento”. Com o tempo, os avanços científicos de como as doenças se espalharam não apenas revolucionaram as práticas cotidianas e estabeleceram novos padrões de responsabilidade em nosso comportamento individual, garantindo mais proteção às populações. “Precisamos aplicar a mesma razão ética no manuseio de informações nesta era de decadência da verdade”, defendeu.

Enfield disse que um dos motivos para que levam a as pessoas a compartilhar inverdades é que elas acreditam facilmente que algo é realmente verdade. “Todos nós sofremos com o viés de confirmação, a disponibilidade para aceitar evidências que confirmem nossos pontos de vista e rejeitar evidências que os contradigam”, afirmou. Outra razão pela qual as falsidades são transmitidas, disse, é que muitas vezes as pessoas não se importam se uma história é verdadeira ou não. “Compartilhamos o que nos agrada, sem considerar o que pode acontecer se os outros acreditarem que é verdade”.

O estudioso, que também lidera a Sydney Initiative for Truth (SIFT), advertiu que esse comportamento é particularmente preocupante na era da mídia social. “De repente, adquirimos poderes sem precedentes para transmitir informações em um instante para milhões de outras pessoas. Mas ainda precisamos aprender a lidar com esse poder de maneira consciente e ética”.

O que precisamos urgentemente, destacou Enfield, são de avanços na alfabetização informacional. “Isso deve começar com uma apreciação verdadeira de nossa suscetibilidade à falsidade e seus perigos, e deve levar a um senso de dever individual de fazer uma pausa, pensar e verificar antes de transmitir informações”.

O professor recorre novamente à metáfora da doença para explicar o que sugere. “O bioeticista Eric Kodish escreveu que ‘os pais que optam por não imunizar seus filhos são eticamente negligentes’, diminuindo o limiar para a imunidade grupal à infecção. Da mesma forma, quando nós compartilhamos milhões de informações falsas, somos eticamente negligentes, poluindo a internet e reduzindo o limiar de imunidade de grupo às besteiras”

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https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/apr/24/ideas-spread-like-disease-lets-treat-them-with-the-same-caution