David V Johnson, editor sênior da Stanford Social Innovation Review David V Johnson, editor sênior da Stanford Social Innovation Review / Reprodução

Toxicidade das redes sociais deve ser combatida com transparência e contraposição aos maus atores, diz jornalista e filósofo

Discurso de ódio, desinformação e preconceitos de todos os tipos que poluem as redes sociais, muitas vezes impulsionados por grupos com interesses específicos ou pela manipulação política, têm transpassado o universo virtual e se transformado em violência e ignorância reais. O fenômeno coloca em risco as democracias e, particularmente, deixa em crise o papel da livre expressão. Somado ao pouco que Google, Facebook e outros gigantes de tecnologia fazem para resolver o problema, esse ambiente tóxico coloca o mundo em corda bamba. David V Johnson, editor sênior da Stanford Social Innovation Review, diz que a vara – tal qual a utilizada pelos acrobatas – capaz de manter a sociedade em equilíbrio sobre o instável, mas desejável, piso da democracia liberal é o engajamento racional, o contra-ataque aos “maus atores” que propagam a falsidade e a transparência.

Atualmente, escreveu Johnson no site Aeon, as pessoas com razão começam a se perguntar quais são os limites da livre expressão e quais devem ser as regras. “É uma questão complicada, e resolvê-la requer cuidado com os problemas exatos e soluções propostas. Caso contrário, o risco à liberdade de expressão é real”, disse. Ele relembra aquela que considera a mais convincente defesa de liberdade de expressão, consciência e autonomia já escrita – muito antes da era digital.

Em On Liberty (1859), John Stuart Mill, continua Johnson, argumenta que a única razão para restringir a fala é evitar danos a outras pessoas, como com discurso de ódio e incitamento à violência. Caso contrário, todo discurso deve ser protegido. “Mesmo que saibamos que uma visão é falsa, Mill diz que é errado suprimi-la. Evitamos o preconceito e o dogmatismo e alcançamos a compreensão, discutindo e defendendo livremente o que acreditamos contra as afirmações contrárias”, afirmou Johnson, jornalista e filósofo.

Hoje, mais pessoas veem essas opiniões como ingênuas, reconhece editor sênior da Stanford Social Innovation Review. Os argumentos de Mill, disse, são mais adequados para aqueles que ainda acreditam o conceito de abertura de ideias, onde o debate livre e racional é a melhor maneira de resolver todas as disputas sobre a verdade e a falsidade. “Em vez disso, o que temos [atualmente] é um faroeste de partidarismo e manipulação, em que os gurus da mídia social exploram a pesquisa em psicologia comportamental para obrigar os usuários a afirmarem e ecoarem afirmações absurdas. Temos um mundo onde as pessoas vivem em bolhas cognitivas de outros que pensam da mesma maneira e compartilham os preconceitos uns dos outros”.

Este “admirável mundo novo”, salientou Johnson, é muito propenso à propaganda e à conspiração. Nesse caso, confiar no otimismo de Mill sobre a liberdade de expressão pode parecer com algo de grande potencial de incentivo à ascensão de tendências fascistas e absolutistas. Mas não o é, segundo Johnson. “Quando crenças e teorias importantes e falsas ganham força na conversa pública, a proteção do discurso de Mill pode ser frustrante. Mas não há nada de novo em ‘notícias falsas’”, sustenta o jornalista e filósofo. “Procurar uma solução para restringir a fala é tolo e contraproducente – dá credibilidade às forças antiliberais que você, paradoxalmente, procura silenciar”.

Johnson reforçou que, se quisermos viver em uma sociedade democrática liberal, o engajamento racional é a única solução oferecida. “Em vez de restringir a fala, devemos procurar complementar a visão de Mill com ferramentas eficazes para lidar com maus atores e com crenças que, embora falsas, parecem atraentes para alguns”, disse. Pessoas e organizações que intencionalmente transmitem falsas visões como a verdade e ocultam sua natureza e motivos devem ser alvo de contraposição, em um processo no qual a transparência é fundamental, ajudando as pessoas a saber com quem ou o que estão lidando. “A transparência ajuda a filtrar o ruído e promove a responsabilização, de modo que os maus atores – aqueles que escondem sua identidade com o propósito de enganar os outros – são eliminados.

O psicólogo canadense e sensação do YouTube Jordan Peterson é um bom exemplo de como o caminho citado por Johnson pode funcionar. “[Ele] diz coisas que são falsas, misóginas e antiliberais, mas uma possível razão para seus seguidores é que ele reconhece, e fala a respeito, de um déficit de significado e de valores na vida de muitos jovens. Aqui, a abordagem correta é separar o verdadeiro e convincente do falso e do tóxico, por meio de considerações ponderadas”.

Seguindo o caminho de Mill, argumentou Johnson, há mais chance de conquistar aqueles que estão perdidos para pontos de vista que desprezamos. “Também nos ajuda a melhorar nosso próprio entendimento, como Mill sabiamente sugere”.

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